Uma lenda centenária
“Conduzir à Fangio” levou décadas a ser substituído pelo “Estás armado em Fittipaldi”. O seu recorde de cinco títulos de Campeão do Mundo de F1 apenas foi batido quase 50 anos depois, por um tal Michael Schumacher. Juan Manuel Fangio faria hoje 100 anos. Verdadeiro ídolo universal, a sua lenda mantém-se bem viva – apesar de tudo e de todos os outros ídolos que a Fórmula 1 já criou, o nome Fangio continua a ser traduzido como “A” Fórmula 1.
Os outros pilotos, os muitos que o admiravam, chamavam-lhe “Il Maestro” – o Mestre. Para os seus muitos amigos, carinhosamente era apenas “El Chueco” – o Pernas Tortas.
Juan Manuel Fangio chegou à Europa, onde as coisas aconteciam, já com 39 anos – a idade em que, hoje, os pilotos de F1 são já uma recordação; ou, em alternativa, constroem (tentam construir, tantas vezes…) a carreira que não conseguiram na F1, dispersando-se pelas corridas de “Sport”, Turismos ou, ainda, Off-Road.
Em menos de dez temporadas na F1 (e apenas sete completas), Fangio também construiu – um mito, que ainda hoje perdura. Numa altura em que a coragem se media nas pistas ou nas arenas, ele foi o mais corajoso. Numa época romântica, ele foi o poeta dos sonetos inflamados, que terminavam tantas vezes com a chave de ouro da vitória. “Glamour”, prazer e sentimento, foram unidos com uma maestria única pelo primeiro grande Mestre que a F1 teve na sua História. O seu centenário não podia ser medido por uma folha em branco. Nunca!
Vencer nas estradas das pampas
Juan Manuel Fangio começou bem cedo a correr, no seu país. Depois do serviço militar, fundou a sua própria oficina, onde preparava velhos e poderosos carros, de marcas americanas, mas especialmente Ford. Com eles, alinhava em corridas, quase todas as semanas – a sua estreia, aos 18 anos, foi feita com um incrível táxi Ford! Nessa altura, as corridas eram, naquele país a sul da América, muito mais que uma centena de voltas a uma pista fechada – eram, isso sim, milhares de quilómetros, por estradas abertas e quase sempre de terra. Fangio criou aí a sua reputação, a sua enorme resistência a sua incrível capacidade de improvisação. Reflexos apurados e um notável golpe de volante, valeram-lhe uma galeria de troféus, o principal deles ganho em 1940.
Nesse ano, a edição do Grande Prémio do Norte era uma ligação terrível, pelos Andes, entre Buenos Aires e Lima, a capital do Peru. Durante duas semanas, com uma etapa por dia, os pilotos enfrentaram provações terríveis – apenas acompanhados por um navegador (ou co-piloto), sem a presença de mecânicos ao longo da prova e proibidos de reparar o carro ou fazer quaisquer afinações depois de cada etapa. Juan Manuel Fangio chegou em primeiro lugar e esse triunfo permitiu-lhe um reconhecimento quase tardio – mas, principalmente, o reconhecimento do Governo argentino, que passou a patrociná-lo nos anos seguintes e, aos 38 anos, o enviou para a Europa, para aí se bater com os melhores entre os melhores.
Um ano mais tarde, em 1950, nasceu o Campeonato do Mundo de F1. Fangio tinha 39 anos – e a energia de um jovem estreante. Foi essa energia que, gerida com entusiasmo e enorme coragem, lhe permitiu bater recorde sobre recorde e, com uma desarmante humildade, sair da F1 pela porta alta, deixando atrás de si um vazio fundo, que foi apenas pouco a pouco preenchido. E uma legião de fãs – que, de geração em geração, foi aumentando, tornando o seu nome um fenómeno universal.
Da glória ao drama
A estreia de Juan Manuel Fangio na F1 foi em 1948, em Reims, palco do GP de França. Qualificou-se 11º com um pequeno Simca-Gordini, mas abandonou. Voltou um ano mais tarde, já a expensas do governo do seu amigo Juan Domingo Perón. Em Sanremo, ao volante de um bem mais poderoso Maserati 4CLT/48 patrocinado pelo Automovil Club de Argentina, dominou o evento, ganhando não apenas as duas mangas, mas ainda terminando com um minuto de vantagem sobre o príncipe Bira. Nesse ano, Fangio participou em mais seis provas de F1, ganhando quatro, contra uma oposição que incluía Giuseppe Farina e Alberto Ascari.
Em 1950, nasceu o Campeonato do Mundo de F1. Com 39 anos, Fangio foi recrutado pela Alfa Romeo, fazendo equipa com farina e Luigi Fagioli. Os Alfetta já vinham de antes da Guerra, mas provaram serem imbatíveis. Fangio ganhou as únicas três provas em que chegou ao fim, mas o título foi para Farina, graças ao quarto lugar que tinha a mais. No ano seguinte, ainda com a Alfa Romeo, Fangio ganhou mais três corridas, conquistando o seu primeiro título de Campeão do Mundo.
1952 foi um ano dramático para Fangio. As novas regras da F1 permitiam apenas as especificações dos carros de F2 e, sem meios para isso, a Alfa Romeo reformou os Alfetta e retirou-se, deixando o argentino sem volante. Até Junho, não participou correu em qualquer prova de F1; então, correu em Albi e Dundrod, provas que não pontuavam para o Mundial, com um BRM V16 – ao mesmo tempo aceitou um convite da Maserati para correr em Monza, que iria ter lugar no dia a seguir à prova norte-irlandesa. Fangio saiu de Belfast de avião, até Paris… onde perdeu a ligação para Milão. Então, sentou-se ao volante e conduziu, sozinho, a noite toda até chegar a Monza.
Fatigado e sem dormir, entrou no circuito uma hora antes da partida para a corrida. Sem conhecer o Maserati, Fangio largou do último lugar da grelha de partida. Mas, na segunda volta, perdeu o controlo do carro e, sem os reflexos apurados, não conseguiu evitar o acidente: o Maserati chocou contra uma barreira, para lá de uma vala que ladeava a pista e começou a capotar. O piloto foi cuspido para o campo, onde foi recuperado pelos médicos e transportado para o hospital com fracturas múltiplas, as mais graves as de várias vértebras do pescoço. Imóvel e sem poder fazer nada, Fangio pediu para ser transportado para o seu país, onde enfrentou longos meses de recuperação. Apenas iria voltar em 1953.
Salvo da tragédia
Mal se sentiu em forma, Juan Manuel Fangio regressou ao Velho Continente; estava mais jovem e pleno de força que jamais. E isso reflectiu-se nas suas prestações, enquanto piloto oficial da Maserati. Mas a sua missão foi impossível: contra a poderosa “squadra” Ferrari, liderada por Alberto Ascari, teve apenas a sorte em ganhar em Monza, terminando o campeonato no 2º lugar.
Então, voltou a atravessar o longo oceano, para vencer, com um Lancia D24, A Carrera Panamericana, corrida temível, muito ao estilo daquelas em que criou a reputação e aprendeu a pilotar com coragem e denodo. A edição de 1953 da prova que ligava Tuxtla Gutiérrez a Ciudad Juárez, por estradas mal asfaltadas, atravessando povoações e por entre desfiladeiros medonhos, foi uma da mais funestas – nela, Fangio viu morrer o seu amigo Felice Bonetto, um dos seus rivais na Europa.
Em 1954, Fangio fez meia temporada com a Maserati, antes de aceitar o repto da Mercedes-Benz, que quase “exigiu” que ele fosse um dos mosqueteiros com o inusitado W196. Os italianos consideraram-no traidor, mas ele, simplesmente, limitou-se a conquistar o seu segundo título de Campeão do Mundo e, no ano seguinte, enfrentou e venceu o jovem e promissor Stirling Moss, para carimbar a sua terceira coroa mundial. Nesse ano, a Mercedes afastou-se das competições, no seguimento da tragédia das 24 Horas de Le Mans – onde a vida de Fangio foi poupada pelo épico gesto desesperado de Pierre Levegh, que o avisou, no último instante, do que iria suceder.
Senhor do Inferno Verde
Mais um ano terrível, o de 1955 – para lá do acidente mais mortífero da história do automobilismo (83 espectadores mortos), Alberto Ascari perdeu a vida, ao testar o Ferrari 750 Monza de Eugenio Castelotti, em… Monza. Sem piloto fétiche, a “scuderia” foi buscar o desempregado Fangio – que lhe agradeceu a confiança com o seu quarto título.
Todavia, as relações do argentino nunca foram muito calorosas com o “comendatore” Enzo Ferrari e, no final da bem sucedida temporada de 1956, deixou Maranello e regressou à Maserati, que entretanto lhe tinha perdoado o desvario de 1954… e lhe entregou o mesmo 250F desse ano. Três triunfos de rajada foram a forma como Fangio reagiu ao desafio. Depois, o zero em Silverstone, antes da melhor corrida da sua vida, no tenebroso Nurburgring, talvez a pista que ele mais adorava…e temia.
Essa corrida era crucial para as aspirações de Fangio ao seu quinto título de campeão. Mesmo com um carro inferior, conquistou a “pole position”, mas deixou-se bater no arranque pelos Ferrari dos jovens e promissores Mike Hawthorn e Peter Collins. No final da terceira volta, estava no entanto já na frente, antes de uma estratégia falhada (arrancou com meio tanque de combustível, acreditando conseguir a distância suficiente para parar nas boxes e manter a liderança) o atirar de novo para 3º, a mais de 50 segundos dos pilotos da Ferrari.
Cerrando os dentes, Fangio iniciou então uma sucessão de voltas demoníacas, traçando recorde atrás de recorde e rodando mesmo mais rápido 11 segundos por volta que Hawthorn e Collins. Na penúltima volta, estava ainda em 3º, mas acabou por vencer a prova… com 3s de vantagem. Épico! Esta corrida de Fangio ainda hoje é considerada um dos mais belos momentos, uma das mais heróicas gestas da história do automobilismo mundial. Fangio saiu do Inferno Verde com o seu quinto título no bolso – só não sabia que essa tinha sido a última das suas 24 vitórias na F1, fazendo dele o recordista, ainda hoje não batido, de melhor “rácio” GP/1º lugar de sempre na modalidade (47,06%).
1958 seria o seu último ano na F1. Continuando com o já vetusto Maserati 250F, no Grande Prémio de França foi apanhado pelo líder, Mike Hawthorn. Mas o jovem britânico, que estava prestes a dobrar o Mestre, recusou-se a fazê-lo, em sinal de respeito: antes da meta, travou abruptamente e seguiu o “líder”, terminando a prova atrás de Fangio. O argentino, depois de acabar a prova, saiu do carro e, simplesmente, disse: “Acabou-se!”
Depois disso, nunca mais pilotou, sem ser em demonstrações. Adquiriu uma concessão da Mercedes-Benz em Balcarce, a sua terra natal – aquela onde tudo começou, tinha ele 11 anos, como aprendiz de mecânico. Ao longo das décadas seguintes, o Mestre, o homem que Fidel Castro se atreveu a raptar, a 23 de Fevereiro de 1958, tornando-se depois um admirador e até amigo sincero do piloto que já então era um mito vivo, transcendeu as fronteiras do indomável e adquiriu forma de Lenda. Hoje, teria feito 100 anos – menos do que a sua memória irá perdurar.
Num Maserati 250 F em Modena, anos 50: http://www.youtube.com/watch?v=L7Ifcgl789E&feature=player_embedded
Nurburgring 1956: http://www.youtube.com/watch?v=KsGx0voy7aY&feature=related
Nurburgring 1957: http://www.youtube.com/watch?v=yWfrQivWUco&feature=related
Os melhores momentos de Fangio: http://www.youtube.com/watch?v=BNVPAAin-rw&feature=player_embedded

