Edfor Grand Sport (1937/1939)

Exemplar único

Edfor Grand Sport (1937/1939)

Edfor Grand Sport (1937/1939)

O seu nome é Edfor Grand Sport e o seu número de matrícula NT-10-68. Pensado e construído pela clarividência e oportunidade de Eduardo Ferreirinha, piloto e industrial metalúrgico, nasceu em 1939, foi um dos quatro exemplares construídos entre 1937 e este ano e é o único sobrevivente. Exemplar por isso mesmo raro e de valor histórico, que apareceu no Algarve Classic Cars, no Verão passado e hoje, por um simples acaso, continua na ilustre família Ferreirinha, de cujo património orgulhosa e felizmente faz parte.

O Edfor ainda hoje surge em acção como no Algarve Classic Cars de 2012

O Edfor ainda hoje surge em acção como no Algarve Classic Cars de 2012

Eduardo Ferreirinha foi um visionário, com uma mente demasiado avançada para o seu tempo. Industrial metalúrgico e piloto de automóveis, então uma espécie de corajoso romantismo na vida, foi um dos pioneiros daquela que poderia ter sido uma grande indústria nacional: a indústria automóvel, desde cedo desde sempre asfixiada definitivamente pela miopia do chamado Estado Novo. Criou vários carros de competição, mas o seu “ex-libris”, aquele que o fez entrar a pequena lenda nacional, foi o Edfor.

Nascido por inspiração

O Edfor foi apresentado no Salão Automóvel do Porto de 1937

O Edfor foi apresentado no Salão Automóvel do Porto de 1937

O Edfor foi apresentado oficialmente no Salão Automóvel do Porto, em Abril de 1937 e desde logo concitou todas as atenções dos milhares de visitantes. Não só porque era um dos mais belos automóveis presentes na mostra, como era de total produção nacional.

O Edfor foi a obra-prima de um artesão chamado Eduardo Ferreirinha

O Edfor foi a obra-prima de um artesão chamado Eduardo Ferreirinha

Na verdade, o Edfor foi a obra-prima de um artesão de excelência, Eduardo Ferreirinha, proprietário da EFI (Eduardo Ferreirinha & Irmão), onde há vários anos produzia artefactos metalúrgicos e, especialmente, veículos de competição, todos eles de conceção caseira e baseados em mecânica Ford. Com o Edfor, o industrial portuense queria dar o pontapé de saída para a comercialização em pequena série, algo até então nunca realizado em Portugal.

O Edfor foi inspirado nos monolugares Ford V8 também feitos por Ferreirinha

O Edfor foi inspirado nos monolugares Ford V8 também feitos por Ferreirinha

A imprensa da época não regateou elogios ao exemplar do Edfor presente no certame. E não era para menos. Inspirado nos Ford V8, monolugares de competição que Eduardo Ferreirinha tinha construído até então, o Edfor tinha umas linhas muito elegantes e belas, com a sua carroçaria de dois lugares totalmente feita em alumínio, pesando somente 150 quilos. O esqueleto do Edfor era feito numa liga especial de alumínio fundido, tipo de construção inédito, enquanto os guarda-lamas eram 100% aerodinâmicos e de “design” elegante e torneado. Também as linhas do para-brisas eram de uma conceção nova e igualmente feitas a pensar na menor resistência ao ar.

Entre 1937 e 1939 foram construídos quatro Edfor mas somente este existe hoje

Entre 1937 e 1939 foram construídos quatro Edfor mas somente este existe hoje

Entre 1937 e 1939, foram construídos quatro exemplares, mas os registos atuais apenas indicam duas matrículas: o primeiro, RP-10-30, que teve bastante sucesso nas pistas nacionais; e o que terá sido o último, de 1939, NT-10-68, cujo palmarés é mais modesto, mas que é hoje o único que se mantém em perfeitas condições originais – e, felizmente, está na família Ferreirinha desde 1955, quando jovem Eduardo, filho do fundador, o descobriu por acaso, quando era militar no quartel de Santa Margarida, ao pé de Abrantes e o viu passar na parada do quartel, com um sargento ao volante. O jovem militar perseguiu-o na estrada do Tramagal e, feita a abordagem, soube que era pertença de Rui Duarte Ferreira, também industrial e piloto, que aceitou vendê-lo, mas apenas por saber que ficaria nas mãos de quem o tinha construído. Dos restantes, nada se sabe.

O Edfor foi todo feito à mão e tinha pormenores de extrema elegância aerodinâmica

O Edfor foi todo feito à mão e tinha pormenores de extrema elegância aerodinâmica

O mesmo pode dizer-se dos monolugares que lhe deram origem, os Ford V8, pois todos foram parar à sucata. Foram três, todos construídos em 1936 e, deles, o mais famoso foi o original N-17021, mais tarde MN-70-21, que foi adquirido por um tal Manoel de Oliveira, então jovem aprendiz de cineasta e principalmente aventureiro e piloto de renome internacional, que o levou a correr no circuito brasileiro da Gávea, onde conquistou o 3º lugar, após lutar taco a taco contra monstros sagrados como Carlo Pintacuda e Mario Tadini, pilotos oficiais da toda-poderosa equipa da Alfa Romeo. Posteriormente, Manoel de Oliveira venceu com esse carro o I Circuito Internacional do Estoril e assinou vários recordes de velocidade em rampa e somente não foi campeão de Montanha porque o ACP anulou, sem explicação, a última prova do ano. O cineasta acabou por vender o Ford V8 para a sucata, decisão de que hoje ainda se arrepende…

Um palmarés invejável

O mais ativo foi o primeiro Edfor que quase venceu o Circuito de Vila Real em 1937

O mais ativo foi o primeiro Edfor que quase venceu o Circuito de Vila Real em 1937

Quanto aos dois Edfor de cuja vida se sabe, ela foi igualmente bem-sucedida. O mais ativo foi o primeiro, do ano de 1937 e com a matrícula RP-10-30.

As linhas do pára-brisas foram desenhadas a pensar na menor resistência ao ar

As linhas do pára-brisas foram desenhadas a pensar na menor resistência ao ar

Logo nesse ano, Eduardo Ferreirinha correu no Circuito de Vila Real, na categoria Sport, comandando durante oito voltas, antes de entrar nas boxes com problemas na alavanca da caixa de velocidades, que o fizeram descer para o 4º lugar da classificação geral. No ano seguinte, foi 2º na Rampa de São Miguel-o-Anjo, em Santo Tirso.

O "tablier" em madeira integrava apenas os manómetros necessários para correr

O “tablier” em madeira integrava apenas os manómetros necessários para correr

Em 1939, pelas mãos de Amadeu Manuel Seabra, regressou a Vila Real, durante o Rali das Pedras Salgadas, pouco antes de rebentar a Segunda Grande Guerra, que terminou com as corridas de automóvel em toda a Europa.

O Edfor regressou à família Ferreriha na década de 50 por mero acaso

O Edfor regressou à família Ferreriha na década de 50 por mero acaso

Até sofrer um violento acidente durante o Rali dos Templários, em 1947, onde foi conduzido por Augusto Madureira, o Edfor RP-10-30 ainda conquistou diversas classificações honrosas. Reparado, participou, com Harry Rugeroni, na Rampa da Pena de 1951 e na Rampa do Gradil em 1952.

O palmarés desportivo do NT-10-68 nos anos 30 a 50 é pouco extenso

O palmarés desportivo do NT-10-68 nos anos 30 a 50 é pouco extenso

Já o NT-10-68 ostenta uma vida desportiva bem menos ativa, dele pouco se sabendo até regressar à família Ferreirinha, na década de 50. Talvez por isso, sem mazelas a terem que ser concertadas, mantém-se absolutamente de acordo com o original, para alegria dos muitos “tiffosi” deste pequeno e raro “Ferrari” nacional. Por exemplo, sabe-se que Eduardo Ferreirinha (Filho), hoje com mais de 70 anos, o pilotou no festival de comemoração dos 20 anos do Autódromo do Estoril, onde sofreu um susto, quando o deixou ir à relva, embora sem consequências de maior…

Depois de ser usado para passeios hoje o NT-10-68 faz algumas provas de Clássicos

Depois de ser usado para passeios hoje o NT-10-68 faz algumas provas de Clássicos

Depois disso, utilizou-o com certa frequência nas suas deslocações pelos arredores do Porto, depois de ter mesmo feito a viagem de férias rumo ao Algarve aos seus comandos. Hoje, o NT-10-68 já não é tão visto nas nossas estradas, com exceção de algumas provas de regularidade ou passeios de automóveis clássicos, a maioria realizada no Norte do País. O Algarve Classic Cars foi uma rara exceção – onde, por causa do muito calor que se fez sentir, não chegou ao final da prova.

CARACTERÍSTICAS TÉCNICAS

O Edfor tem uma carroçaria de dois lugares toda feita em alumínio

O Edfor tem uma carroçaria de dois lugares toda feita em alumínio

Motor: Dianteiro, Ford V8 preparado, 3.622 cc, pistões EFI “a turbulência”; Potência (cv): 90 a 100 cv; Diâmetro x Curso (mm): 77,78 x 92,25; Transmissão: Traseira; Caixa de três velocidades – 1ª (1:8,22), 80 km/h; 2ª (1:4,68), 125/130 km/h; 3ª (1:3,54), 160 km/h + Marcha-atrás; Travões: De tambor, equipados com alhetas de liga de alumínio de grande diâmetro; Direção: Equipada com caixa intermédia multiplicadora; Suspensões: Artesanais, de geometria variável, reguláveis; Na Frente tinham molas helicoidais em grupo, reguláveis; amortecedores André Telecontrol, reguláveis a partir do “tablier”; Vel. Máx. (km/h): 160; Peso total (kg): 970; carroçaria – 150; Preço (contos): 55 (à época).

O Edfor custava, na época em que foi lançado, 55 contos

O Edfor custava, na época em que foi lançado, 55 contos

Texto: Hélio Rodrigues; Fotos: C.Santos, Hélio Rodrigues e Jorge Gomes

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