Luigi Musso (29/07/1924 – 06/07/1958)

O herói romântico

Para mim, os anos 30 foram a época da coragem na Fórmula 1 – que en-tão ainda não se chamava assim. Os anos 50, esses, foram a época em que se dourou o romantismo de ser piloto de automóveis. Luigi Musso foi um desses românticos, “bon vivant” e sucessor de Alberto Ascari. Um talento do tamanho do mundo, que deixou, como herói romântico que era, através do sacrifício.

Belas máquinas, belas mulheres. Cote d’Azur, os casinos, as “villas”, viver a vida depressa e bem. E, se possível, até mesmo morrer depres-sa. James Dean catalisou todas estas esperanças num mito, ainda hoje vivo. A Fórmula 1 era, então, também um catalisador de emoções radicais – o regresso a casa nunca estava garantido. O medo não era compatível com o romantismo; era preciso viver depressa, se possível mais depressa que a própria vida. Os pilotos de F1, os toureiros, eram o arquétipo deste heroísmo; o sangue escorria pelas arenas e pelas pistas; os bardos salientavam a coragem e a ousadia em canções para o futuro recordar. Luigi Musso foi um desses heróis. Com uma diferen-ça: tinha um talento superior – o que fez dele uma lenda, a última italiana.

Berço de ouro
Luigi Musso nasceu em Roma, de uma abastada família – o pai, “avoc-cato” Giuseppe Domenico Musso (1878/1940), era um rico homem de negócios e empreendedor diplomata com interesses na China. Luigi era o mais novo de cinco filhos – dois rapazes (Luciiano e Giuseppe) e duas raparigas (Elena e Matilde). A sua infância foi passada no meio de luxos, com camareiros e criados para o servir. Cresceu numa “villa” maravilhosa, perto da Via Veneto, mas nem tudo foram rosas – aos 16 anos, o seu pai, referência de vida e o verdadeiro mentor da sua personalidade, incutindo-lhe valores como o sacrifício, a importância do dinheiro e, ainda mais, do trabalho, morreu, deixando-o órfão na fase mais complicada da adolescência. Isso moldou-lhe o carácter. Combativo e de carácter fechado, educado no colégio de jesuítas de Mondagrone, “Luigino” foi um ávido desportista: desde o hipismo, ao tiro aos pratos, sem esquecer a esgrima – tudo desportos de elite – tudo ele praticou com competência mas, principalmente, com garra e espírito de luta.
Herdeiro de uma colossal fortuna, culto acima da média e “gentleman”, Luigi Musso nunca teve que trabalhar para viver. Alto, magro, sempre elegantíssimo, com ar de lunático e algo vicioso, de cigarrilha perma-nentemete acesa, parecia talhado para uma perfeita “dolce vita” e, nunca, para piloto de automóveis. Mas era essa a sua verdadeira paixão: talvez por influência do seus irmãos – Luciano chegou a vencer a rampa do Monte Pellegrino, com um Ferrari, em 1950 e Giuseppe conseguiu algum sucesso com Stanguellini e Alfa Romeo – “Luigino” depressa decidiu ser isso o que queria do futuro. Nessa altura, Mimmo Dei abriu a sua oficina bem no centro de Roma, depressa se tornando o ponto de encontro dos jovens entusiastas dos automóveis da altura. O seu primeiro carro foi um FIAT Topolino, adquirido em 1945, ainda ele não tinha carta de condução – porque, simplesmente, os seus irmãos não o deixavam conduzir os seus próprios carros! Mas, já com o san-gue a ferver de emoção pelas provas de automóvel, tornou-se quase um maníaco perfeccionista: antes de se estrear nas pistas, conheceu-as todas, elaborou as trajectórias das suas curvas, procurou perceber as leis elementares da física. Foi um teórico, antes de começar a prati-car. Sabia que, nessa altura, ser piloto de automóveis era um risco mortal: e ele queria sê-lo, mas sem correr grandes riscos.
Em 1950, estreou-se enfim nas corridas num Giro d’Italia que terminou de forma memorável: ao volante de um minúsculo Gianni – FIAT de 750cc, fez os possíveis e impossíveis para fazer boa figura… o que conseguiu, quando a sua prova terminou contra uma estátua do herói nacional, Giuseppe Garibaldi! No ano seguinte, 1951, Musso terminou em segundo lugar na Coppa Ascoli, prova realizada no Circuito delle Caldaie. Talvez tenham sido estes resultados a convencer um dos seus irmãos a emprestar-lhe um Stanguellini – com o qual, em 1952, depressa ofuscou as proezas dos primogénitos. Em 1953, impressionado com a perícia de “Luigino”, com o apoio de Mimmo Dei, participou nas Mille Miglia, com um Maserati A6GCS, com Donatelli com co-piloto; surpreendentemente, no final do primeiro dia era o líder da Classe, com oito minutos de vantagem, à passagem por Roma, sobre Mantovani, noutro A6GCS! Infelizmente, o sonho desfez-se quando se despistou, após Florença, mas a sua extraordinária “performance” impressionou os responsáveis pela Officine Maserati, que não hesitaram em lhe dar um carro de fábrica. Correndo com Sergio Mantovani e Emílio Giletti como colegas de equipa, “Luigino” voou de vitória em vitória: Cronoscalata Vermicino – Roca di Papa, Circuito di Avellino, Coppa Perugina e Giro dell’Umbria. Musso foi ainda 2º em Reggio di Calabria e Caserta e 3º em Syracusa e na rampa Bologna – Raticosa. No final da temporada, exibiu com orgulho o troféu de Campeão Nacional de Sport, na Categoria de 2 litros. Mas, nessa altura, já tinha feito a sua estreia na F1.

O sonho da F1
Luigi Musso fez a sua primeira corrida de F1 a 13 de Setembro de 1953. Em Monza, partilhou um Maserati A6GCM com Sergio Mantovani, terminando em 9º esse Grande Prémio de Itália, a quatro voltas do vencedor e seu colega de equipa, Juan Manuel Fangio. Em 1954, apenas correu em duas provas do Mundial: desistiu em Monza, mas terminou em 2º lugar o GP de Espanha, em Pedralbes, com um Ma-serati 250F oficial – o mesmo carro com que venceu os GP de Caserta e de Nápoles, ambos extra-campeonato. No ano seguinte, participou em quase toda a temporada de F1, uma vez mais com o 250F – mas não conseguiu melhor que um 3º lugar na Holanda e o 6º na tabela de pilotos. Desiludido, trocou a Maserati pela Ferrari, depois de ter sido contac-tado pelo “team manager” da “scuderia”, Mino Amorotti. Agradeceu a confiança com um notável triunfo na prova de abertura da temporada, o GP da Argentina, onde partilhou um Lancia D50/Ferrari com Juan Manuel Fangio. Foi a sua única vitória na F1; nesse ano, apenas par-ticipou em mais três Grandes Prémios, pois sofreu um grave acidente nos 1000 Kms de Nürburgring, partindo uma perna. Em Monza, estava na frente, em luta cerrada com Eugenio Castelotti, quando teve um furo, a três voltas do final, classificando-se, mesmo assim, em 5º!
No ano de 1957, manteve-se na Ferrari e, com a morte do seu grande amigo Castelotti, nuns treinos em Modena, tornou-se no principal piloto italiano na F1. Com o Ferrari 801, esteve na luta pela vitória nos GP de França e da Grã-Bretanha, terminando ambas as provas em 2º lugar. A determinada altura, tornou-se no único rival de Juan Manuel Fangio no caminho do título, mas o abandono em Pescara e o 8º lugar em Monza atiraram-no para o 3º lugar do campeonato.
O ano de 1958 até começou bem. Ao volante do novo e elegante Ferrari 246 Dino, Musso fazia equipa na Scuderia com Mike Hawthorn e Peter Collins e era o único piloto italiano na F1. Segundo na Argentina e no Mónaco, venceu depois o GP de Syracusa, na Sicília, mas este não pontuava para o Mundial. Chegou à Holanda na frente do campeonato, mas problemas na qualificação não lhe permitiram depois melhor que o 7º lugar na corrida, portanto fora dos pontos. Em Spa, estava na frente da corrida quando explodiu um pneu traseiro, despistando-se a mais de 200 km/h, em Stavelot. O acidente afastou-o das pistas algumas semanas, regressando apenas a 29 de Junho, para as 500 Milhas de Monza, que utilizava a oval italiana e juntava pilotos dos Dois Mundos: Europa e Estados Unidos da América. Musso esteve na luta pela vitória, mas problemas mecânicos afastaram-no do caminho. Três dias mais tarde, sentou-se ao volante do seu Plymouth Fury, saindo de Roma em direcção a Reims. O resto, é história.
Em seis anos, Luigi Musso participou em 23 Grandes Prémios de F1, pontuáveis para o Campeonato do Mundo. Venceu um, subiu sete vezes ao pódio, estabeleceu uma vez a melhor volta da corrida e conquistou um total de 44 pontos.

Uma carreira paralela
Luigi Musso teve duas carreiras – uma, na F1; a outra, nas corridas de “sport”, onde foi tão bom (ou mesmo melhor). Musso apenas falava italiano e algumas palavras de francês, talvez cultivadas na sua permanência constante nos casinos de Monte Carlo, Saint-Vincent, Veneza e San Marino. A sua imagem de marca foi o seu capacete amarelo – talismã da sorte. Mas, também, o facto de correr sempre em equipas italianas. Com elas, estabeleceu uma carreira paralela à da F1 – quando não estava num Grande Prémio, quase de certeza estava num casino, mergulhado no póquer, de que era exímio jogador, ou a correr nas provas com carros de “sport” – onde coleccionou notáveis sucessos.
Em 1954, poucas corridas de F1 fez – mas, pelo contrário, dividiu-se freneticamente por diversas outras competições. Ao volante do Maserati A6GCS/53, terminou em 2º lugar no Targa Florio e no Giro dell’Umbria; 3º no Circuito di Senigallia, no GP de Imola, no Giro della Calabria e nas Mille Migila; 5º no Tourist Trophy, com Mantovani; e 6º nos 1000 Km de Buenos Aires, com Emílio Giletti.
O sucesso continuou em 1955, o último ano em que se manteve como piloto oficial da Maserati. Venceu apenas nos 1000 km de Monza, a corrida que teve lugar apenas três dias depois da morte de Alberto Ascari, partilhando um 300S com Jean Behra, mas foi 2º em Bari e Caserta e 3º no Giro di Sicília. No Mundial de Sport, Musso terminou em 5º o Tourist Trophy, em Dundrod, uma prova trágica para três jovens pilotos ingleses.
Piloto oficial da Ferrari a partir de 1956, foi 2º nas 12 Horas de Sebring, com Harry Schell, e 3º nas Mille Miglia, ao volante de um Ferrari 860 Monza. Um acidente nos 1000 Km no Nürburgring quebrou-lhe uma perna e atirou-o para a convalescença durante algumas semanas, regressando apenas para o GP da Alemanha, em Agosto e, de novo, no… Nürburgring!
Um triunfo nos 1000 Km. de Buenos Aires, onde partilhou um Ferrari 290 MM Spider Scaglietti com Masten Gregory e Eugenio Castellotti, foi a melhor forma de começar o ano de 1957. Pouco depois, o seu amigo Castellotti desapareceu, em Modena e Musso venceu em grande estilo o Grand Prix da la Marne, que decorreu em Reims, uma das suas pistas de eleição.
Em 1958, decidiu permanecer na Ferrari, recusando um convite de Raymond Mays para correr na BRM. Iniciou o ano em grande estilo, na F1, bem como nas corridas de “sport”: nestas, com um Ferrari 250 TR, foi 2º nos 1000 Km. de Buenos Aires (com Olivier Gendebien) e nas 12 Horas de Sebring (com Wolfgang von Trips); depois, venceu o Targa Florio, uma vez mais com Gendebien. Quarto nos 1000 Km. do Nürburgring, um acidente na F1 afastou-o de novo das pistas, impedindo-o de alinhar nas 24 Horas de Le Mans. Musso nunca mais voltou ao volante de um carro de “sport”, pois perdeu a vida semanas mais tarde.

Curva maldita
O ano de 1958 foi um dos mais trágicos na história da F1. Luigi Musso foi o primeiro de três jovens promessas da F1 a perderem a vida – um mês depois, foi Peter Collins e, em Outubro, Stuart Lewis-Evans.
A morte de Luigi Musso foi um equívoco. O piloto queria vencer a corrida, o Grande Prémio de França, que então nesse ano se realizou na tremendamente rápida pista de Reims, traçada nas estradas dos arredores daquela cidade histórica, com muitos troços bordejados por árvores centenárias. Segundo na grelha de partida, Musso manteve essa posição no arranque, ficando atrás de Mike Hawthorn, noutro Ferrari. O italiano, que já tinha ganho naquela pista, manteve-se atrás do britânico, convencido de que o poderia passar a qualquer momento. Lembrava-se ainda de que Fangio lhe garantira que, se mantivesse o acelerador a fundo na rápida Courbe du Calvaire, ganharia pelo menos cinco segundos por volta. Ao ver Hawthorn afastar-se – chegaram a estar separados por nove segundos – Musso perdeu a clareza habitual e decidiu arriscar. Cerca de 50 metros e dois pilotos atrasados – Gerini e Ruttmann – separavam então os dois homens. Hawthorn passou os dois carros antes de Thillois, Musso apenas depois, atrasando-se ainda mais. Então, seguia-se a curva em que deveria manter o pé em baixo – um sítio onde todos os outros pilotos aliviavam o acelerador. Mas Musso esqueceu-se de uma coisa: o Ferrari tinha agora mais potência e, ao abordar a trajectória a cerca de 240 km/h., de pé em baixo, o seu carro tocou o passeio interior. Foi de imediato catapultado no ar, para a parte esquerda da curva, embatendo num valado e sendo atirado, destruído, para um campo inferior. Musso foi transportado de helicóptero para o hospital de Reims, onde não resistiu a ferimentos na cabeça e lesões internas, morrendo pelas 19h30. O homem que nunca arriscava, arriscou então – e perdeu.
A lenda rodeia o seu trágico final. Dono de uma possante fortuna, acabou por perder quase tudo: os casinos, o jogo, foram, para si, mais que um vício, uma doença. Perdeu quantias astronómicas, sempre com dignidade, sem protestar e sem se privar de nada. O luxo estava no seu ADN e viveu uma vida de nababo: belas mulheres, casinos, luzes da ribalta, carros velozes… Depois da sua morte, houve quem dissesse que uma dívida de jogo, contraída dias antes, o levou a arriscar na curva fatal: ele tinha que vencer a corrida, o dinheiro do prémio – cerca de 15 milhões – iria servir para abafar aquela dívida… Especulação ou mito – a verdade nunca se saberá – mas o facto é que Luigi Musso, o piloto calculista, certinho, que não arriscava porque sabia que naqueles carros se podia morrer, arriscou e perdeu. A corrida e a vida: pela primeira vez, antes da partida não tinha cumprido o ritual mirífico – a última pessoa com quem falou não foi a sua amante, Fiamma Breschi.
Luigi Musso era casado com a chilena Mary Tirapani, de quem teve dois filhos, Lucietta e Giuseppe. Mas nem por isso deixou de protagonizar tórridos romances, um dos quais com a primeira mulher a correr na F1. Maria Teresa De Filippis apaixonou-se perdidamente pelo glamouroso romano e chegaram a viver juntos durante três anos. Mais tarde, e porque o divórcio não era então aceite em Itália, juntou-se com Fiamma Breschi, uma florentina que tinha menos de 20 anos quando o conheceu, em 1952 e dele nunca mais se esqueceu. A paixão que sentia por Musso era tal que, no quarto de hotel, quando lhe anunciaram a sua morte, tentou atirar-se da janela e só não o conseguiu porque foi impedida por Beba, mulher de Fangio, e Lulu, esposa de Maurice Trintignant – que passaram depois toda a noite com ela, vigiando-a e impedindo-a de fazer uma loucura. Luigi Musso: paixão e drama mesmo até depois do fim – era então assim o mundo da F1, nesses românticos e vertiginosos anos 50.

Hélio Rodrigues

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