JAMES HUNT (29/08/1947 – 15/06/1993)

CM F1 1976

James Hunt (1947 - 1993)

James Hunt (29/08/1947 – 15/06/1993)

Selvagem. Descomprometido. Louco na vida e nas pistas. Um “playboy” que acreditava que o sexo desenfreado antes de uma corrida era meio caminho andado para vencer. O Campeão do Mundo mais improvável. O seu nome? James Hunt. Ou “Hunt the Shunt”, por causa dos acidentes espetaculares em que se metia com a sua pilotagem atrevida e, por vezes, demencial. Um dos heróis e protagonistas (o outro é a sua antítese, Niki Lauda) do filme “Rush”.

James Simon Wallis Hunt nasceu em Belmont, próximo de Sutton, no condado de Surrey. Filho de um bem-sucedido corretor bolsista, teve uma educação esmerada, nos melhores colégios que o dinheiro da família permitia, preparando-se afincadamente para a profissão de médico. Mas, um dia, tinha ele 18 anos, aceitou o convite de um amigo para ver uma corrida de automóveis – foi paixão imediata e, a partir daí, o jovem James nunca mais foi o mesmo.

Drogas, sexo e álcool

No Grande Prémio dos Estados Unidos Este de 1976 depois da vitória com o cigarrnho e a "girl" da ordem e uma "bejeca" na mão

No Grande Prémio dos Estados Unidos Este de 1976 depois da vitória com o cigarrnho e a “girl” da ordem e uma “bejeca” na mão

Desde cedo carismático e charmoso, rapidamente se tornou uma personagem pouco convencional, mesmo depois (se calhar principalmente…) de estar na F1. Hunt tinha um medo horrível de morrer num acidente mas, apesar disso, usava as corridas como válvula de escape para a enorme dose de adrenalina que o fazia viver intensamente uma vida de excessos – muito à imagem do que faziam os “gentlemen drivers” riquíssimos da década de 50, em que os pilotos morriam quase semanalmente e procuravam viver cada dia como se fosse o último. Que, tantas vezes, até era…

James Hunt, Brands Hatch, 1974

James Hunt, Brands Hatch, 1974

Só que isso, nos anos 70, mesmo ainda com os ecos do Maio de 68 e do “make love, not war” do movimento “hippie” , já não era bem visto. Por isso, James Hunt se tornou uma lenda – mesmo enquanto foi vivo. Mesmo quando, já na década de 90, decidiu colocar um travão na sua vida desregrada e deixar de beber, de fumar e de tomar drogas.

James Hunt era verdadeiramente adorado pelas mulheres

James Hunt era verdadeiramente adorado pelas mulheres

As histórias são quase histriónicas, perfeitas para figurarem numa antologia do improvável. Mas, afinal, elas são verdadeiras e comprovadas por algo mais que o “diz-se diz-se” dos “paparazzi”, nessa altura uma classe de “jornalismo” ainda algo incipiente.

Uma bela "ajuda" num ginásio sabe sempre melhor

Uma bela “ajuda” num ginásio sabe sempre melhor

Por exemplo: duas semanas antes do mítico GP do Japão, aquele em que o seu principal rival, Niki Lauda, teve medo e deixou a pista encharcada pelo dilúvio, permitindo-lhe terminar em terceiro lugar e vencer o título de Campeão do Mundo de F1 por um único ponto, James Hunt dormiu com 33 hospedeiras de bordo, na sua “suite” no Hilton de Tóquio. Ele e o seu inseparável amigo Barry Sheene, que nesse ano tinha já ganho o título mundial nas 500 cc.

Barry Sheene e James Hunt formavam uma dupla imbatível... nas grandes farras

Barry Sheene e James Hunt formavam uma dupla imbatível… nas grandes farras

A orgia foi organizada pelo próprio piloto, que conhecia as raparigas das inúmeras viagens que fazia com a British Airways e que, curiosamente, ficaram hospedadas no mesmo hotel. A festa, que meteu álcool marijuana e cocaína, durou duas semanas e terminou poucas horas antes de o piloto rumar à posta de Fuji, onde tinha lugar o GP de F1. Uma vez lá chegado, “engatou” uma garota japonesa e fechou-se com ela nas boxes, onde foi apanhado por Patrick Head, literalmente, com as calças… abaixo dos tornozelos! Depois, mesmo antes da corrida começar e após ter cumprido o sue habitual ritual de vomitar profusamente as drogas e o álcool ingerido até minutos antes, não teve grandes pruridos em abrir o fecho do fato de competição e urinar frente ao público, que aplaudiu vigorosamente a façanha, mal ele terminou. Hunt acenou com veemência, agradecido…

GP da Grã-Bretanha 1976 com o champanhe da vitória na mão

GP Grã-Bretanha 1976 com o champanhe da vitória na mão antes da desqualificação

Após a prova e já com o título (inesperado…) no bolso, Hunt voou para Inglaterra no avião de Bernie Ecclestone, onde continuou alegremente a festejar os acontecimentos, durante 12 divertidas horas. Chegou a Heathorwe perdido de bêbedo e saudou os cerca de 2.000 fãs que o esperavam, apoiando-se nos braços da mãe, Sue, e da sua namorada de então, Jane Birbeck, que desconhecia a faceta galã do piloto e muito menos a orgia de Tóquio.

Lenda ou realidade fala-se que James Hunt dormiu com mais de 5.000 mulheres

Lenda ou realidade fala-se que James Hunt dormiu com mais de 5.000 mulheres

Totalmente verdade ou apimentada pelos biógrafos, a realidade é que se fala que James Hunt dormiu com cerca de 5.000 mulheres; “vendeu” a sua primeira mulher, Suzy Miller por um milhão de dólares – a quantia que Richard Burton (então zangado com Elizabeth Taylor) lhe pagou para ele apressar o divórcio, depois de a conhecer numa viagem de ambos para a Suíça; fez da sua lua-de-mel com Suzy uma… despedida de solteiro; no seu

"Sexo: o pequeno-almoço dos campeões" diz o autocolante no fato de Hunt

“Sexo: o pequeno-almoço dos campeões” diz o autocolante no fato de Hunt

fato de competição tinha um auto-colante que dizia, claramente e para quem o quisesse ler: “Sexo. O café da manhã de todos os campeões”; fumava com se quisesse matar-se constantemente, mais de 60 cigarros por dia; era habitual conseguir entrar numa festa de gala apenas vestido com uma “T-shirt” e umas calças de ganga, quando toda a gente andava de “smoking” e de vestido de noite…

James Hunt fumava mais de 60 cigarros por dia

James Hunt fumava mais de 60 cigarros por dia

Carismático, bem falante e encantador, de longas melenas loiras desgrenhadas, era o oposto daquilo eu se pensava ser um piloto de F1, nos anos 70 em que se começava a olhar para a modalidade com olhos mais sérios e com diferentes exigências, especialmente em termos de segurança e espetáculo.

James Hunt e amigos, 1 de Janeiro de 1977

James Hunt e amigos, 1 de Janeiro de 1977

Era, porém, também capaz das cenas mais imprevistas, pois a sua personalidade era a de um homem que fervia em pouca água e se estava marimbando, literalmente, para quem tinha ou não razão. Algumas cenas de soco ficaram famosas: ainda na F3, a 3 de Outubro de 1970, em Crystal Palace, desentendeu-se com Dave Morgan, atirou-o contra os “rails” e continuou a luta do outro lado das barreiras metálicas; no dia em que conquistou o título, ao sair do McLaren, pensou que o tinha perdido e foi à procura de Teddy Mayer, o diretor de equipa, para lhe dar uns valentes socos, acusando-o de ter falhado a estratégia durante a corrida. No GP do Canadá de 1977, desistiu depois de um acidente e, ao procurar saltar os “rails” para atravessar a pista, com os outros carros a passarem, foi impedido por um comissário… que acabou com um par de valentes sopapos nos queixos!

Hunt deixou a F1 em 1979 mas continuou a acompanhá-la como comentador e a fazer as mesmas "cenas" do costume, como se vê na foto, tirada em Espanha, no GP de 1981

Hunt deixou a F1 em 1979 mas continuou a acompanhá-la como comentador e a fazer as mesmas “cenas” do costume, como se vê na foto, tirada em Espanha, no GP de 1981

Talvez por tudo isto, haja quem diga que James “The Shunt” Hunt foi o pior campeão do Mundo que a F1 jamais teve. Mas isso não é verdade.

Rápido e talentoso

Guards Trophy, F3, Brands Hatch, 1969

Guards Trophy, F3, Brands Hatch, 1969

Estreou-se com um Mini, antes de passar para a Fórmula Ford e, de imediato, para a Fórmula 3. Ganhou a reputação e ser um piloto tão rápido quanto agressivo, bem como a alcunha de “The Shunt”, por causa dos acidentes consecutivos em que se envolveu.

GP Holanda 1973: a caminho do primeiro pódio

GP Holanda 1973: a caminho do primeiro pódio

Piloto da equipa STP-March, sob a batuta de um tal Max Mosley, foi contra as ordens deste no GP do Mónaco de F3 de 1972, sendo por isso despedido. Então, foi contratado pela Hesketh Racing, uma equipa estranha, formada por uma ainda mais estranho Lord Hesketh – estreando-se na F1 em 1973, com um March 731, desenvolvido por Harvey Postlethwaite.

Com o Hesketh no GP da Alemanha de 1975

Com o Hesketh no GP da Alemanha de 1975

No ano seguinte, foi afastando a ideia que existia no mundo da F1 de que a Hesketh era uma anedota, com resultados cada evz mais inesperados, que culminaram com o triunfo no GP da Holanda de 1975, com Hesketh 308. Estes resultados atrairam a atenção da McLaren, que o foi buscar no final desse ano; “The Shunt” agradeceu a prova de confiança com o título mundial em 1976 e permaneceu com a equipa por mais dois anos.

GP Mónaco 1977

GP Mónaco 1977

Porém, cada vez mais desmotivado, venceu a sua última corrida de F1 em 1977 e, em 1978, conquistou somente oito pontos, sendo mesmo algumas vezes batido pelo seu inexperiente colega de equipa, Patrick Tambay. O acidente mortal de Ronnie Peterson, que ajudou a retirar do Lotus em chamas, foi a gota de água: deixou a McLaren no final do ano, mas aceitou o convite de Walter Wolf para pilotar para a sua bem-sucedida equipa.

Com o Wolf no GP do Mónaco de 1979

Com o Wolf no GP do Mónaco de 1979

Porém, nunca percebeu bem o novo “efeito de solo” dos F1 e, desiludido, anunciou oficialmente o seu abandono num comunicado emitido mal desistiu no GP do Mónaco. Nunca mais se sentou num monolugar de F1, apesar de, em meados da década de 80, ter conversado a esse propósito com Frank Williams e testado em segredo um dos seus carros.

Depois de deixar a F1 deixou também os vícios e dedicou-se a desportos como o ténis

Depois de deixar a F1 deixou também os vícios e dedicou-se a desportos como o ténis

Depois de deixar a F1, tornou-se comentador para a BBC e, após diversas depressões e de uma vida sem regras em Marbella, onde era assíduo cliente de todas as discotecas e bares – bem como dos “courts” de ténis e de “squash”… – assentou um pouco mais.

Niki Lauda e James Hunt: amigos e rivais a sua história foi imortalizada no filme "Rush"

Niki Lauda e James Hunt: amigos e rivais a sua história foi imortalizada no filme “Rush”

Passou a jogar futebol e críquete, em equipas com outros pilotos de F1, afastando-se então dos vícios que tinha cultivado com tanto esmero e carinho até então, numa decisão repentina, no início da década de 90. Foi talvez isso que o matou: um ataque cardíaco fulminou-o na sua casa de Wimbledon, aos 45 anos de idade, a 15 de Junho de 1993, apesar de uma nova vida livre e saudável, em que as suas paixões eram correr de bicicleta e um imaculado Austin A35 Van.

JAMES HUNT

James Hunt, GP do Mónaco, 1977

James Hunt, GP do Mónaco, 1977

Nome: James Simon Wallis Hunt

Data de nascimento: 29/08/1947

Local de nascimento: Belmont, Sutton, Surrey

Data de falecimento: 15/06/1993 (45 anos)

Local de falecimento: Wimbledon

Nacionalidade: Britânica

James Hunt casou-se a 17 de Dezembro de 1983 com Sarah Lomax

James Hunt casou-se a 17 de Dezembro de 1983 com Sarah Lomax

Casado por duas vezes. A primeira, com Suzy Miller, que o trocou mais tarde pelo ator Richard Burton. A segunda, com Sarah Lomax, com quem teve dois filhos, entre eles Freddie, que se estreou como piloto em 2006, numa carreira que durou apenas até 2009 e não teve nenhum sucesso.

James Hunt poucos meses antes do ataque cardíaco fatal

James Hunt poucos meses antes do ataque cardíaco fatal

Causa da morte: Ataque cardíaco fulminante, na sua casa de Wimbledon, pouco depois de ter proposto casamento à sua namorada de então, Helen Dyson, artista plástica, muito mais jovem que ele. Nessa altura, já se tinha afastado em definitivo do álcool, das drogas e do tabaco, que foram a sua imagem de marca, mesmo durante a sua carreira como piloto de F1.

PALMARÉS

James Hunt na frente do pelotão de F3 em Rouen-les-Essarts, 1970

James Hunt na frente do pelotão de F3 em Rouen-les-Essarts, 1970

Início na competição: 1968 (Mini)

Primeiro GP F1: GP Mónaco 1973

Último GP F1: GP Mónaco 1979

GP dos Estados Unidos 1976. um dos muitos duelos entre Lauda e Hunt

GP dos Estados Unidos 1976. um dos muitos duelos entre Lauda e Hunt

GP F1 disputados: 93 (92 partidas)

Títulos: 1 (1976)

Vitórias: 10

Primeira vitória: GP Holanda 1975

GP do Japão de 1976: a corrida que valeu o título

GP do Japão de 1976: a corrida que valeu o título

Última vitória: GP Japão 1977

“Pole positions”: 14

Melhores voltas: 8

Pódios: 23

Pontos: 179

Marcas: Hesketh (1973/1974/1975); McLaren (1976/1977/1978); Wolf (1979)

Outros resultados: 1º BRDC International Trophy/Silverstone (1974)

Hunt "The Shunt" em voo em plena largada do GP dos Estados Unidos de 1977

Hunt “The Shunt” em voo em plena largada do GP dos Estados Unidos de 1977

Hélio Rodrigues

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