BMW X3 xDRIVE 20d Auto

Dr. Jekyll e Mr. Hyde

Quando saiu o BMW X3, já lá vão quase dez anos, muita gente perguntou o que se teria passado pela cabeça dos pensadores da marca bávara, para inventar um X5 versão “light”. Que, até, poderia canibalizar a popularidade deste. Porém, pouco demorou para que essas vozes se calassem – a BMW tinha acabado de criar um monstro. Hoje, esse monstro ficou… belo.

O BMW X3 depressa se tornou um ícone. Único na sua quinta, possuía qualidades insuspeitas – versatilidade em qualquer tipo de terreno, qualidades dinâmicas, qualidade perceptível, equipamento (quase) a condizer. Mas, também, alguns defeitos: pouca criatividade no interior, espaço algo acanhado, linhas pouco interessantes. No entanto, apesar deles, transformou-se num “best-seller – e, mais que isso, obrigou as marcas rivais a puxarem pela cabeça, na tentativa de criarem a resposta adequada ao X3. O que foi conseguido, em especial pela Audi, com o Q5.
E foi ao sentir-se em perigo, que a BMW decidiu reinventar o X3. Anulou os defeitos antigos, tornou-o cativante e maior, mais dinâmico e eficaz. A partir de agora, o X3 não é o que era: está melhor, muito melhor. E recomenda-se – portanto, uma vez mais, a bola está do lado da BMW; e os rivais já devem ter ligado o centrifugador de ideias. Para tentarem impedir a crise que aí vem, direitinha aos seus gráficos de vendas – um trabalho que, certamente, Hércules não iria desdenhar. Portanto, toca a arregaçar as mangas, meus caros, que a BMW já fez o trabalho dela! E bem feito!

Maior e mais dinâmico
O novo BMW X3 é um parente rico do antigo. Cresceu, como não poderia deixar de ser: mais comprido 83 mm, mais largo 28 mm, ficou muito próximo do X5 da primeira geração, que era apenas 8 cm mais longo. Isso reflecte-se, de uma forma real, não apenas no equilíbrio do estilo – o X3 deixou de ser aquela coisa com um comprido focinho e uma caixa, capaz de transportar quatro adultos e alguma bagagem, que se mexia bem em qualquer situação é certo, mas tinha alguma precariedade de soluções. O novo X3 ficou mais perto do X5, em termos de dimensões. Contudo, isso não é assim tão evidente, pois o facto de ser mais baixo e de ter aquelas nervuras laterais, aproxima-o, em termos estéticos, do X1. E só a maior altura ao solo o afasta do “X” mais pequeno, do qual herdou genes estéticos que a BMW agora potenciou, promovendo uma agressividade latente na frente poderosa e mergulhante, limitada pelo pára-choques envolvente e que termina num patim inferior, protecção natural para as incursões fora de estrada. Que, é bom que se diga, o X3 cumpre com algo mais que apenas galhardia – mas disso falaremos mais abaixo.
Agora, o BMW X3 transporta ainda os quatro adultos (mais um quinto, é claro, mas este bem menos… satisfeito) com maior conforto – o interior ganhou em espaço, ficou mais envolvente em relação ao condutor, tornando-se menos frio e distante – algo que era contranatura da BMW, mas que a marca praticava, vá lá saber-se porquê, no anterior X3, que tinha um interior frio, pouco voltado para o condutor e com uma ergonomia pouco cuidada. Agora, isso já não é assim; a ergonomia está bem patente, nos comandos, até mesmo no sistema i-DRIVE, melhor posicionado e, por isso, mais intuitivo de utilizar, sem se desviar a atenção do caminho. E, junte-se a tudo uma qualidade de acabamentos e uma escolha de materiais insuspeita, bem como uma insonorização de elevado nível e temos um verdadeiro filho da BMW.

Duas personalidades
As novas dimensões, aliadas à menor altura (13 mm) ofereceram-lhe um aspecto mais dinâmico, mais desportivo – e, na estrada, depressa se percebe que isso não é só o aspecto: o novo X3 É de facto mais dinâmico, com o comportamento quase irrepreensível de uma berlina topo de gama. Afinal, é disto que a BMW precisa para se manter na crista da onda, no segmento tão particular dos SUV compactos e familiares. Na verdade, também contribui para a vivacidade do seu comportamento não apenas os mais sete cavalos do bloco turbo-Diesel de quatro cilindros em linha e dois litros (177 contra 184 cv), mas também o facto de, embora maior em dimensões, pesar menos 25 quilos que o anterior X3.
Mas é preciso que, quando falamos do comportamento do X3, façamos a devida destrinça: o X3 tem duas personalidades distintas – verdadeiro Dr. Hyde e complexo Mr. Jekyll. Elaborado e poderoso em estrada, o seu comportamento é assertivo em percursos sinuosos, onde se integra com alegria e eficácia – é que, a juntar às ligações ao solo tradicionais (suspensões independentes tipo McPherson, na frente, multi-braços), a BMW incluiu o controlo dinâmico de amortecimento (EDC), um opcional que, em três modos de funcionamento (Normal, Sport e Sport +) dessas ligações, promove aquilo que o condutor quiser: conforto dinâmico absoluto, emoções variadas ou emoções fortes, mas sempre com uma arrepiante precisão e eficácia. E, claro está, a tracção total permanente, única opção no actual X3 – que deixa a tracção traseira apenas para o irmão mais pequeno, X1. Na realidade, o ramalhete dinâmico apenas fica completo com a utilização da nova transmissão automática Steptronic, com oito velocidades, três modos de utilização e patilhas no volante – e que transforma, à nossa maneira, a intimidade da nossa relação com a estrada. O resultado é este comportamento à Dr. Hyde, em que, mesmo com as emoções à flor da pele, nunca há um descompor do “smoking”, mesmo quando nos tornamos exigentes.
Porém, paremos aqui junto a esta estradinha lateral, quase escondida, que leva lá acima, àquelas rochas. Atiremos qualquer hesitação para trás das costas e apontemos nessa direcção o nariz do X3. Tenhamos, desde já, uma certeza: é aqui que está a sua alma de Mr. Jekyll. Para surpresa de muita gente, até de muitos dos seus proprietários, o X3 faz coisas que não lembram ao diabo. Na verdade, com este não as fizemos, apenas o levámos para algumas azinhagas ligeiramente para lá do “soft”. Mas desengane-se quem se guia apenas pelas aparências: ali onde parece que está um SUV sem altura suficiente para aventuras mais radicais, está um verdadeiro leão da montanha. Claro que não faz percursos de trial – nem nenhum outro, sem estar equipado para tal com pneus adequados, amortecedores a condizer e suspensões alteradas e elevadas. Porém, corta-fogos, percursos rochosos de grande inclinação, com calhaus, regueiras, trocos, pedregulhos – por tudo isso já passámos, com o anterior X3, é certo; mas, também é certo que este X3, o novo, é muito melhor que anterior!
E não nos detenhamos a olhar para os pneus que o “nosso” X3 trazia: envolvendo enormes jantes de 19”, tinham dimensões diferentes, maiores atrás que à frente. Isso reflectia-se na dinâmica em estrada, equilibrando-o na saída das curvas; mas, com certeza, não seria impeditivo de arrastar o X3 para os trilhos para lá do asfalto, locais onde já os vimos (o anterior, lembramos de novo) com calçado semelhante.
E a altura ao solo? É, garantimo-lo nós, mais que suficiente – trepa obstáculos sem hesitação, apenas é preciso algum cuidado no ângulo de entrada e de fuga, para que a protecção inferior não bata com violência no solo.
Então, e subir aquelas inclinações que até fazem voltar a cabeça para trás? Sobe, claro está: não interessa a caixa de transferências, a elaborada electrónica, promovida “ad hoc”” para isso mesmo, trata de tudo o que é preciso! O mesmo tem que ser dito nas descidas de cortar a respiração: não está lá, na consola central, um botãozinho com um “carrinho” a descer? Então, carregue nesse botão, ponha as mãos no volante e ponha os pés em cima do “tablier”… para que o instinto não lhe pregue a partida de tocar num dos pedais, em especial o do travão, na tal descida… Ah! você não sabia disso? Então, páre, escute… e faça-o! Vai ver que descobre que o seu novo X3 é muito mais que um menino bonitinho, cheio de qualidades e de boa roupa – é, isso sim, um adolescente quase rebelde, cheio de truques!

Equipamento “gourmet”, pois claro!
E por falar em boa roupa, vamos ao que está dentro do novo X3. Como habitualmente, a BMW utilizou condimentos a seu bel-prazer (e para nosso prazer) e a preceito, para que o prato final resultasse numa obra digna de um “gourmet”. Querem saber se havia flor de sal, neste X3 que ensaiámos? Havia, claro! Então é assim: caixa de velocidades automática, 1.975,61 euros; controlo dinâmico de amortecimento (EDC), 818,70; pintura Prata Mineral metalizada, 727,64; barras no tejadilho, em alumínio, 265,04; sistema de lavagem de faróis, 239,84; faróis bi-xénon, 661,79; “kit” de luzes, 281,30; X-Line, 504,88; rede de separação na bagageira, 157,72; pacote de compartimentos de arrumação, 334,96; frisos interiores em alumínio, 297,56; combinação tecido/pele dos estofos e forros do interior “Pearlpoint Antracite”, 529,27; volante desportivo em pele, 165,85; direcção desportiva variável, 173,98; jantes em liga leve 309 de raio duplo, 19” e pneus Pirelli PZero mistos (245/45R, na frente; 275/40R, atrás), 1.934,15; alarme anti-roubo, 413,82; câmara traseira de ajuda ao estacionamento, 604,07; espelhos exteriores anti-encadeamento, 446,34; espelho interior anti-encadeamento, 157,72; bancos traseiros rebatíveis, 173,98; bancos dianteiros desportivos, 545,53; sistema de navegação profissional, 1.339,02; preparação Bluetooth + Interface USB, 604,07. Ufff!
Tudo isso, aumentou a conta em mais 13.352,84 euros, mas nem por isso o BMW X3 (este mesmo, pode ser?) deixa de ser um dos nossos SUV (e por que não, automóveis?) preferidos. Claro, somos suspeitos – já fizemos, por trás do seu volante forrado a pele, milhares de quilómetros; mas, sempre que o deixamos na cave ali para os lados do Lagoas Park, ficamos com (muitas) saudades!

CARACTERÍSTICAS TÉCNICAS
Motor: Diant., 4 cil. em linha, 16 v, 1995 cc, turbo-Diesel, turbo-compressor de geometria variável c./”intercooler”, inj.directa múltipla “common rail”
Potência (cv/rpm): 184/4.000
Vel. Máx. (km/h): 210
Acel. 0-100 km/h (s): 8,5
Consumos (l/100 km): 5,6
Emissões CO2 (g/km): 147
Preço (euros): 56.976,83 (unidade ensaiada, 70.970,83)

Texto: Hélio Rodrigues
Fotos: C.Santos

3 respostas a BMW X3 xDRIVE 20d Auto

  1. [...] inventar um X5 versão “light”. Que, até, poderia canibalizar a popularidade deste. … BMW – Pesquisa de blogs do Google Related Posts:BMW 520d Touring Auto « AutoanDRIVEAndy Priaulx com a BMW no ILMC « AutoanDRIVEAuto [...]

  2. jucax3 diz:

    Gostei do artigo. Poderiam-me informar mais sobre as potencialidades do X3 20d Auto? É que adquiri um, deverá chegar em Junho 11, se os consumos indicados são os da marca e outras agradáveis surpresas. Obrigado

    • Boa noite

      Os consumos indicados nas Características Técnicas são os da própria marca. Na realidade, eles são, de uma forma geral, superiores – mas deixe-me que lhe diga que, também eles, são uma boa surpresa no X3: nos passeios que já fiz com ele, gastou sempre mais em auto-estrada que em TT ou estradões! E garanto-lhe que o X3 vai a (quase) todo o lado (excepção zonas trialeiras, mas não deverá querer um X3 para isso!), tem um motor excelente e o sistema de tracção é uma surpresa, bem ajudado pela transmissão automática de oito velocidades..

      HR

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