Um poço de saúde
Diz-se de um corpo são que vende saúde, que é um poço de saúde. Ora o Jeep Wrangler 2.8 CRDI, na sua mais recente evolução, com o motor a pulsar 200 cv, é isso mesmo: um poço de saúde. E força. Conforme pudemos comprovar durante o Raid Inatel Estrela/Açor, pelos mais duros montes e vales das duas serras.
Ninguém consegue ficar indiferente perante um Jeep Wrangler. O seu ar bruto, quase antiquado, tem a sua razão de ser: a marca norte-americana concebeu esta versão dos tempos modernos à imagem do mítico Jeep Willys, que ajudou a vencer a Segunda Guerra Mundial e que foi, na sua essência, o símbolo genético não só da Jeep, como também do próprio conceito.
Nessa altura, e por questões não apenas práticas, mas especialmente militares, ter tracção às quatro rodas era muito mais que isso: era ter as capacidades necessárias para passar por cima de toda a folha. O seu aspecto não tinha que ser elegante, mas simplesmente prático e eficaz.
Mais de quatro décadas depois, a Jeep soube integrar de uma forma magistral todas essas características essenciais no Wrangler, a assunção do espírito iniciático num TT moderno e capaz, ataviando no seu aspecto patusco (quase) toda a evolução da que a tecnologia 4×4 sofreu ao longo dos anos.
Ter um Wrangler é um desejo
O resultado desta ousadia é um jipe puro e duro, de formas quadradonas mas tão apelativas, que apetece mesmo ter um Wrangler, mal se olha para ele. E mesmo antes de se ficar a conhecê-lo, por dentro e por fora – as suas capacidades de devorador de trilhos e de pisar com decisão em toda… a rocha. O Wrangler é, por isso, aquilo que se chama um carro com carisma: pode não ser elegante, pode nem sequer parecer bonitinho, mas lança perfume, como diz a canção. Isto é, apela aos sentidos, aos desejos mais hedonistas, a um prazer robusto e másculo.
Não é, decididamente, carro de senhora: de feminino, possui muito pouco, desde a imagem às exigências. Porém, viver com ele não é cansativo: mexe-se bem, manuseia-se bem, é até estranhamente confortável, sem fazer perigar as suas evidentes capacidades “off-road”. É isso aí: ter um Jeep Wrangler é um desejo.
A mais recente evolução do modelo, ainda fresquinho de meses, mantém intacta toda a aura que fez a imagem do Wrangler: esquinado, jipe à força toda. Nisso, a Jeep não mexeu. Bom, por 350 euros deu-lhe uns vidros traseiros escurecidos, por mais 1.500 um “hard top” da cor da carroçaria. No resto, manteve os enormes estribos, a maior altura ao solo, os guarda-lamas quase quadrados, a escassa superfície vidrada – que, curiosamente, não provocam claustrofobia interior…
A tradicional grelha de sete barras delimitada pelos dois faróis redondos e farolins laranja-escuro dos piscas remata a frente poderosa e elevada. As dobradiças salientes das portas, os fechos em borracha negra do “capot” e os espelhos exteriores enormes e angulosos, mantêm intacta a imagem original. No alto do tejadilho, vê-se bem que aquilo tudo é escamoteável, fazendo então aparecer a base de “pick up” que, na sua essência, o Wrangler é.
As novidades, as diferenças, essas foram reservadas pela marca para o interior do Wrangler. Tudo pormenores que melhoram de maneira significativa o conforto e atenuam o carácter algo espartano das primeiras versões: as portas têm agora forro integral; o volante é em pele, cai bem nas mãos e nele podem controlar-se as funções do rádio, “cruise control” e do “kit” mãos livres; os espelhos retrovisores exteriores possuem regulação eléctrica; o painel de instrumentos possui um novo visual, com aros cromados em redor dos mostradores do velocímetro e taquímetro, bem como das saídas de ventilação; o ar condicionado é automático; a consola central possui igualmente um novo “design”, mais modernos e apelativo, englobando não apenas as alavancas da caixa de mudanças e de tracção total e engreno das redutoras, como local para recepção de copos ou garrafas. Tudo, em nome do conforto, que pode ser reforçado através de estofos em pele – um opcional por 1.500 euros, que a versão ensaiada não possuía.
Por cima de toda a folha
A Jeep resolveu fornecer um acréscimo de alma ao bloco de 4 cilindros, já existente na gama. Com isso, aumentou-lhe a potência dos já bem interessantes 177 cv para uns respeitáveis 200 cv. O que, combinado com um binário máximo de 410 Nm, disponível a partir das 2.000 rpm, permite ao Wrangler passar por cima de toda a folha… e de toda a rocha. Literalmente, conforme bem pudemos comprovar, durante quase três dias, pelas serras da Estrela e do Açor. Não houve corta-fogo que metesse medo ao “nosso” Wrangler, apesar do seu comprimento de “quatro portas” e do seu porte maciço e quadradão. A caixa manual de seis relações estava bem escalonada no aproveitamento de todo o motor e tinha um engreno rápido e decidido, mesmo em fora-de-estrada.
Aqui, um conselho: desligue sempre a função Start/Stop, o que consegue com bastante facilidade, pois basta carregar no botão que a assinala. Esta intuição não está porém relacionada com o desactivar do modo ECO de funcionamento do motor, que pode atrapalhar nas subidas mais íngrimes, mesmo com as redutoras engrenadas: é que, quando se hesita ou se tem que levantar o pé, numa situação de maior emergência ou cuidado, o facto leva a que o motor se “cale” de imediato, obrigando a algum malabarismo para voltar a colocar tudo nos eixos correctos.
Ou seja, tem que se procurar no computador de bordo (“Definições pessoais”) para se conseguir desactivar a função ECO, deixando assim respirar a plenos pulmões dos seus 200 cv o excelente motor que anima o Wrangler – e que se mostra tão à-vontade em qualquer trilho, que nem apetece regressar ao asfalto.
E as dimensões generosas do Wrangler só atrapalham nas curvas mais fechadas, porque a capacidade de viragem fica diminuída pela ausência de diferencial central, obrigando a algumas manobras extra para se apontar a poderosa frente na direcção que queremos.
Finalmente, dois comentários de fecho. O primeiro, tem a ver com os consumos, que ficam bem longe do assinalado pela marca. De facto, nunca conseguimos baixar dos 9,5 l/100 km, com a particularidade de, em fora-de-estrada… ou em auto-estrada, eles puderem com naturalidade subir para lá dos 13 l/100 km. E como estamos a falar de… economia em tempo de crise, há também que acrescentar que paga Classe 2 nas portagens.
O segundo, tem a ver com o preço. Que é de combate: como tecnicamente o Wrangler é uma “pick up”, a Jeep conseguiu homologar o modelo nesse segmento, beneficiando assim da benevolência fiscal aí exercida para praticar um preço que nenhum dos seus rivais consegue acompanhar.
Em jeito de conclusão, se quer ter um jipe com aspecto robusto, quase a atirar para o rústico, com as qualidades a preceito para toda a faina e até mesmo um certo carisma, então não tenha grandes dúvidas: no Wrangler encontra esse amigo que tanto deseja.
CARACTERÍSTICAS TÉCNICAS
Motor: Dianteiro, longitudinal, 4 cil., 2.777 cc, turbo-Diesel, inj.directa “commonrail”
Potência (cv/rpm): 200/3.600
Vel. Máx. (km/h): 175
Acel. 0-100 km/h (s): 10,6
Consumos (l/100 km): 7,4
Emissões CO2 (g/km): 194
Preço (euros): 38.950
Texto: Hélio Rodrigues
Fotos: AutoanDRIVE/C.Santos/Hélio Rodrigues e Clube Escape Livre/João Cortesão
