A brincar, a brincar…
A Citroën pegou no DS3, chamou os especialistas em emoção da sua divisão Racing e disse-lhes que queria um carro que fosse um brinquedo inesquecível. Eles assim fizeram: o resultado, sem olharmos para as virtudes do exemplar que tem dominado o palco do WRC, é o DS3 Racing “de Lineu”. Claro que lhe faltam coisas como a tração total e um tal de “S.Loeb” ao volante, mas as bases estão lá. Ou seja: um DS3 de brincar… mas muito a sério!
O Citroën DS3 Racing é um mutante. Não apenas porque reflete uma imagem de irreverência, consubstanciada num cromatismo diferente e arrojado – o primeiro dos exemplares que testámos era cinzento e laranja! – como possui lá dentro atributos de puro-sangue saudável e de muito alimento. Leia-se, mãozinhas e pezinhos! Bom, confessemos: de comer e chorar por mais…
Laranja mecânica
Mecanicamente, o Citroën DS3 Racing é um virtuoso. Uma verdadeira laranja: ácido, assertivo, poderoso, irrequieto, incapaz de dizer basta. As razões, todas elas com a assinatura da divisão Racing da marca francesa, são simples e fáceis de declinar.
Primeira: tome-se sempre o DS3 como um todo, antes de o separar conjugações como “mais potente”, “mais divertido”, “mais aquilo que se queira que ele seja” – desse que seja para andar depressa e bem. Portanto, comecemos pelo motor. É o mesmo bloco 1.6 turbo que a BMW utiliza, por exemplo, no MINI John Cooper Works e noutras criações, desde Série 1 a Série 3 e em diferentes níveis de potência. No DS3 Racing, tem 203 cv e um binário de 275 Nm, disponível de forma sensível logo desde regimes bastantes baixos, no que é ajudado pela caixa manual de seis velocidades, exata no engreno (a exceção foi a passagem de sexta para quinta, que por vezes pecou por indecisão e rapidez), de curso curto, seco e levemente metálico. Nunca, em nenhuma situação, faltou “motor” ao DS3 Racing, durante as centenas de quilómetros em que o utilizamos.
Segunda: sigamos para o chassis. Tem vias mais largas e junta-se ao solo através de uma suspensão mais firme, sem ser desagradável ou demasiado seca. Os pneus descansam em jantes de 18”, pintadas na cor do tejadilho (laranja num, cinza acetinado no outro). O conjunto transforma o DS3 Racing num potro ágil, divertido, inconformista. Além disso, os travões parecem nitidamente sobre-dimensionados, pois são enormes, têm discos perfurados à frente com pinças em vermelho e quase fazem estacar o DS3 Racing quando solicitados, mesmo em condução viril. Instilam confiança e parecem imunes à fadiga. A direção é bastante direta e informativa, pecando apenas por ser algo permeável aos aumentos bruscos de potência, durante acelerações vigorosas, talvez por falta de um auto-blocante. Felizmente, a justeza do chassis ajuda ao controle instintivo através de uma coisa que se chama “ponta-tacão”, curiosamente não muito facilitado pela pedaleira (em alumínio perfurado) algo distante.
Terceira, ou por último: por dentro e por fora (ou vice-versa). Comecemos por aqui: o DS3 Racing não é, definitivamente, o carro para quem gosta de passar despercebido. Apesar de toda a panóplia de autocolantes seja uma opção, as várias conjugações de cores possíveis para a carroçaria ajudam, é certo, à personalização unitária, mas afastam os tímidos e conjugam-se com a veia desportiva do modelo. Para mais, a Citroën associou, como nas cavas das rodas ou nas enladeiras, elementos em verdadeira fibra de carbono, que aperfeiçoam o cunho “racing” do DS3… Racing.
Lá dentro, o ambiente continua o mais desportivo possível. Além de se manter toda a “literatura” de competição existente por fora, bem como o jogo de cores associado estreitamente às cores de cada unidade, os bancos são (quase) “bacquets”, com bom apoio lateral, lombar e para as pernas e os principais comandos têm uma ergonomia seca e intuitiva. Enfim, tanto o volante como a alavanca da caixa de velocidades – o primeiro, cortado em baixo, tem uma boa inclinação vertical, mas talvez pudesse ser mais pequeno; a segunda cai bem e com naturalidade na palma da mão e tem um manejar decisivo e duro – dão a sua contribuição para que o Citroën DS3 Racing seja uma boa base para o carro de “ralis” que faz as delícias não apenas do “Loeb” do WRC, mas também de outros campeonatos, estes nacionais e designados, por exemplo, R2 (em referência às duas rodas motrizes, aliás a exemplo do “nosso” DS3 Racing).
Terminemos esta análise como o espaço disponível. Que, à frente, não merece reparos: não é espartano, mas sim de acordo com os pergaminhos do DS3 original, justo para dois ocupantes. Lá atrás, esquecendo o contorcionismo exigido para lá chegar, os bancos alojam com naturalidade dois adultos, que descobrem espaço suficiente para as pernas não tocarem nas costas dos bancos dianteiros, mas também que é aí que as qualidades inatas do DS3 Racing são mais rigorosas e sentidas com maior acuidade (e desconforto).
Curvas para que vos quero!
Levamos o Citroën DS3 Racing para a antiga Rampa da Arrábida. “Suspeitávamos” que era este o seu terreno de eleição – e não as longas retas de um autódromo, apesar de estar creditado com uma velocidade máxima de 235 km/h. É que a curta distância entre eixos, associada ao carácter firme da suspensão e dos amortecedores e à disponibilidade do motor, bem como o escalonamento da caixa de velocidades, davam a “entender” que seria nos encadeamentos de curvas e curtas retas que o DS3 Racing se sentiria… em casa.
E sente mesmo, conforme verificámos após menos de dois quilómetros… antes de nos colarmos à traseira de um VW Golf V cheio com uma lenta família de passeantes. Repetimos a dose, atentos mas (muito) divertidos e percebemos que é nas transferências de massa que o DS3 Racing se porta que nem um adolescente cheio de testosterona. As tendências de fuga em frente, na saída das curvas mais lentas, é facilmente controlável, apesar de alguns “soluços” de tração (sempre são 100 cv por roda!) e, por outro lado, a traseira tem uma saudável tendência para a emancipação, o que apenas torna mais divertida a tarefa de conduzir.
Noutro local, percebemos que, depressinha, o Citroën DS3 Racing se torna muito “nervoso” nas curvas de raio longo e exigentes em termos de velocidades mais elevadas, obrigando a uma condução mais “fina” e quase na ponta dos dedos. Afinal, o DS3 Racing é um carro jovem, para jovens de sangue na guelra – o que já não será bem o nosso caso, onde apenas (alguma) experiência assume uma certa vantagem perante a irreverência do “bicho”.
Seja como for, e atendendo ao preço final de 35.500 euros, sempre se pode acrescentar, em jeito de legenda, que o Citroën DS3 Racing pode parecer “caro”, mas merece-o. Curiosamente, apesar de tudo, saímos lá de dentro com um consumo inferior aos 8l/100 kms., o que não deixa de surpreender. Em especial quando os percursos feitos com alguma “alma” à mistura, os números dispararam para lá da dezena de litros. Também aqui, nota positiva.
CARACTERÍSTICAS TÉCNICAS
Motor: 4 cil. em linha, diant. transversal; 1598 cc; 2 árvores de cames à cabeça, 16 válvulas; turbo c./”intercooler”, inj.directa a gasolina; Potência (cv/rpm): 203/6.000; Vel. Máx. (km/h): 235; Acel. 0-100 km/h (s): 6,5; Consumos (l/100 km): 6,4; Emissões CO2 (g/km): 149; Preço (euros): 35.503,24


Estou interessado em comprar um carro destes, mas os consumos de alguma forma assustam-me. Os vossos 8litros foram conseguidos em que circunstancias?
Boa tarde
Os nossos 8 litros foram coseguidos em condução calma e relaxada, sem aproveitar, claro está, toda vrtente desportiva do carro. Se quiser divertir-se, pode contar com valores de dois dígitos…