O menino-bem que quis ser piloto
Jo Bonnier era um sueco de boas famílias, nascido em berço de ouro. Culto, rico e poliglota, acabou por se torar num dos mais versáteis e talentosos pilotos da sua altura, passeando o sue talento pelas pistas europeias durante mais de duas décadas, até morrer num acidente absurdo, durante as 24 Horas de Le Mans de 1972. Faz, hoje, precisamente 40 anos.
Joakim Bonnier nasceu em Djurgarden, próximo de Estocolmo, a capital da Suécia, a 31 de Janeiro de 1930, no seio da riquíssima e conceituada família Bonnier, livreiros e editores de renome internacional. “Jo”, como depressa passou a ser chamado, foi um menino bem comportado, talhado para os grandes cometimentos desejados pela família. O pai, conceituado professor de genética na Universidade de Estocolmo, queria que o filho lhe seguisse as pisadas, tornando-se “doutor”.
Mas o jovem mostrou-se mais interessado pela vertente editorial da família e foi para a Universidade de Oxford estudar línguas – antes de se estabelecer em Paris, planeando aprender tudo o que pudesse sobre a arte da publicidade. Bom estudante e educado, quase um “dandy” elegante e sempre em boa forma física, tornou-se um poliglota bem-falante em seis línguas que, aos 17 anos, ainda no seu país natal, já era um competitivo piloto, aos comandos de uma velha… Harley-Davidson.
Em 1951, deixou Paris e voltou à Suécia e comprou um Simca, que passou a ser o sue grande orgulho. Com ele, participou em diversas provas de estrada, antes de adquirir um Citroën 11HP com que fez vários ralis, em 1953. No ano seguinte, tornou-se vendedor de automóveis, através da aquisição de uma concessão da Alfa Romeo. Então, deixou os ralis e dedicou-se às pistas.
Mais de 100 GP de F1
Versátil e sempre eficaz e muito rápido, Jo Bonnier disputou as Mille Miglia de 1955, vencendo depois o GP da Suécia, com um Alfa Romeo. Nesse ano, tornou-se piloto profissional, abdicando dos negócios familiares – mas não da fortuna familiar.
Jo Bonnier estreou-se na F1 no GP de Itália de 1956, com um Maserati 250F da Officine Alfieri Maserati, desistindo. No ano seguinte, foi 7º na Argentina com um carro semelhante, mas da Scuderia Centro Sud mas, no Mónaco, já participou com a sua própria equipa, a Joakim Bonnier Racing Team, mas não conseguiu alinhar, ao volante também de um 250F. Nesse ano, fez mais uma corrida com a sua equipa e duas com a Scuderia Centro Sud, abandonado sempre.
Em 1958, ainda e sempre com um Maserati 250F, correu sucessivamente em sete GP de F1, antes de abandonar em Monza no GP de Itália, mas aqui com um BRM P25 da Owen Racing Organisation. Dias depois, um acidente em Imola quase terminou com a sua carreira. Ao volante de um Maserati, estava a recuperar de uma má partida e tinha acabado de passar Luigi Musso, começando a ganhar dois segundos por volta a Eugenio Castellotti. Então, quando negociava uma curva de alta velocidade, recebeu o choque de outro carro, entrando em despiste. O Maserati acertou numa pedra e foi catapultado no ar, capotando várias vezes, antes de se imobilizar numa vala, contra um poste, totalmente feito em pedaços. Bonnier foi cuspido do habitáculo (nessa altura, ainda não existiam cintos de segurança), depois de ter sofrido, no capacete, o embate do capacete do piloto do outro carro, quando este era “sobrevoado” pelo seu Maserati, em posição invertida. Os seus ferimentos foram gravíssimos – uma concussão cerebral, várias costelas partidas e ainda uma vértebra fraturada. Apesar disso, regressou poucas semanas depois, no GP de Marrocos, terminando a corrida em 4º lugar – e conquistando assim os seus primeiros pontos no Campeonato do Mundo de F1.
Em 1959 e 1960 manteve-se na F1 com a equipa de Alfred Owen, com o BRM P25 e, a partir do GP do Mónaco de 1960, com um BRP P48. E foi precisamente em 1959 que venceu a sua única das 104 corridas de F1 pontuáveis para o Mundial em que participou: o GP da Holanda, em Zanvorrt, uma prova em que o seu BRM funcionou, finalmente, em condições – ao contrário dos de Dan Gurney e Hans Herrmann, que ficaram feridos em acidentes provocados por falhas nos travões. Terminou o ano em 8º lugar entre os Pilotos, com dez pontos – sem dúvida a sua melhor classificação no campeonato.
Em 1960, venceu ainda o GP da Alemanha com um Porsche 718, mas era uma corrida feita com F2, em preparação para a entrada da prova na F1 no ano seguinte – em que Bonnier correu já como piloto oficial da Porsche.
Nos anos seguintes e até 1971, Bonnier participou de forma intermitente em GP de F1, até ultrapassar a centena de corridas disputadas, naquela que foi uma das mais longas carreiras de um piloto na F1 de então. Nunca teve um contrato de piloto oficial numa grade equipa – as exceções foram com a BRM e a Porsche, mas sucederam em fases de declínio da primeira e com estatuto “semi” e a marca alemã nunca postou em força na F1, abandonando-a em 1962 oficialmente. Foi, no entanto, por várias vezes piloto substituto em equipas como a Lotus, Brabham e Honda e, principalmente, correu com a sua própria equipa, a Joakim Bonnier Racing Team e, antes disso, da Scuderia Centro Sud, de Mimmo Dei. Depois da Porsche sair de cena, pilotou para a única equipa privada que até então tinha ganho na F1, a Rob Walker Racing Team, mas sem sucesso.
Em 1966 – ano em que foi consultor do épico filme “Grand Prix” – transformou a sua equipa, injetando-lhe capitais suíços, antes de chegar à Écurie Bonnier, mas nessa altura o seu interesse na F1 começou a diminuir. A sua última temporada completa foi em 1968, em que correu com um Cooper T86 e um velho McLaren e, nos anos seguintes, fez apenas esporádicas aparições na F1.
Sucesso nas corridas de “Sport”
Em paralelo com a sua (longa) carreira na F1, Jo Bonnier participou em inúmeras provas de “sport” de carros de Turismo. Com bastante mais sucesso, diga-se em abono da verdade.
Depois de se estrear nas Mille Miglia, em 1955, e de ter ganho no ano seguinte o GP de Berlin, a sua primeira vitória internacional, voltou a Itália, para ganhar a Targa Florio, em 1960, partilhando um Porsche 718 oficial com Hans Herrmann. Três anos mais tarde, com um carro semelhante, repetiu o triunfo na clássica siciliana, mas agora com o italiano Carlo Mario Abate. Antes disso, tinha ganho, em 1962, as 12 Horas de Sebring, com um Ferrari 250 TR1 do conde Giovanni Volpi, partilhando a condução com o belga Lucien Bianchi.
1964 foi o seu melhor ano nas corridas de Sport. Com um Ferrari 330 P, dividido com Graham Hill, foi 2º classificado nas 24 Horas de Le Mans, vencendo a prova de Monthléry. Nas 12 Horas de Reims, levou um Ferrari 250 LM ao triunfo absoluto.
A sua última grande vitória numa prova de resistência foi em 1966, nos 1000 Km. de Nurburgring, que venceu com um Chaparral 2D e fazendo equipa com Phil Hill. Mais tarde, com a sua Ecurie Bonnier e na condição de “gentleman driver” absoluto, subiu ainda ao lugar mais alto do pódio nas 4 Horas de Barcelona (Montjuich) de 1971 (com Ronnie Peterson) e nas 4 Horas de Le Mans (com Hugh de Fierlandt), poucas semanas antes do seu acidente fatal, nesta mesma pista. Ainda em 1971, foi 3º no Targa Florio, fazendo equipa com Peter Westbury.
Antes disso, porém, comprou um McLaren M6B para fazer a temporada de 1968 da CanAm. Fez cinco provas, sendo o 8º lugar de Las Vegas a sua melhor classificação. Ainda com o M6B, foi 2º no GP de Karlskoga, no seu país natal, e 3º nas 200 Milhas de Moubnt Fuji, no Japão. Nesse ano, com este carro, foi campeão sueco de “Sport”. Em 1970, venceu o título de Pilotos no recém-criado Campeonato da Europa de 2 l.: ao volante de um Lola T212, foi 2º em Paul Ricard e venceu consecutivamente em Salzburgring, Anderstorp, Solitude e Enna-Pergusa.
A morte mais absurda
A década de 70 viu nascer a Ecurie Bonnier, com a qual o sueco alinhou em várias provas do Campeonato do Mundo de Sportscar, pilotando ele mesmo muitas das vezes. Uma delas foi na edição de 1972 das 24 Horas de Le Mans, a sua 13ª participação na prova. Bonnier estava ao volante de um Lola T280/Cosworth, inscrito pela Écurie Filipinetti, que partilhava com Gérard Larrousse e Gijs van Lennep.
Pelas 8h00 da manhã, durante a 213ª volta da corrida, Bonnier tentou ultrapassar o Ferrari Daytona 365 GT/4 do amador suíço Florian Vetsch, na zina entre as curvas Mulsanne e Indianapolis. Os dois carros seguiam a fundo, com o Lola a mais de 300 km/h, quando o Ferrari se desviou, sem qualquer aviso, para a trajetória que Bonnier pretendia seguir, eventualmente por o seu piloto ter colocado inadvertidamente as rodas na terra, ao tentar dar espaço ao Lola amarelo. Sem qualquer hipótese de o evitar, o contato deu-se na frente do Ferrari, provocando o atravessamento do Lola que, sem controlo, levantou voo e passou para o lado de lá dos “rails”, felizmente numa zona interdita ao público. O carro desfez-se em pedaços, que ceifaram mais de três dezenas de pequenas árvores, pegando fogo, a mais de 100 metros do local do embate.
O piloto morreu de imediato. Tinha 42 anos e foi vítima daquilo que ele há mais de uma década combatia: a falta de segurança do desporto automóvel. Vetsch saiu ileso do Ferrari e afastou-se, sem qualquer tipo de hesitação, do local do acidente… enquanto outros pilotos não hesitaram em parar, procurando socorrer os intervenientes, como por exemplo Vic Elford, que a tudo tinha assistido. Em 19 anos de carreira, Jo Bonnier participou em mais de 600 corridas, entre elas 109 GP de F1.
Marques dos Santos
