Erik Carlsson (05/03/1929 -27/05/2015)

“Good bye, Mr. SAAB”

Erik Crlsson (05/03/1929 - 2015)

Erik Crlsson (05/03/1929 – 27/05/2015)

Erik Carlsson, que ficou famoso pelas suas façanhas ao volante dos SAAB 92 e 96, mas também pela parceria que fez, tanto na vida como nos ralis, com Pat Moss, irmã de outro piloto famoso, Stirling Moss, morreu em sua casa. Tinha 86 anos.

E foi precisamente Stirling Moss que, uma vez, disse dele, que era não apenas cunhado como um dos seus melhores amigos: “O Erik foi a melhor coisa não mecânica que saiu de Trollhattan.” Mas esta cidadezinha sueca, curiosamente, apenas ficou famosa – e por duas coisas – depois de Carlsson ter ficado mundialmente… famoso pelas suas peripécias ao volante do “92” e, especialmente, do “96”. Essas coisas foram Erik Carlsson e a SAAB, que tinha aí a sua sede e que, antes do “92” e do “96”, fazia aviões.

Erik Carlsson/Gunnar Palm (RAC 1964)

Erik Carlsson/Gunnar Palm (RAC 1964)

Outra curiosidade: Erik Carlsson começou a sua carreira como piloto de motos, usando uma Norton 500 em várias competições. Na verdade, trabalhava para um concessionário da marca britânica chamado Pelle Nyström e foi a seu lado que, em 1952, se estreou nos ralis. Ou melhor, foi atrás que se estreou, pois passou todo o Rali da Suécia sentado num banquinho na parte de trás de um Volvo, usando a sua compleição de urso para melhorar a distribuição de pesos do carro. O lado direito desse carro onde Carlsson deveria ir sentado, foi transformado num quarto por Nyström, que colocou lá uma cama e onde batia umas sonecas nas secções noturnas da prova, vestido de pijama e tudo, enquanto o bom do Carlsson conduzia, mais com os olhos postos nos mapas que na estrada!

Em início de carreira

Em início de carreira

Foi nessa altura que Carlsson comprou o seu próprio – e primeiro – carro, um SAAB 92, ao dono de uma quinta endividado e a contas com um banco. Nado e criado mesmo ao lado do sítio onde eram feitos os SAAB, conduzir outra cosia qualquer era inimagionável para o grande sueco – além de que, nesses tempos, aidna não existiam limites de velocidade e estradas de terra eram coisa que não faltava em volta da sua casa.

Na sua estreia como piloto, deu imediatamente nas vistas. E não apenas por ter aterrado no jardim verdejante de uma mercearia local – depois de ter perdido os seus faróis e atravessado a alta velocidade uma vedação. Esses faróis tinham sido montados pelo seu navegador Sten Helm, que trabalhava na estação elétrica da aldeia e tinha umas luzes sobre coisas de eletricidade. Apesar disto, ganharam a classe.

Erik Carlsson só pilotou modelos da SAAB

Erik Carlsson só pilotou modelos da SAAB

Seguiu-se a isso um título de campeão regional, em 1954, que Carlsson conquistou conduzindo um antigo SAAB 92 de fábrica, que apimentou a preceito, conseguindo aumentar a sua potência de 25 para 36 cv. E foi com este carro que Carlsson começou a fazer o seu nome, depois de uma excecional vitória num Rikspokalen Rally particularmente escorregadio, que sem nunca colocar correntes para neve, pois achava que elas tiravam a potência ao carro. E foi confiando na sua extrema habilidade nessas condições que ele venceu, humilhando a nata das natas dos ralis europeus, presente na prova.

Monte Carlo 1963

Monte Carlo 1963

A sua forma de pilotar tornou-se lendária: com tão pouca potência disponível, ultrapassava isso travando com o pé esquerdo, mantendo o acelerador a fundo, com o três cilindros sempre a uivar, enquanto balanceava a traseira do carro em longos “slides” perfeitamente controlados, Terá sido ele um dos primeiros pilotos a utilizar a técnica de travar com o pé esquerdo. O seu poder de controlo do carro era do outro mundo.

Atenta, a SAAB fez aquilo em que ele era useiro e vezeiro: bateu-lhe à porta, retribuindo a insistência deste sueco de grande estatura, que nunca desistia do que queria, com um convite para piloto de testes, em 1955. Carlsson aceitou, sem hesitar. Não existiam contratos, nem papéis assinados: o acordo foi feito com um firme aperto de mão e isso foi o início de uma ligação para toda a vida.

Monte Carlo 1962

Monte Carlo 1962

Depressa o nome Carlsson ficou conhecido por toda a Suécia – e, depois da sua vitória nos Mil Lagos, em 1957, passou a sê-lo também para lá das fronteiras.

1959 deveria ter sido o ano da sua consagração internacional, com o título de Campeão da Europa, então o máximo que havia. Porém, perdeu-o para o francês Paul Coltelloni, na última prova, em circunstâncias extraodinárias. Nessa altura, essa última prova era… o Rali de Portugal. Bastava um quinto lugar, para Carlsson ser campeão. Depois de capotarem o SAAB, a 110 km/h, tentando evitar um cruzamento ferroviário, que estava fechado por causa da passagem eminente de um comboio (Carlsson e o seu co-piloto, John Sprinzel, recordaram mais tarde o vento do comboio, que passou que nem um trovão mesmo a rasar o carro, virado num valado bem ao lado da linha!) conseguiram chegar ao fim em terceiro lugar. Eram, pois, campeões europeus.

Mas, mesmo quando estavam a começar a celebrar, Carlsson soube que tinha levado uma penalização de 25 pontos… por ter os números nas portas em branco, em vez de serem em preto! Contas feitas, respirou de alívio: eram campeões, na mesma. Mas não era bem assim: os organizadores tiveram o cuidado de especificarem que eram 25 pontos… por cada lado; portanto, no total eram 50 pontos! E Coltelloni foi, assim, designado campeão…

Tentar andar depressa com um carro tão fraco e frágil por vezes dava nisto

Tentar andar depressa com um carro tão fraco e frágil por vezes dava nisto

Como se não bastasse este insulto, Carlsson foi obrigado a conduzir, de volta à Suécia, um SAAB sem vidros (não conseguiu encontrar nenhuns em Portugal…), que tinham desparecido no capotanço, no meio de um inverno particularmente gelado! Por duas vezes saiu de estrada após adormecer, e a única maneira que encontrou de ficar um bocado mais quente foi pôr uma lata no chão do carro, cheia de óleo e trapos a arder!

Czech Rally 1967

Czech Rally 1967

Mesmo que o título lhe tenha escapado, Carlsson veio a ganhar tudo o que de importante havia para ganhar, incluindo o Monte Carolo por duas vezes (1962 e 1963) e o RAC por três (1960, 1961 e 1962), sempre consecutivas.

A 3 de Março de 1963, casou-se com Pat Moss e mudou-se para Inglaterra. Foi o início de uma dupla paixão – era adorado no seu novo país e, por sua vez, adorava uma nativa, por quem aliás deixou de correr, poucos anos mais tarde, em 1968, optando então por viver uma vida a dois, pacatamente e com meras atividades de embaixador da SAAB, como bom “Mr. SAAB” que era. Mas, antes, os dois deixaram a sua marca na História dos ralis mundiais.

Rali de Monte Carlo 1963

Rali de Monte Carlo 1963

Na verdade, tão “antes”, que a primeira história de ambos teve lugar meses … antes de se casarem. Foi no RAC de 1962. Com um apoio da suspensão traseira partido, o SAAB 96 arrastava-se pelas estradas, cada vez mais desconjuntado. Mesmo assim, desistir era coisa que nem sequer lhes passava apela cabeça, até porque estavam na frente da prova e parecia difícil, mesmo nessas condições, alguém conseguir tirá-los de lá. Mesmo assim, quando estava a pensar que tudo se encaminhava para o inevitável abandono, com o carro cada vez mais a parecer-se com o chapéu de um pobre, passou por um “96” civil, estacionado num parque, sem ninguém por perto. Não hesitou: parou, levantou o carro alheio com o macaco, retirou a peça que era precisa e deixou uma nota presa ao para-brisas, antes de arrancar. O dono do carro e o casal acabaram amigos, trocando cartões todos os Natais, durante muitos anos…

Erik Carlsson e Pat Moss num Rali das Túlipas

Erik Carlsson e Pat Moss num Rali das Túlipas

Erik e Pat (que se tornou Moss-Carlsson) correram muitas vezes um contra o outro. Ela, ao contrário do marido, conseguiu ser Campeão da Europa (de Senhoras) – e por cinco vezes. Morreu em 2008, aos 74 anos. Mas, muito antes, em 1965, escreveram a quatro mãos um livro, chamado “A Arte e a Técnica da Pilotagem” [“The Art and Technique of Driving”), que foi traduzido para holandês, alemão, japonês e espanhol.

Carlsson embaixador da SAAB

Carlsson embaixador da SAAB

Depois de pendurar o capacete e as luvas, Erik Carlsson dedicou-se à SAAB. Não havia apresentação de um carro novo em que ele não estivesse presente. Muitas vezes, participou nos testes de desenvolvimento de um carro. E, também aqui, deixou a sua marca: a apresentação do novo 9-5 na América foi feita a partir de um avião militar de transporte Fairchild C123. O carro novo lá estava, na parte traseira do avião, com Carlsson sentado ao volante. O programa dizia que o avião iria aterrar em Palm Springs, com o 9-5 a sair então para a pista, com o sueco ao volante, mostrando assim, dessa forma espetacular, pela primeira vez o carro ao mundo. Ninguém lhe disse, contudo, que a porta do porão do avião não se fechava bem, ou que o carro só estava preso com um simples pedaço de corda! Mas é justo dizer que, enquanto o avião rugia pelos céus, Carlsson não conseguia tirar os olhos da nesga de porta que deixava ver o abismo, com o pé esquerdo e o pé direito fortemente cravados em cima do pedal do travão…

Mais um Monte Carlo...

Mais um Monte Carlo…

Famoso em todo o Mundo, e durante tanto tempo, Erik Carlsson vai decerto deixar saudades. Talvez não tanto pela sua incrível mestria por trás de um volante… de SAAB e que, já depois de pendurar o capacete e o fato, o levaram até à Baja 1000, do outro lado do Atlântico e da América para, com um 96 V4, ser 3º em 1969 e em 5º, no ano seguinte. Mas sim porque, em qualquer lugar em que estivesse, uma história nova estava pronta a ser partilhada.

 AS VITÓRIAS DE UMA CARREIRA

Carlsson e Moss num Monte Carlo Histórico

Carlsson e Moss num Monte Carlo Histórico

1955 – Rikspokalen (SAAB 92)

1957 – Mil Lagos (SAAB 93)

1959 – Rallye Deutschland (SAAB 93)

1960 – RAC; 2º Acrópole (SAAB 96)

1961 – Acrópole e RAC (SAAB 96); 4º Monte Carlo (SAAB 95)

1962 – Monte Carlo e RAC, 7º Safari (SAAB 96)

1963 – Monte Carlo; 2º Liège-Sofia-Liège (SAAB 96)

1964 – Sanremo/Rally dei Fiori, 2º Liège-Sofia-Liège, 2º Safari (SAAB 96)

1965 – 2º BP Australian Rally; 2º Acrópole (SAAB 96 Sport)

1967 – Czech Rally (SAAB 96 V4)

Nem sempre as coisas corriam bem...

Nem sempre as coisas corriam bem…

HR

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