De Conímbriga a Montemor-o-Velho

História nos arrozais

Menos de uma centena de quilómetros são necessários para viajar dois milénios no tempo – ou mais. A sexta edição da BMW X Experience/Centro de Portugal terminou num périplo de história universal: as ruínas Conímbriga, o castelo de Montemor-o-Velho, o dólmen das Carniçosas, com o Paço de Maiorca pelo meio, foram exemplos de enciclopédia, refrescados depois pelas ondas do mar e pelo odor dos pinhais de Quiaios, onde a adrenalina soube a pouco. Tudo, com os arrozais o Mondego como palco de passagem.

Depois de um primeiro roteiro de viagem, este vai falar essencialmente de locais. É claro que, de local para local, se atravessaram arrozais, por estradas estreitas, com buracos, valas, manilhas e muito, muito pó. É claro que bordejámos os quadrados que foram verdes espelhos de água há poucos meses – e que agora estão já a ser preparados para a safra do próximo ano. É claro que percorremos dezenas de quilómetros, neste final de sábado e na manhã de domingo, desde que saímos de Penela, pernoitámos na Figueira da Foz e, depois, parámos a meio da manhã, para comermos uns pastéis de Tentúgal, junto à Igreja de Santa Maria da Alcáçova, no centro da muralha interna do castelo de Montemor-o-Velho. Até lá, conhecemos as antigas estradas que levavam a Coimbra e, depois, à Figueira da Foz – esta de seixos redondos, polidos por anos de aros de carroças e estreita, tão estreita que resulta difícil que tenha sido utilizada por qualquer automóvel.
Porém, este caminho final de uma viagem pela história mais antiga de Portugal e da Península, começou quando, deixando no horizonte o castelo de Penela, rumámos às ruínas de Conímbriga.

O sabor das pedras de Conímbriga

A estrada levou-nos rapidamente até à velha cidade romana, deixada ao abandono depois da última conquista bárbara. Como (quase) todos os da expedição chancelada pelo Clube Escape Livre, já lá não íamos desde “a escola primária” – e, portanto, tínhamos apenas uma vaga ideia daquilo que ali iríamos encontrar. Pedras, isso ainda conseguíamos ir buscar ao recôndito do cérebro onde as imagens passadas estão armazenadas; mais que isso, não – nem sequer o bafo de calor em que embatemos, mal entrámos no recinto.
Classificada Monumento Nacional por decreto de 1910, Conímbriga é a estação arqueológica mais importante e melhor conservada em todo o território português. O interesse pelas ruínas já vem do século XVIII, mas só em 1899 as escavações tiveram início, graças a um subsídio concedido pela rainha D. Amélia. Foi particularmente importante, em termos de classificação da origem das ruínas, a campanha de actividade arqueológica efectuada em 1913, durante a qual foram encontrados vestígios da Idade do ferro, o que permitiu recuar a ocupação do local a tempos mais antigos que os romanos. Na verdade, acredita-se que a primitiva ocupação humana tenha origem num castro celta da tribo dos Lusitanos; porém, o conjunto de artefactos de bronze encontrado naquele ano relacionaram a região com a cultura megalítica e ao povo Conii, que justificará a toponímia do lugar ser, desde que se conhece, Conímbriga e, hoje em dia, Coimbra.
As ruínas de Conímbriga situam-se na estrada romana que levava de Olisipo (Lisboa) a Bracara Augusta (Braga), a 16 quilómetros de Coimbra e a 2 de Condeixa. A povoação original foi ocupada pelos Romanos durante as campanhas militares de Décimo Júnio Bruto, no ano de 139, tendo sofrido importantes obras durante o reinado do imperador César Augusto, altura em que foram construídos o Forum e as termas públicas.
Durante as invasões bárbaras da Península Ibérica, os Suevos assaltaram a cidade, em 464, conseguindo invadi-la na sequência do corte do fornecimento de água a partir da destruição do aqueduto que transportava a água de uma nascente situada a montante, em Alcabideque, quatro anos mais tarde. Depois, a cidade acabou por ser conquistada pelos Visigodos, perdendo o seu estatuto de sede episcopal para Aeminium (onde hoje existe Coimbra) e, a pouco e pouco, a sua importância estratégica, apesar de apresentar excelentes defesas naturais. Os habitantes que ficaram deslocaram-se para dois quilómetros e fundaram Condeixa.
Hoje, Conímbriga é uma das raras cidades romanas que mantém a sua cintura de muralhas, de planta triangular. As escavações deixaram a descoberto não apenas o conjunto de ruínas extremamente bem conservado, mas ainda uma “villa urbana” (Casa dos Repuxos) com peristilo central, notável pela riqueza de mosaicos que a pavimentam. A sua área é de 569 m2 e possui um jardim central com canalizações que forneciam mais de 500 repuxos, ainda hoje em funcionamento. Acredita-se que pertencia a uma única família, a de Caius Rufus. Posteriormente, descobriu-se um edifício que funcionava como termas públicas, com as suas características divisões para banhos (frigidário, tepidário e caldário).
A partir de 1955, o ritmo das escavações foi incrementado, de tal forma que deu origem à construção do Museu Monográfico de Conímbriga, onde hoje se encontra a maior parte dos artefactos ali encontrado e onde se reconstrói, através do trabalho de especialistas, a maioria dos mosaicos encontrados no local, de acordo com a traça e o desenho originais.

Um castelo raro em Montemor

De Conímbriga, pelos arrozais, rumámos à Figueira da Foz, frente ao mar. Daí saímos, na manhã seguinte, pelas antigas estradas, até Montemor-o-Velho – onde existe um castelo raro. Raro, porque é dos poucos existentes em Portugal que ainda mantém as cercas exterior e interior de muralhas.
Vila de origens remotas, eventualmente neolíticas, Montemor-o-Velho pertence ao distrito de Coimbra e tem cerca de 2.900 habitantes. O seu território foi sucessivamente ocupado pelos Romanos, Visigodos e Muçulmanos. O seu castelo foi pela primeira vez citado em 848, quando foi dominado pelo rei Ramiro I das Astúrias, mas a sua conquista definitiva foi efectuada pelo rei Fernando Magno de Leão, que o entregou ao conde Sesinando. Montemor-o-Velho recebeu o seu primeiro foral em 1212 e a sua importância estratégica é atestada ao longo dos séculos, tendo sido infantado de diversos monarcas, desde Sancho e Teresa, Afonso IV (1322) e Pedor, duque de Coimbra (1416).
O castelo de Montemor-o-Velho situa-se em posição dominante sobre a vila, na margem direita do rio Mondego, de cuja linha fronteiriça foi um ponto estratégico de defesa. Ao longo dos séculos, a sua posse foi objecto de disputas acesas e de conflitos entre nobres e, no século XIX, durante a Guerra Peninsular, foi ocupado pelas tropas francesas de Napoleão, comandadas por Junot, entre 1807 e 1808. Três anos mais tarde, a derrota das tropas francesas levou ao seu saque e destruição, tal como sucedeu com a vila. Desde então, o seu estado manteve-se sem grandes alterações, reflectindo-se hoje nas muralhas existentes a violência dos ataques sofridos durante as invasões napoleónicas. Classificado como Monumento nacional desde 1910, em 1929, por iniciativa do particular António Rodrigues Campos, ocorreram algumas obras de restauro, no âmbito de uma campanha de defesa da monumentalidade existente.
Situado a 56 metros acima do nível do mar, construído em alvenaria de pedra, a sua planta é irregular e constituída pelo castelejo, uma cerca principal, uma barbacã ameada envolvente, um cercado a Norte e um reduto envolvente, a Leste.
O castelejo define-se pelo espaço angular existente entre a Torre de Menagem, que se situa a Sudeste e a cortina Norte, sendo reforçado por quatro cubelos, de planta quadrada e semicircular e dois dos quais apresentam aberturas em arco quebrado. A Torre de Menagem é de planta quadrada e dividida por pavimentos.
A barbacã possui duas portas: a Porta da Peste, a Sudeste, junto à Torre de Menagem, que veio substituir a porta principal, que foi destruída; e a Porta da Nossa Senhora do Rosário, virada a Sul e que foi alvo de remodelação recente. Da barbacã descem, na encosta virada a Nordeste, panos de muralha, que se erguem perpendicularmente ao corpo do castelo e são rematadas por duas robustas torres quadradas. Prolongava-se desde a barbacã o antigo paço senhorial, cuja construção foi iniciada por Urraca e que hoje está em ruínas.
Dentro dos muros do castelo encontram-se a Igreja de Santa Maria da Alcáçova, também classificada como Monumento Nacional e que remonta ao século XI, mas remodelada na época manuelina; a Capela de Santo António, paralela à barbacã; e a Igreja da Madalena, cuja actual forma data dos séculos XV e XVI. A nova cerca guarda as ruínas da Capela de São João.

Arrozais, areais e um dólmen

E pronto: visitados o castelo de Montemor-o-Velho e a Igreja de Santa Maria da Alcáçova, olhados os campos verdes que levam ao horizonte de Coimbra e as veigas do Mondego, apreciados devidamente os pastéis de Tentúgal e escutada a lenda do Abade João, que mandou degolar todos os familiares, por medo à derrota frente às forças do califa de Córdoba, numa decisão precipitada pois, com a coragem do desespero, acabaram por derrotar os invasores – é tempo de nos fazermos de novo à estrada. Rumo aos areais de Quiaios, a caminho da Figueira da Foz.
Pelo caminho, escondido numa franja de pinheiros e com as hortas semeadas nos areais bem à vista, passamos pelo dólmen das Carniçosas, situado no cume da serra das Alhadas, sobre uma colina que funcionou como uma mamoa, monumento funerário artificial em forma oval. O dólmen é formado por um átrio, um corredor de acesso com 4,5 metros de comprimento e formado por renques de lajes de altura mediana e a câmara funerária, poligonal e com três metros de diâmetro. Podem ser visitados o corredor e a câmara, que são limitados por grandes pedras, com 2,1 metros de altura e uma espessura de 30 cm.
Enfim, alguns troços de areia mais adiante e cruzámos as ruas senhoriais da vila de Maiorca, povoação que recebeu foral em 1194 e que, até ao século XIX, constituiu o couto de Maiorca, tendo sido sede de concelho até 1855. O Paço de Maiorca é o monumento mais conhecido, tendo sido edificado no século XVIII e pertencido à família dos viscondes de Maiorca. Adquirido pela autarquia da Figueira do Foz em 1999, é de traça barroca e está aberto ao público diariamente. Investidores privados querem transformá-lo em hotel de luxo… Em frente à fachada principal, existe o chamado Terreiro do Paço, espaço aberto e onde podem circular peões e automóveis.
Depois de um trilho arenoso e cheio de adrenalina escondida nas raízes dos pinheiros e de um périplo pela marginal feita nas estradas da velha pedreira da Cimpor, eis-nos na Figueira da Foz. Parámos na avenida junto à praia e, mal chegados, desabou a tempestade do mês – para lavar do pó dos caminhos e das almas sequiosas.

Texto: Hélio Rodrigues
Fotos: Clube Escape Livre/João Cortesão, C.Santos e Hélio Rodrigues

About these ads

Deixar uma resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

WordPress.com Logo

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Log Out / Modificar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Log Out / Modificar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Log Out / Modificar )

Connecting to %s

Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.

Junte-se a 849 outros seguidores

%d bloggers like this: