Manoel de Oliveira (Porto, 11/12/1908 – 02/04/2015)

Morreu um cineasta de antologia e piloto de coragem

Manoel de Oliveira (11/12/1908 - 02/04/2015)

Manoel de Oliveira (11/12/1908 – 02/04/2015)

Manoel de Oliveira morreu na sua casa do Porto, cidade onde nasceu há 106. Celebrado cineasta de calibre universal, foi também um dos grandes vultos do automobilismo nacional, nas décadas de 30 e 50 do século passado. Esta foi uma faceta que poucos conhecem, mas na realidade este portuense de gema deixou a sua marca também nas pistas nacionais e internacionais.

Nascido na cidade do Porto em 11 de Dezembro de 1908, desde cedo se assumiu como um desportista nato, praticando atletismo e ginástica no seu clube do coração, o Sport Club do Porto. Praticou triplo trapézio e chegou a sagrar-se vice-Campeão Nacional de salto à vara, demonstrando uma invulgar resistência física que depois lhe foi muito útil quando, a partir de 1935, começou a fazer corridas de automóveis.

Antes disso, contudo, já tinha começado a fazer filmes, em 1927, tendo como cenário a sua querida cidade do Porto. A primeira longa -metragem saiu em 1931 – “Douro, Faina Fluvial” – mas foi mal recebido pelo público, embora tenha de imediato recebido reconhecimento internacional, algo que, ao longo da sua profícua vida de cineasta, viu bastas vezes suceder…

Dois anos mais tarde, em 1933, foi ator no primeiro filme sonoro português, “A Canção de Lisboa”. Era já nessa altura fã de Charlie Chaplin.

Carreiras paralelas

Circuito de Vila Real 1937

Circuito de Vila Real 1937

Manoel Oliveira iniciou-se com o seu Fiat Balilla, por ‘desporto’ e por influência do seu irmão mais velho, Casimiro, numa gincana no Palácio de Cristal. Ganhou e, logo a seguir, a conselho do irmão, decidiu comprar um BMW, participando no Circuito de Vila Real de 1936, que acabou em 2º lugar.

Foi então que conheceu Eduardo Ferreirinha, engenheiro e piloto, que então se dedicava à transformação de carros da Ford, oriundos dos Estados Unidos da América. Com potentes motores V8 de 3 litros, “nasciam” na garagem de Manuel Menéres, pai do ex-piloto António Menéres, que era o representante da marca na cidade do Porto. Ferreirinha precisava de um piloto que ajudasse a desenvolver o projeto e quisesse correr com o carro, que ficou conhecido por Ford V8 e Manoel Oliveira aceitou o desafio, dando assim início a uma séria parceria, que trouxe a ambos excelentes resultados, a partir de 1937.

Neste ano, participou no GP do Estoril, dominando a prova, apesar da oposição do britânico Edward Rayston, em Maserati, que motivou um intenso duelo que fez vibrar o público. Entusiasmado, Manoel Oliveira pensou logo em voos mais altos, designadamente acompanhar o seu irmão Casimiro ao Brasil, para uma corrida no então famoso Circuito da Gávea, a convite dos organizadores.

Levando a coisa muito a sério, Manoel de Oliveira começou a sua preparação física para o acontecimento, que nessa altura era uma das mais reconhecidas e importantes provas internacionais de automóveis. Em Março, levou o Ford V8 ao primeiro lugar na Rampa do Gradil e, pouco depois, ele e Casimiro embarcaram para o Rio de Janeiro, acompanhados dos respetivos carros – o Ford V8 e um Bugatti, ambos pintados de vermelho e branco, as cores que representavam Portugal nas provas internacionais.

Na então capital do Brasil, Manoel e Casimiro foram recebidos de forma apoteótica pelos milhares de portugueses ali residentes. Não estavam entre os favoritos à vitória naquele que era conhecido como o “Trampolim do Diabo” pelas suas grandes dificuldades mas, a 12 de Junho de 1938, quando a corrida terminou, Manoel subiu ao terceiro lugar do pódio, atrás do italiano Carlo Pintacuda e do argentino Carlo Arzani. Casimiro foi quinto e o resultado foi celebrado pelos espetadores como se se tratasse de uma dupla vitória.

O talento dos irmãos Oliveira foi de imediato reconhecido tendo ambos recebido diversos convites para correrem no Brasil e na Argentina. Manoel chegou mesmo a ponderar estabelecer-se no Brasil, empenhando-se mais a sério na sua carreira desportiva.

Mas não foi isso que aconteceu e, regressado a Portugal, Manoel de Oliveira recebeu novo convite de Eduardo Ferreirinha, que tinha decidido construir de raiz a sua mova marca, a Edfor, para ajudar a desenvolver e a divulgar o carro. Oliveira chegou mesmo a fazer um filme sobre a Edfor, “Já Se Fazem Automóveis em Portugal”, mas o “feedback” foi quase nulo – não surgiram interessados nos Edfor e, por isso, apenas se construíram quatro exemplares…

Em 1939 estalou a II Grande Guerra e as corridas de automóveis pararam em Portugal. Manoel de Oliveira aproveitou para se casar, decidindo então deixar de correr e dedicar-se com, mais intensidade à arte de fazer filmes. “Casei e tive que tomar juízo. Já não me interessava andar a correr de automóvel. A minha esposa ficaria em cuidados e não havia necessidade disso.”

Assim, em 1942 realizou aquele que ficou como o seu primeiro grande filme: “Aniki Bobó”, sobre um grupo de crianças da sua cidade natal. Não foi um sucesso repentino, mas mais tarde acabou por se tornar num filme de culto.

Depois do final do conflito, Manoel de Oliveira teve uma segunda carreira de piloto, algo discreta, mas nos ralis, que eram mais seguros. A sua última prova foi em 1953, deixando de correr, por causa do acidente que quase vitimou o seu irmão, no GP de Portugal de 1956.

Dedicou-se então ao negócio de lâmpadas da família, antes de regressar aos comandos das máquinas de filmar, a meio da década de 60. Alguns dos seus filmes tornaram-se sucessos mundiais e Manoel de Oliveira recebeu, nas últimas décadas de uma longa carreira de realizador, inúmeros prémios e condecorações. Entre os seus filmes, destacam-se “Benilde ou a Virgem Mãe” (1974), “Amor de Perdição” (1979), “Francisca” (1981), “Le Soulier de Satin” (1985), “Non, ou a Vã Glória de Mandar” (1990), “A Divina Comédia” (1991), “Vale Abraão” (1993), “O Convento” (1995), “O Quinto Império – Ontem como Hoje” (2004), “Espelho Mágico” (2005), “Belle Toujours“ (2006) e “O Gebo e a Sombra” (2012). O último, “O Velho do Restelo”, estreou em 2014. Duas semanas antes da sua morte inesperada – se tal se pode afirmar de uma morte que, pela idade, era esperada por todos… – Manoel de Olibveria ainda trabalhava e confessa “estar ocupado até 2016.”

Manoel de Oliveira, que era fã confesso de Juan Manuel Fangio e de Ayrton Senna, continuou a conduzir o seu automóvel particular até aos 97 anos, altura em que decidiu não renovar a sua carta de condução… “por não ter paciência para os testes psicotécnicos.”

Duas semanas antes da sua morte inesperada – se tal se pode afirmar de uma morte que, pela idade, era esperada por todos… – Manoel de Oliveira ainda trabalhava e confessa “estar ocupado até 2016.” Paz à sua alma.

PALMARÉS

1935

21/04 – Gincana Palácio de Cristal – 1º (Fiat Balila)
27-28/04 – Rali ao Porto – 4º Cat. A (Fiat Balila)
10/08 – Rali à Curia – 7º Classe (Fiat Balila)
11/08 – Rampa do Buçaco – 1º Grupo II Sport (Fiat Balila)
08/09 – Rali à Figueira (ACP) – 1º Classe A (Fiat Balila)

1936

14-15/03 – Rali à Serra da Estrela – Desc. (Ford V8)
31/05 – Circuito de Santarém – 3º (Ford Especial V8)
21/06 – Circuito de Vila Real (Sport) – 2º (BMW 319)
06/07 – Rampa da Pena – 2º Cat. Corrida (Ford Especial V8);
3º Cat. Sport (BMW 315)
15-16/08 – Rali à Póvoa do Varzim – 1º Geral (BMW 315)
06/09 – Rampa do Cabo da Roca – 1º Cat. Corrida (G.IV) (Ford Especial V8); 2º Cat. Corrida (G.III) (BMW 319/1); 1º Cat. Corrida (G.II) (BMW 315); 2º Cat. Sport (G.III) (BMW 315)
26-27/09 – Rali à Figueira da Foz (ACP) – 2º Classe A, 5º Geral (BMW 315)
28/09 – Rampa do Buçaco – 2º Cat. Corrida (G.IV) (Ford Especial V8); 1º Cat. Corrida (G.II) (BMW 315)
04/10 – Rampa de Santarém – 3º Cat. Corrida (G.IV) (Ford Especial V8)

1937

18-19/04 – Rali ao Porto – 4º Classe A (BMW 315)
25/07 – Circuito de Vila Real – 4º (Ford Especial V8)
15/08 – Circuito do Estoril – 1º (Ford Especial V8)

1938

13/03 – Rampa do Gradil – 1º (Ford Especial V8)

12/06 – Circuito da Gávea (Brasil) – 3º (Ford Especial V8)

24/07 – Circuito de Vila Real – Desc. (Ford Especial V8)

1947

29-31/08 – Rali a Miramar – 1º (Ford 100 cv Two Door Sedan)

1948

26-29/05 – IV Rali Internacional a Lisboa 45º (Ford 100 cv Two Door Sedan)

1949

24/07 – Rali à Póvoa do Varzim – 2º (Ford 100 cv Two Door Sedan)
26-28/08 – II Rali a Miramar – 31º (Ford 100 cv Two Door Sedan)
18/09 – Km Arranque Esposende – 2º (Ford 100 cv Two Door Sedan)
18/09 – Km Lançado Esposende – 5º (Ford 100 cv Two Door Sedan)

1951

1-7/05 – V Rali Internacional a Lisboa – 2º (Ford 100 cv Coupé)

1952

20/07 – IV Rali à Póvoa do Varzim – 2º Classe (Ford Taunus 12 M)

1953

19/07 – V Rali à Póvoa do Varzim – 1º Classe (Ford Taunus 12 M)

 

Hélio Rodrigues

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