Entrevista a César Campaniço

“O Team Novadriver vai crescer e ajudar novos pilotos”

O rosto por trás do Team Novadriver é, também, o rosto de um dos mais bem sucedidos pilotos nacionais. César Campaniço, hoje com 32 anos, começou a competir desde tenra idade, tendo feito o percurso que a maioria dos pilotos de elite faz. Depois, um dia teve um sonho e realizou-o: construir de raiz uma equipa profissional, capaz de lhe dar títulos e alegrias, mas também de dinamizar o desporto automóvel nacional e, porque não?, ser o trampolim de lançamento de novos valores. A “silly season” é um bom pretexto para uma longa entrevista, onde César Campaniço fala, de forma desprendida e apaixonada, do passado. Do presente – e do futuro.

Iniciou-se no “karting” com nove anos – onde ainda ostenta o único título de Campeão Europeu alcançado por um português, sendo colega de equipa de Nico Rosberg e batendo um piloto chamado Fernando Alonso – passou pelos monolugares até enveredar por uma carreira nos Turismos e nos GT.

Durante a sua passagem pelas competições de carros com rodas destapadas, César Campaniço esteve no campeonato alemão de Fórmula BMW – onde lutou com nomes hoje consagrados como André Lotterer ou Martin Tomczyk – passou pela Fórmula Renault 2.0.

A internacionalização e o sonho da F1

O piloto do Team Novadriver esteve apenas um ano nessa competição (onde o seu colega de equipa foi Ryan Briscoe) mas registou diversos pódios, vitórias e lutou até final pelo título nos dois campeonatos onde alinhou (Italiano e Europeu) com pilotos como Augusto Farfus, Robert Kubica ou Bruno Spengler.

O segundo lugar no Campeonato Italiano de Fórmula Renault 2.0 assegurava a César Campaniço a temporada seguinte na Fórmula 3, mas inexplicavelmente, a Renault decidiu entregar o prémio ao terceiro classificado, um piloto brasileiro. Sinal claro que as nacionalidades contam muito em todos os desportos.

O piloto do Team Novadriver não desistiu e esteve dois anos na Fórmula 3, mas com um orçamento diminuto em relaçãoaos candidatos ao título, nunca César Campaniço conseguiu os resultados que pilotos como Keke Rosberg, auguravam depois da passagem pela F.BMW. Ainda assim esteve em Macau e na Coreia do Sul, onde esteve em luta com pilotos como Nelson Piquet Jr., Gary Paffett ou Timo Glock, deixando excelente impressão no “paddock”.

Passou pelo Campeonato Europeu Fórmula Renault 3.0 V6, onde foi o melhor estreante e terminou em sexto da classificação da competição, insuficiente para deitar mão ao prémio para o vencedor, um teste com a equipa Renault F1. Ficam na memória lutas épicas com pilotos como Neel Jani ou Ryan Sharp.

A aposta nos GT e numa equipa sua

Porém, após ter alinhado em algumas das melhores equipas internacionais nas mais diversas disciplinas mas sem orçamento para continuar nos monolugares, César Campaniço decidiu em 2005 dar novo rumo à sua carreira. Foi então que aderiu ao Renault Mégane Trophy, abandonando os monolugares.

Aos quais o piloto do Team Novadriver regressaria quando foi convidado para fazer parte do Campeonato A1 GP, representando Portugal. Esteve ao volante do carro com as cores nacionais em três corridas, tendo feito jogo igual em termos de resultados com Álvaro Parente, o piloto titular.

O passo seguinte na carreira de César Campaniço foi, em 2007, erigir a sua própria estrutura, nascendo assim o Team Novadriver, cumprindo o regresso a Portugal ao PTCC, campeonato de Turismos, onde alinhou com um BMW 320iS. Acabado de completar o seu curso de engenharia em Inglaterra, César Campaniço conquistou dois títulos consecutivos no PTCC e ainda foi quarto no Europeu de Turismos, onde deu muito que fazer a pilotos como James Thompson, Franz Engstler ou Kristian Poulsen.

Em 2009, César Campaniço teve a oportunidade de regressar à equipa de Keke Rosberg (onde esteve no início da carreira na F.BMW) e disputar o Campeonato Europeu FIA GT3 ao lado de Nicolas Armindo.

Com o vice-campeonato no bolso, César Campaniço decidiu adquirir um Audi R8 LMS e colocá-lo a correr em Portugal com a sua equipa. Criada desde a base, mas com elementos experientes, altamente motivados e que foram os obreiros do sucesso que o Team Novadriver já alcançou e que a projeta para o restrito grupo das melhores equipas europeias nas competições de GT.

P: Olhando para trás, o que ficou por fazer na carreira do César Campaniço piloto?

César Campaniço (CC): Felizmente tenho uma carreira da qual me orgulho bastante, tendo chegado até onde os meios à minha disposição me permitiram. É evidente que tinha como objetivo a disciplina máxima do desporto automóvel, a Fórmula 1, mas por este ou aquele pormenor, não o consegui. Lembro o meu título de Campeão Europeu de Karting, os vários vice-campeonatos alcançados e o prazer de encontrar o Fernando Alonso, por exemplo, e ter-me batido em pista com ele. Portanto, penso ter um palmarés bem recheado e do qual me posso orgulhar.

P: Qual a razão para, depois dos monolugares, fazer “agulha” para os Turismos e depois os GT?

CC: Os custos para cumprir uma época na F.3000 ou em outra disciplina de monolugares começaram a disparar e apesar do meu pai ser um decisivo apoio para a minha carreira, necessitava de outros apoios. Eles, por uma razão ou por outra, nunca surgiram e acabaram nos bolsos de outros pilotos. Perante a impossibilidade de seguir carreira nos monolugares, decidi continuar em outras disciplinas, nomeadamente, o Troféu Renault Megane, competição onde me diverti bastante.

P: Depois, deu-se o regresso às pistas nacionais com o projeto do PTCC. Porquê?

CC: Porque na altura o campeonato pareceu-me muito interessante e a utilização de modelos S2000 era aliciante. Além disso, muitos projetos surgiram na altura e seduziu-me entrar numa competição com tantos pilotos e alguns de renome nacional. E não me enganei, pois os primeiros anos foram de grande competição e extremamente bem sucedidos para mim, pois consegui dois títulos, um deles já com a minha equipa.

P: Foi no segundo ano do PTCC que o Team Novadriver nasce. Acreditava que a equipa chegaria tão longe?

CC: Diz o povo que “se queremos as coisas bem feitas, fazemo-las nós” e foi isso que pensei depois de algumas contrariedades. E depois, sempre acreditei que seria mais inteligente usar os meus recursos numa equipa que fosse minha. Obviamente que quando tudo começou, os horizontes estavam fixos no PTCC e em colocar em pista de forma competitiva o BMW 320. Mas a ambição sempre foi crescer e olhar para outras disciplinas.

P: Seguiu-se o “namoro” com os GT’s. Foi “amor à primeira vista”?

CC: O fato de ter feito o Campeonato Europeu FIA GT3 com o Team Rosberg ao lado do Nicolas Armindo – tendo sido vice-campeão! – foi decisivo para me “apaixonar” pelos GT. São carros fabulosos, que proporcionam corridas muito interessantes e que têm vindo a motivar as marcas a investir. Pode-se dizer, sem dúvida, que foi amor à primeira vista.

P: O fim do PTCC e a entrada em cena dos GT no Campeonato de Portugal de Circuitos, foi a “desculpa” para regressar definitivamente às pistas nacionais?

CC: Não diria que foi a desculpa, mas sim a oportunidade para fazer o Team Novadriver crescer. Depois da excelente temporada com o Team Rosberg e o Audi R8 LMS, decidi juntar-me à marca de Ingolstadt e encomendei o primeiro carro em 2009. Além disso, reforcei o lado humano da equipa e também a parte técnica para fazer face ao objetivo desde logo traçado: vencer!

P: E esse objetivo foi alcançado logo no primeiro ano, depois da chegada à equipa de um dos rivais do PTCC, João Figueiredo?

CC: É verdade, fomos campeões logo à primeira. Uma época que ficará para sempre na memória, pois dominámos contra tudo e contra todos e, sobretudo, cimentámos a reputação do Team Novadriver como equipa de excelência. Foi o primeiro ano com o Audi R8 LMS, ainda com ajuda direta de elementos do Team Rosberg e da própria Audi Sport Costumer Service, mas que nos ensinou muito e foi decisivo para tudo o que a equipa alcançou até agora.

P: Aprendizagem que se traduziu no crescimento do Team Novadriver e na conquista de títulos?

CC: No segundo ano conseguimos uma vitória internacional, no Campeonato de Espanha de GT na classe GTS, ainda com o João Figueiredo, tendo sido impedidos de vencer o Campeonato de Portugal de GT (onde alinhei com o Ni Amorim) pela terceira vez devido a alguns “incidentes” mal explicados que não vale a pena recordar. Esse sucesso além- fronteiras trouxe-nos clientes, pilotos que tinham interesse em vencer connosco e por isso decidi investir na compra de um segundo Audi R8 LMS, desta feita já da versão Ultra, convertendo a primeira unidade da equipa num Ultra. Desta forma, reforçando a equipa em termos de recursos humanos, quer na oficina, quer no departamento de engenharia, marketing desportivo e comunicação, conseguimos estar presentes em quatro campeonatos – dois deles internacionais – com cinco pilotos.

P: Não é esta presença em quatro campeonatos um pesadelo em termos de logística?

CC: Um pouco, mas o Team Novadriver está muito bem oleado. Além das nossas instalações de qualidade no Kartódromo de Palmela – onde estão os gabinetes de engenharia, marketing desportivo, decoração dos carros e relações com a imprensa – totalmente apetrechadas, contamos com um camião oficina, uma carrinha de apoio com reboque e diversos veículos de apoio, além de 12 elementos entre engenheiros e mecânicos. Depois, temos um responsável pela logística que organiza tudo e funcionamos com processos rotinados, onde tudo é anotado e registado para não haver falhas. Num desporto como este, a falha mecânica é impossível de controlar, mas com método e responsabilidade podemos minorar o risco.

P: E até agora, o Team Novadriver nunca perdeu uma prova por avaria mecânica?

CC: Na verdade, não me recordo de uma corrida em que tenhamos sido prejudicados por um problema mecânico, exceção feita à estreia do carro, em que desconhecíamos como ele funcionava e até a própria Audi não sabia bem o que fazer para debelar alguns problemas. Porém, reagiram rapidamente e não me recordo de uma quebra de motor ou de caixa, por exemplo.

P: O Team Novadriver está na frente do Campeonato de Portugal de Circuitos, do Iberian Supercars Trophy e do Campeonato IBER GT, ocupando o sexto lugar no Europeu FIA GT3. Qual é o balanço do dono de equipa e do piloto?

CC: Como piloto, estou satisfeitíssimo com as minhas exibições, com algumas “pole-positions” no Europeu e em Espanha e recuperações fantásticas no CPC, depois de problemas ridículos e decisões que, manifestamente, nos prejudicaram. Os dois pódios no Euro FIA GT3 foram fantásticos, sendo triste perceber que o esforço do Team Novadriver numa competição FIA não seja mais bem tratado pela imprensa generalista e pelas televisões. Em Espanha, sinceramente, não esperava liderar, mas o trabalho da equipa e algum azar do segundo carro, dita que seja eu na companhia do Mikko Eskelinen a comandar a competição. Como responsável do Team Novadriver, estou ainda mais satisfeito, pois a equipa é a melhor representante da Audi nos diversos campeonatos de GT (incluindo o Europeu FIA GT3), mostra cada vez mais qualidade, profissionalismo e eficácia e começa a ser procurada por vários pilotos, alguns de grande nomeada, para viabilizar projetos que passem, sempre, pela vitória.

P: Qual é o futuro do César Campaniço e do Team Novadriver?

CC: Eu quero continuar a pilotar, algo que me dá grande prazer e enquanto assim for, tudo farei para que esteja atrás do volante por mais alguns anos. Depois, evoluirei, naturalmente, para a direção e gestão do Team Novadriver. Que irá, seguramente, crescer e oferecer outros serviços como a formação técnica, apoio à formação de jovens pilotos, serviços de preparação de viaturas de outras disciplinas e projetos exteriores. Apesar das dificuldades que passa o país e a Europa, a confiança que o Team Novadriver exala, permite que existam muitos projetos válidos que desejam ter a minha equipa como vértice competitivo, o que me deixa muito satisfeito.

Texto e Fotos: Divulgação; Edição: AutoanDRIVE

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