“El chico querido por todos”
Onofre Marimón: o seu nome pode nada dizer a quase toda gente que, mesmo um pouco, gosta de F1. Mas, se dissermos que foi ele o primeiro piloto a perder a vida num Grande Prémio de F1, então está explicado. A sua morte, em 1954, poderá ter cortado cerce uma veia de talento e valor que ainda mal tinha despertado.
Joe Fry foi o primeiro, duas semanas depois do Grande Prémio da Inglaterra de 1950, que inaugurou o Campeonato do Mundo de F1.
Depois, houve também Luigi Fagioli, numa prova de “sport” nas ruas do Mónaco; Felice Bonetto, o homem do cachimbo, na Carrera Panamericana; Charles de Tornaco e Guy Mairesse, em testes: a lista é longa, muito longa – pois nesse tempo (e mesmo até muito mais tarde), ser piloto de automóveis era um “glamouroso” acto de coragem e só venciam os que eram tão destemidos quanto habilidosos. Mas, num Grande Prémio de F1, a lista foi iniciada por um argentino alto, desengon-çado, que nutria uma saudável rivalidade por Juan Manuel Fangio – de quem era amigo íntimo: o seu nome é Onofre Agustín Marimón e, como não podia deixar de ser, caiu no altar louco das montanhas do Eifel, o Nurburgring. Foi nas vésperas do GP da Alemanha de 1954, em dia de treinos oficiais.
“Pinocho” para os amigos
Onofre Agustín Marimón, carinhosamente “Pinocho”, nasceu na cidade de Zárate, nos arredores de Buenos Aires. Era filho de Domingo “Toscanito” Marimón (08/05/1903 – 30/06/1981), um dos maiores nomes do automobilismo argentino dos anos 30 e 40, com quem se estreou nas longas provas em estrada aberta, na região de Córdoba, para onde a família se mudou por causa da débil saúde do pai.
A sua primeira vitória sucedeu em 1949, no Gran Premio de Mar del Plata, uma extenuante corrida com 860 quilómetros de extensão e, no ano seguinte, começou a correr na categoria Mecánica Nacional, com o mesmo Volpi-Chevrolet que tinha pertencido a Juan Manuel Fangio, o seu ídolo de menino.
Ganhou três corridas e, no final desse ano de 1950, participou no Grande Prémio do Paraná, onde foi quarto classificado, e no Grande Prémio Presidente Alessandri, no Chile, que terminou em sexto, ao volante de um Maserati 4 CL. Mas, mais importante, enfrentou aí pela primeira vez nomes como os seus compatriotas Fangio, Froilán Gonzá-lez e Roberto Mieres e o francês Louis Rosier.
O seu talento não passou despercebido a Fangio, que resolveu levá-lo consigo para a Europa. Iniciou-se então entre os dois homens – o professor e o aluno – uma relação intensa de amizade e respeito, em que o afecto de “El Chueco” se traduziu num apoio constante ao seu jovem pupilo e a que apenas a morte deste último colocou um amargo ponto final.
Em 1951, Fangio introduziu-o na coorte da equipa Maserati, que lhe disponibilizou um 4 CLT/50, inscrito pela Scuderia Milano, com que se estreou na F1 a 1 de Julho, nas difíceis ruas de Reims, onde se rea-lizava o Grande Prémio de França. Qualificou-se em 15º, mas abando-nou na terceira volta, com um pistão partido. Nesse ano, estreou-se também nas 24 Horas de Le Mans, com outro dos seus amigos e mentores, José Froilán González, mas o Talbot Lago T-26 GS que ambos partilharam não chegou ao fim, com problemas num radiador.
Marimón apenas voltou a ver os seus amigos já depois do final da temporada de F1. Em Milão, juntou-se alegremente às celebrações do primeiro título de “El Chueco”, que tinha dominado a última corrida, em Pedralbes, Espanha. Depois, voou para a Argentina, onde se dedicou, em 1952, ao campeonato de Mecánica Nacional, em que coleccionou um punhado de vitórias. Foi aí que recebeu a notícia do terrível aci-dente do seu querido maestro Fangio, na curva de Lesmo, em Monza: cansado depois da longa viagem, por estrada, desde Paris, largou do fundo da grelha de partida, sem sequer ter treinado, para perder o controlo do Maserati na segunda volta. Cuspido do carro, sofreu várias fracturas, a mais preocupante delas no pescoço, pelo que passou o resto do ano em convalescença, na sua Argentina, escapando à morte a à paralisia por milímetros.
No seu regresso à Europa, voltou a levar consigo “Pinocho”, que tinha participado no GP da Argentina de F1, com um Ferrari 500, desistindo com problemas de motor. Lado a lado com Fangio, já recuperado, correu nas 24 Horas de Le Mans, a bordo de um Alfa Romeo 6 C-3000 CM Disco Volante, abandonando com o motor partido. Então, foi contratado pela Maserati para fazer po resto do Mundial de F1, com um A6 GCM. Agradeceu a confiança com o seu primeiro pódio na F1, em Spa – e também os seus primeiros pontos. Nesse ano, terminou em 9º o GP de França, desistindo em Inglaterra, na Alemanha, Suíça e Itália. Os quatro pontos da Bélgica valeram-lhe o 11º lugar no Mundial de Pilotos.
O fim do sonho
O ano de 1954 parecia ser o da consagração de “Pinocho”. Depois das duas primeiras provas da temporada ao volante de um Maserati 250F, a partir da Bélgica assinou contrato como piloto oficial da equipa Offi-cine Alfieri Maserati, herdando o carro que até então tinha sido de Juan Manuel Fangio, que acabara de se passar para a recém-chegada Mercedes-Benz. Era o culminar do sonho de Onofre Marimón – seguir as pisadas do mestre, apesar de todas as responsabilidades que isso acarretava. Desistiu em França, mas fez o pleno no GP de Roma (vi-tória, “pole position” e melhor volta da corrida), foi quarto no GP de Bari e quinto em Siracusa.
A 17 de Julho, em Silverstone, fez talvez a melhor prova da sua car-reira. Apenas 28º na grelha, assinou depois uma estupenda recupe-ração, terminando no terceiro lugar do pódio, na frente do maestro – e ultrapassando, em corrida, nada mais que 25 pilotos! Outros tempos (suspiros…)! Uma prova espantosa: sete pilotos, entre eles Onofre, empataram na melhor volta da corrida – os outros foram Froilán González, Hawthorn, Fangio, Moss, Ascari e Behra, recebendo por isso 0,14 pontos. Esse foi um dia glorioso para a Argentina, pois foi então que José Froilán González conquistou a segunda vitória da sua carreira com a Ferrari. No domingo seguinte, Marimón e Fangio partilharam um Maserati 250S no Gran Premio Supercortemaggiore 1000 Km di Monza, abandonando a poucas voltas do fim com problemas na transmissão do automóvel. Uma semana mais tarde, sobreveio a tragédia.
O Inferno Verde de Nürburgring recebeu mais uma edição do Grande Prémio da Alemanha – que, em simultâneo, era a 14ª edição do Gran-de Prémio da Europa, pela primeira vez realizado em solo germânico. Nos treinos de sexta-feira, Stirling Moss fez o melhor tempo, com um dos Maserati 250F oficiais e isso criou uma tremenda pressão em Marimón. Visivelmente preocupado, foi à procura de Fangio, para que este o aconselhasse sobre a melhor forma de se aproximar do britâ-nico. “El Chueco” deu-lhe uma sugestão: na próxima sessão de trei-nos, seguir atrás do seu Mercedes prateado, observando as suas trajectórias e procurando copiá-las fielmente. Mas, com a impaciência dos seus 30 anos, “Pinocho” decidiu ignorar o aviso sábio do seu mentor e, nos treinos da manhã de sábado, fez-se sozinho à pista. A alta velocidade, na descida para a ponte de Adenau, perdeu o controlo do seu Maserati 250F na curva Wehsiefen, que saiu de pista e emba-teu numa árvore, antes de iniciar uma série impressionante de cam-balhotas, encosta abaixo, imobilizando-se, destruído, de lado. Onofre Marimón foi cuspido a meio da trajectória, ficando imóvel, de costas, mas ainda vivo.
Faleceu pouco depois, ainda a tempo de receber a extrema-unção de um pa-dre chamado ao local do acidente. A sua morte – a primeira durante um GP de F1 – chocou toda a comu-nidade de pilotos, nessa altura muito mais unida que hoje. E, em especial, os argentinos: José Froilán González, o poderoso e corajoso Touro das Pam-pas, apenas deu uma volta na corrida, entrando nas boxes em estado de choque, comovido até às lágrimas, entregando o carro a Mike Hawthorn, que tinha abandonado com problemas de motor e que, assim, terminou a corrida em segundo lugar. Atrás de Juan Ma-nuel Fangio, que conquistou aquela que foi a sua mais triste vitória, dedicando-a à memória do seu amigo morto: Onofre Marimón, o ta-lentoso “Pinocho”, o “chico querido por todos”, a primeira lenda da F1.

