Renault Clio Gordini R.S. e GTs

Marca registada

O desporto está, desde sempre, associado à produção automóvel. Também desde sempre, os principais construtores assumem uma identidade própria que, com o avançar das décadas, se tornou objecto de cultura. Assim como uma espécie de Marca registada. Na Renault, essa marca chama-se Gordini. E mantém intactos os preciosos genes originais. Intactos? Não: mais perfeitos.

A Renault tem na sua gama a chancela Gordini em três produtos. O AutoanDRIVE teve a oportunidade de fazer algumas centenas de quilómetros com dois deles, ambos integrantes na gama Clio: o puro sangue R.S. 2.0 16v, com 203 cv e o topo na oferta turbo-Diesel, o 1.5 dCi GTs, com 105 cv. Duas formas diferentes de viver a mesma e poderosa imagem. Veja como e porquê.

Clio Gordini R.S. 2.0 203 cv: corpo e alma de corredor

Lembro-me muito bem de dois Gordini, na minha infância: um, o R8 (que mais tarde revivi em eventos de Clássicos, pelas mãos do Eduardo Carpinteiro Albino) e, mais tarde, um R12 (que também mais tarde “encontrei” em provas no Estoril)., Por isso, foi com alguma emoção que me sentei ao volante do actual Clio Gordini R.S., com o motor aspirado de 2 litros e 203 cv. E foi com emoção ainda maior que calquei no pedal metálico perfurado e sintonizei os ouvidos para o cantar rouco que gritava dos escapes também metálicos e de dupla saída, lá atrás, envolvidos por um difusor aerodinâmico, no género dos chassis de F1.

Aliás, esta é apenas uma de muitas provas de que o Clio Gordini R.S. foi trabalhado pelos homens da Renault Sport. O mais óbvio: R.S. são precisamente as iniciais do departamento de competição da marca francesa, de onde saem as versões apimentadas para as provas de velocidade. Por isso, muitos dos ensinamentos retirados da F1 foram aplicados nas versões Gordini dos carros de estrada.

Um deles está no tratamento do chassis, trabalhado para rasgos desportivos: o seu comportamento é exemplar, dá para qualquer… curva, ou não tivesse por base a versão Cup, de pista, equipado com molas e amortecedores de taragem mais firme e dura, evitando o rolamento nas transferências de massa e mantendo o carro agarrado à trajectória ideal. E nem o facto de ter mais de 200 cv associados apenas às rodas dianteiras é problema, por o Clio Gordini R.S. mantém-se quase impávido na saída das curvas, deixando-se as correcções entregues à dosagem do acelerador e, principalmente, à direcção muito exacta, sem ser demasiado directa e à suspensão com “pivot” descentrado, igual à do Mégane R.S.

Claro que a dureza das ligações ao solo não se compadece com problemas nas costas, nem sequer o conforto foi olhado como primordial pelos técnicos da Renault Sport. O Clio Gordini R.S. gosta de velocidade, gosta de pista, gosta de saltar de bossa em bossa, nos pisos mais irregulares. Tudo, sem se descompor, de forma exacta e que dá um remendo gozo! Por algum motivo o difusor traseiro produz 40 kg de apoio a mais de 200 km/h…O que torna obsceno dizer que os consumos são altos – quem se importa que as médias não baixem dos 11 litros aos 100? Só mesmo aqueles picuinhas que acreditam no milagre das rosas!

Deixámos para último lugar a imagem. Toda ela recria a atmosfera Gordini. Ou seja, a carroçaria em azul… “Gordini”, com as listas brancas a atravessar a carroçaria desde o “capot” à tampa da bagageira; brancos são também o lábio aerodinâmico dianteiro que rodeia a grelha em rede negra e os espelhos retrovisores. As jantes são negras, de 17” e com enormes pinças dos travões a vermelho, ba frente e atrás. As abas laterais são pronunciadas e não enganam: estamos perante uma versão (quase) de competição e não estão ali pelo espírito “tuning”.

O interior também ressuma a atmosfera Gordini. Os bancos são em pele e tecido, negro e azul, pespontados a branco. O volante a alavanca da caixa de velocidades (de engreno muito preciso e curso muito curto, “comme il faut”…) são também forrados a pele a pespontados – tendo ainda o volante duas listas em azul, no cimo. Uma placa numerada indica a exclusividade de cada exemplar: o “nosso” era o 0964.

Em jeito de conclusão: Amedée Gordini continua a descansar em paz, ciente de que os seus pergaminhos continuam a ser honrados pelos técnicos da Renault. E, por menos de 30 mil euros, você fica na garagem com o mais divertido e corajoso dos médios desportivos, tendo ainda direito a um equipamento bastante interessante, com muita pele sintética no interior, mas também faróis direccionais, cartão mãos livres e ar condicionado automático. O sistema de navegação TomTom é opcional.

Clio Gordini1.5 dCi GTS 105 cv: a diferença está na roupa

Esta é a versão turbo-Diesel mais representativa da gama Clio. Mais potente, com os seus 105 cv extraídos do generoso bloco 1.5 dCi, a diferença está desde logo no chassis trabalhado pelos homens da Renault Sport, de origem na versão chamada pela marca a ostentar a roupagem Gordini: a GTs. Nesta, as suspensões são mais duras cerca de 15% e os amortecedores possuem uma taragem mais firme e, atrás, são de maior diâmetro, diminuindo bastante o conforto mas tornando o automóvel mais assertivo e preciso em curva e divertido de conduzir.

Porém, o carimbo Gordini uma roupagem a condizer. Ou seja, para lá azul típico, das tradicionais listas brancas ao longo da carroçaria, da grelha em preto brilhante, do lábio dianteiro branco, das abas laterais, das jantes de 16” e do “aileron” e das “badges” indicativas da série, o interior pauta-se também por… tons em azul: desde os forros das portas aos bancos desportivos em couro e tecido (numa mistura de azul e preto e em tudo idênticos aos dos R.S.), sem esquecer o volante “sport” (com as tais duas faixas brancas) ou o fole da alavanca da caixa (também igual à do R.S., coma pega em metal azul sem indicação das “velocidades” mas sim com a palavra Gordini no cimo), tudo aponta numa ambiência Gordini, desportiva a 100%. No “tablier”, os mostradores são semelhantes aos do R.S., com moldura e fundo brancos e a cobertura em tecido azul e até os tapetes têm assinatura Gordini.

O equipamento de série é bastante completo e inclui de série, entre outros, o ar condicionado automático; retrovisores eléctricos rebatíveis electricamente; faróis de nevoeiro e com função direccional; sensores de chuva e luminosidade; computador de bordo com sete funções; ou o sistema áudio Radiosat com leitor de CD e MP3 e ligação a iPod. O controlo de estabilidade (ESP) é opcional. Tudo isto, por menos de 23 mil euros – tendo-se ainda a satisfação de ter um Clio desportivo com a “panache” de exclusividade Gordini e consumos anunciados de 4,5 l/100 km.

CARACTERÍSTICAS TÉCNICAS

Clio Gordini R.S. 2.0 203cv

Motor: Diant.transversal, 4 cil. em linha, 1.998cc, 16 v, duas árvores de cames na culassa, inj.indireta a gasolina; Potência (cv/rpm): 203/7.100; Vel.Máx. (km/h): 225; Acel. 0-100 km/h (s): 6,9; Consumos (l/100 km): 8,2; Emissões CO2 (g/km): 190; Preço (euros): 29.950

Clio Gordini 1.5 dCi GTs 105 cv

Motor: Diant., 4 cil., turbo-Diesel de geometria variável, inj.directa c./ common rail e intercooler; Potência (cv/rpm): 105/4000; Vel. Máx. (km/h): 190; Acel. 0-100 km/h (s): 11,1; Consumos (l/100 km): 4,3; Emissões CO2 (g/km): 123; Preço (euros): 22.950

Fotos: C.Santos e Fábio Santos Agradecimentos: Campera Karting – Kartódromo do Carregado (www.camperakarting.com)

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