Algarve Classic Cars fez 20 anos

Um caso cada vez mais sério

O Algarve Classic Cars fez 20 anos. E comemorou a efeméride com uma das edições mais marcantes dos últimos anos: novas caras, “novos” carros, novos patrocinadores e novos vencedores – Sancho Ramalho e João Serôdio, com um Alfa Romeo 2000 GTV de 1973. A entrar na idade de ouro, é um caso sério de sucesso nos Clássicos e promete não ficar por aqui.

O Algarve Classic Cars nasceu, de um grupo de amigos amantes dos automóveis clássicos, em 1993. Hoje, 20 anos depois, apesar de todas as limitações relacionadas coma crise – um orçamento menor, exigindo uma maior racionalização de todos os vetores envolvidos – o Algarve Classic está vivo e promete continuar a crescer, nos próximos anos.

Em ano especial, foram mais de 130 os automóveis que se exibiram pelas estradas algarvias, desde Vilamoura a Armação de Pêra, onde terminou, em ambiente de “glamour” e relax absoluto. Para trás, ficaram mais de três centenas de quilómetros, 16 provas de classificação para os “desportivos” e um percurso turístico para todos, onde a paisagem com mar ao fundo e a chegada aconchegante a locais “premium” foram a cereja em cima do bolo.

Pérolas preciosas

Entre os participantes, para lá do Mercedes-Benz 500 K do casal Albert e Monique Eberhard, “habitués” do evento, o destaque vai por inteiro mérito para as diversas variações da marca da estrela, das décadas de 50, 60  70, rutilantes e com bom ar – 220 S e SEB, 230 S, 280 SE e SL, 350 SL, 380 SL, 450 SL e S, com capota e sem capota.

Mas também outras estrelas passaram pelas estradas algarvias, sempre debaixo e um calor tórrido, que fez algumas vítimas na caravana, entre elas o raro e nacional Edfor (1937), de Fernando Paula Martins, que já não fez a etapa da manhã de domingo.

Assim, desde um Jaguar Type E  XK 120 e outro XK 150; um imponente Packard 533 de 1928; uma ninhada de MG A, MG B e MG TC, além de alguns MG J2 dos anos 30; um Triumph Gloria, e vários TR3, TR3 A e TR4; um AlvisFJ12/50 de 1928; um Ford Custom Line, de 1955; Porsche 356 A e B Cabrio; um Lea Francis de 1929 – que, infelizmente, nem sequer saiu do parque da Marina de Vilamoura; dois Rolls Royce – um Silver Dawn (1954) e um Silver Shadow (1972); um Bentley Mk VI de 1952; um Daimler Dart SP 250 V8 de 1963; ou um Lamborghini Urraco P 250S de 1974 – de tudo um pouco se exibiu durante três dias de “glamour” e qualidade de vida, com a Marina de Vilamoura com pano central.

Aqui, foram todos devidamente apreciados por alguns milhares de pessoas – maioritariamente espanhóis, o que não deixa de ser curioso em tempo de crise… ibérica. Mas, é preciso dizê-lo com propriedade, este ano eram quase mais os iates ancorados nas águas da marina, que os turistas sentados às mesas das esplanadas, mesmo quando a noite (de sábado) era (ainda) uma cálida criança…

Para todos os gostos

O Algarve Classic Cars é uma prova muito “sui generis”. Este ano, já o dissemos, foram mais de 300 os quilómetros por estradas de asfalto, a maior parte deles em redor de Armação de Pêra e da Lagoa, mas também de São Brás de Alportel, Loulé e Silves. Para os que fizeram o percurso desportivo, tiveram que resolver um total de 16 Provas de Classificação, como os circuitos de Vilamoura e de Armação de Pêra e a já habitual passagem pelo Autódromo de Portimão.

Mas, em ano de festa, a organização deu um rebuçado aos participantes: a clássica Rampa da Picota deu lugar a uma novidade absoluta – a rampa do Cerro de São Miguel, na manhã de sábado e que deixou fascinados os concorrentes que subiram ao monte dos arredores de Silves.

Entre eles, estava o Mini Cooper S de João Netto e André Netto – respetivamente filho e… neto de Luís Netto e que conseguiram adquirir e recuperar fielmente o carro que foi Campeão Nacional de Velocidade em 1969.

E estava também, pendura num Mercedes-Benz 220S de 1959, um nome muito especial: Joaquim Cabanelas. Atualmente com 90 anos, é o pai de um piloto que foi marcante na sua época e perdeu a vida num atentado bombista, com 30 anos, em 1985: Sidónio Cabanelas, de Vila Real.

Prova “totalmente democrata”, como assinalou Tiago Patrício Gouveia, o diretor do Museu do Caramulo e que se associou à data, limpando o pó do “seu” Triumph TR 3A de 1958, por causa da disparidade de automóveis participantes – desde o mais “baratinho” Renault 4L ao raro e dispendioso Mercedes-Benz 500K – essa diversidade atingiu também a faixa etária, reunindo vivências como a de Joaquim Cabanelas ou o entusiasmo juvenil de André Netto, num arco raro de encontrar noutras organizações semelhantes.

Além disso, a 20ª edição do Algarve Classic Cars voltou a mostrar uma vitalidade e um reconhecimento internacional que nem menos 30% (apesar de quatro novos nomes na lista de patrocinadores do evento, com destaque para a companhia de seguros Açoreana e os relógios de luxo suíços Frédéric Constant) do orçamento disponível pelos homens do CPAA, liderados pelo competente e infatigável Luís Filipe Brito, conseguiram dissipar. De facto, na lista de inscritos não constavam apenas automóveis mais ou menos vistosos – é de registar que muitos deles vieram de longe, de outras terras e de outras economias: à inevitável Espanha, juntou-se a Bélgica, a Suíça, a França, a Inglaterra, a Noruega e a Alemanha. Da ilha da Madeira, vieram duas equipas e o vento algarvio foi avidamente observado – e, no final, elogiado – por uma alta delegação do equivalente brasileiro do CPAA.

Prémio de fidelidade

Em 20 edições, foram bem mais de um milhar as equipas que participaram, pelo menos uma vez, no Algarve Classic Cars. Porém, somente uma delas esteve presente, sem falhar, quase religiosamente, desde a estreia, em 1993: José Santos Madeira e Cesaltina Madeira. Por isso, receberam um prémio muito especial: uma pintura de um dos modelos com que participaram, o Ford Model A, assinada por Rute Coelho.

Santos Madeira tem feito o Algarve Classic Cars com um Ford Model A e, embora menos vezes, com um Mercedes-Benz 230 SL “Pagode”: “São ambos excelentes!” E não hesita quando é a hora de eleger o melhor: “O Ford A! Sem dúvida! Apesar de todos os problemas que dá, como aquecer constantemente e andar pouco – não dá mais de 60 km/h! – é o mais puro, o mais verdadeiro. É para ele e outros carros assim que este tipo de provas existe!” A exceção foi, precisamente, a primeira edição, em que usou um “moderno Morgan com motor de 1.600 cc.”

Para memória futura, refira-se que quem ganhou foi a dupla formada pelos jovens Sancho Ramalho e João Serôdio, que pela primeira vez fizeram a prova juntos, o navegador em estreia absoluta no Algarve Classic Cars. Foram eles quem menos errou nas contas finais e fizeram-no ao volante de um Alfa Romeo 2000 GTV de 1973. Batendo por 109,11 pontos a dupla feminina Ana Margarida Valente e Helena Carvalho (BMW 2000CS de 1966) e, por 179,12 pontos outra dupla de mulheres, as irmãs Marta e Pipa Queiroz (FIAT 124 de 1974). As provas de regularidade – pelo menos esta – já não são o que eram… E ainda bem!

Texto: Hélio Rodrigues; Fotos: AutoanDRIVE/C.Santos, Hélio Rodrigues e Clicktimephoto/Jorge Gomes

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