Gilles Villeneuve (18/01/1950 – 08/05/1982)

Pilotar por paixão

Para mim, Gilles Villeneuve é o arquétipo do piloto de F1. Funâmbulo, corajoso, capaz de dominar a máquina nas condições mais incríveis, até a sua morte contribuiu para o tornar numa lenda. Em Janeiro faria 60 anos. Morreu com 32.

Na verdade, posso considerar Gilles Villeneuve como a razão autêntica da minha paixão pela Ferrari. Recordo, como se tivesse sucedido há um par de horas ainda, quando tomei conhecimento da sua morte, durante os treinos de qualificação para o Grande Prémio da Bélgica, em Zolder. Nessa altura, vivia num quartinho alugado, na Visconde Valmor – tentando conciliar os estudos na Faculdade de Letras com uma inóqua profissão administrativa numa conhecida empresa no ramo da construção civil. E foi aí, sentado na minha cama, que ouvi a notícia na rádio; lá fora, o sol brilhava e os pássaros brincavam nos plátanos – mas depressa deixei de os ouvir.
A década de 80, aliás, foi trágica para mim, enquanto fã de F1. No espaço de meia dúzia de anos, “vi” morrer os ídolos que me faziam pregar ao sofá, todos os domingos: depois de Villeneuve, em rápida sucessão, desapareceram Stefan Bellof e Elio de Angelis. Ah! E o único piloto que me fazia ainda gostar de ralis – Henri Toivonen.
Depois, começaram as picardias entre os génios Ayrton Senna e Alain Prost e, mais tarde, a arte arrogante de Michael Schumacher – e nunca mais a F1, para mim, foi a mesma.

O verdadeiro artista
Gilles Villeneuve não era, de forma nenhuma, o piloto perfeito. Para ele, o importante era andar sempre a fundo; poupar a mecânica, gerir estratégias, não eram coisas que minimamente o interessassem. Ou, sequer, ganhar: só assim se explica o escasso número de vitórias conquistadas – seis, em 67 Grandes Prémios de F1 disputados. A alegria extrema não era subir ao lugar mais alto do pódio – era pilotar em condições limite, dominar a máquina, gozar o mais puro prazer de estar a fazer aquilo que sempre quisera fazer.
E diga-se: na verdade, para Gilles Villeneuve o desafio não era a F1; era a máquina. Os mitos acompanham a sua memória: a aposta com Didier Pironi, seu colega e amigo na Ferrari (antes da fatídica discussão que levou ao acidente mortal do canadiano), sobre quem demoraria mais tempo de acelerador colado no fundo… ao volante de um Ferrari de série, pelas auto-estradas italianas; o desafio sobre quem gastava menos tempo a percorrer a distância entre Maranello e a cidade do Mónaco; as tresloucadas viagens, com carros de aluguer, entre as pistas e os aeroportos mais próximos, que terminavam invariavelmente com os carros destruídos e os seus incautos colegas de viagem (tantas vezes a própria esposa, Joann, e os filhos Jacques e Melanie, que Gilles, homem de origens humildes e devoto à família, levava sempre consigo para as provas!); ou, testemunhado pelos atónitos jornalistas, o desafio apocalíptico entre o seu Ferrari de F1 e um jacto da Força Aérea italiana.
Pela parte que me toca, recordo com emoção o fantástico duelo com René Arnoux, num Renault, durante o Grande Prémio de França de 1979, em Dijon; a forma aguerrida como ele levou até às boxes um Ferrari sem uma roda; ou a maneira como ele fazia as curvas em Jarama, saindo de pista pelo simples prazer de, depois, controlar o carro no meio de uma nuvem de pó!
E foi com essa emoção que, quando fui a Zolder, no início da década de 90, jamais esqueci estar no circuito que fora fatal para o meu ídolo – a mesma emoção que me levou ao local fatídico em que o seu corpo embateu nas redes, depois do seu Ferrari ter levantado voo contra o carro de Jochen Mass; e ficar em meditação junto ao busto erguido junto ao circuito belga.
Proféticas, foram também as suas palavras, não muito antes do acidente: “Nunca penso que me posso magoar seriamente. Se pensar nisso, como posso eu fazer este trabalho?”

Texto: Hélio Rodrigues

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7 responses to “Gilles Villeneuve (18/01/1950 – 08/05/1982)

  1. Tenho 42 anos, mas comecei a assistir às corridas de F1 em 1977 com então 9 anos de idade; quando vi esse canadense arrojado decidi que iria torcer pelo mesmo pois eu acreditava que ele era o verdadeiro sinônimo de pilotagem e adrenalina. Desde então, quando iniciava-se as provas eu ficava nervoso, parecia que eu estava dentro do carro. Nas poucas vitórias que pude comemorar eu me sentia muito feliz. Villeneuve era um piloto extraordinário, guiava uma fraquíssima Ferrari (1980) como se estivesse no melhor carro; para Villeneuve o impossível era provável e o acima do limite era trivial. Fiquei furioso porque o mesmo não foi campeão em 1979 e a Ferrari escolheu o troglodita ao volante como era conhecido Jody Scheckter; nunca perdoei a Ferrari por isso.
    A morte de Villeuneuve em 08-05-1982 foi um dos dias mais tristes de minha vida, pode acreditar que eu chorei muito, como se eu tivesse perdido um irmão. Ela só foi superada quando perdi minha mãe no ano passado. Eu me dirigia para casa depois de assitir aula e no trajeto um amigo me disse que ela havia falecido; inicialmente eu não acreditei e sai correndo em direção a minha casa, chegando lá vi que era verdade e comecei a chorar, me tranquei no meu quarto e não mais saí. Percebendo tudo mamãe veio me consolar (eu tinha 13 anos) e sempre fui sentimental. Até hoje me emociona falar de Villeneuve. Para mim a F1 divide-se em antes e depois de Gilles, um piloto destemido, que superava os limites da máquina pilotando de maneira limpa. Hoje a F1 nem de longe parece a de outrora.
    A morte de Ayrton Senna para mim foi semelhante à de Riccardo Paletti. Depois de Villeneuve virei um TIFOSI e jamais torci por pilotos que não fossem da Ferrari pois quando vejo uma eu não vejo uma Ferrari eu relembro o MITO VILLENEUVE.

    • Obrigado por este texto tão sentido. Concordo plenamente consigo: depois de Gilles Villeneuve, a F1 nunca mais foi a mesma. E hoje, pilotar com o o Gilles pilotava, só dava direito a penalizações e avisos por… pilotagem perigosa! Hoje, não há emoção na F1. Apenas política baixa e alguns, escassos, rasgos de talento – mas que não chegam, nem de perto nem de longe, ao enorme talento do Gilles.
      Um abraço

      Hélio Rodrigues

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  4. Se quer era nascida quando ele morreu. Mas choro ao ver o que aconteceu com a “Ousadia e Alegria” do Gilles. Hoje a F1 é apenas uma disputa de tecnologia, onde o talento passa longe

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