O pioneiro das capotas milagrosas
Hoje, não há marca que tenha um “cabriolet” que não utilize o sistema de abertura eléctrico da capota, que é rígida e se esconde com suavidade, em meia dúzia de segundos, na bagageira. Dão pelo nome de CC, esses carros e, reza a história, seguem uma tendência inventada pela Mercedes, com o SLK. Nada de mais errado: o pioneiro dos CC e destas capotas milagrosas, chama-se Peugeot 402 Eclipse Décapotable.
Renault Mégane CC, Peugeot 206 CC, Peugeot 308 CC, Xis PêTêÓ CêCê… etecétera, etecétera. Todos eles têm aquilo que se convencio-nou chamar de “hardtop” metálico retráctil. Bonita e fria expressão, para designar um pouco do “charme” mais caro do mundo automóvel. E não, não foi a Mitsubishi, em 1995, quando lançou o 3000 GT Spyder – apenas o foi buscar às sombras onde estava esquecido há mais de meio século. Nem sequer a Mercedes-Benz, com o SLK – apenas o po-pularizou. Foi a Peugeot – com o 402 Eclipse Décapotable.
Em mil novecentos e troca o passo, ou quase: nessa altura, ainda nas franjas da Segunda Guerra Mundial, a ousadia teria pago capas de revistas cor-de-rosa – fazer um carro que tinha uma capota metálica, que se recolhia dentro da bagageira, como um truque da lâmpada de Aladino, era obra! Mas, afinal, tratou-se de uma simples receita: bas-tou à Peugeot tornar prático o conceito, desenhado e patenteado, em 1931, por Georges Paulin. E aplicá-lo no 402, um modelo que nasceria seis anos mais tarde, derivado do 302 – onde o conceito já tinha sido experimentado com a assinatura do carroçador e concessionário pari-siense da Peugeot, Émile Darl’Mat, autor de alguns bonitos desporti-vos feitos à imagem do Bugatti Type 57 Atlantic.
Pau para toda a obra
O Peugeot 402 foi apresentado no Salão Automóvel de Paris, em 1935, em substituição do Peugeot 401. A sua produção durou até 1942, mas apenas para fins militares a partir de Maio de 1940. Saíram da linha de montagem um total de cerca de 75 mil unidades, das quais 56.665 “civis”. Somente mais de uma década depois, a marca de Sochaux pro-duziria uma carroçaria familiar, o 403, considerado o herdeiro do popu-lar 402. Pelo meio, em consequência da Segunda Grande Guerra, lan-çou alguns modelos mais pequenos, como o 202 e o 203.
Mas regressando ao 402, era um carro de duas ou quatro portas e até seis lugares, inovador em termos de segurança activa, embora as suas formas fossem tão semelhantes ao arrojado Chrysler Airflow, que o 402 ficou conhecido como “O Rocket de Sochaux”. Porém, o conceito, designado Streamliner, trazia reminiscências do Citroën Traction Avant e de alguns Bugatti e encaixava-se na perfeição dentro da família Peu-geot dessa altura – uma frente muito longa, com os grupos ópticos integrados na grelha vertical, de finas barras e largos guarda-lamas escondendo os pneus e encimados pelos indicadores de mudança de direcção.
A carroçaria “standard” foi aquela introduzida em Paris, em 1935 – mas, ao longo dos anos, o 402 recebeu nada mais que 16 tipos dife-rentes de “design”, desde simples “coupés” a descapotáveis, alguns deles assinados também por Darl’Mat. Teve também versões tipo fur-goneta, de caixa aberta ou fechada e uma versão de chassis alongado, designada Familiale, com assentos rebatíveis e oito lugares. Mecanicamente, o Peugeot 402 teve dois momentos: entre 1935 e 1937, recebeu um motor de 1991cc e 55 cv e, entre 1938 e 1942, um de 2142 cc e 60 cv. Qualquer deles era um quatro cilindros em linha e, mais tarde, foi desenvolvido um motor 2.3 Diesel, que transformou o 402 num dos primeiros automóveis com motor a gasóleo do mercado – embora somente tenham sido produzidos comercialmente 12 unidades do modelo, antes da guerra alterar o rumo dos acontecimentos.
A transmissão estava associada a uma caixa manual de três velocida-des, com a transmissão a ser feita à rodas traseiras. Em opção, existia uma caixa automática Cotal, também com três relações, mas era de-masiado cara para os naturais clientes do 402, pois tratava-se de uma unidade muito elaborada e feita mais à medida de modelos topo de gama, como os Delahaye e Delage.
Caro e raro
Mas, em 1936, a Peugeot teve a estapafúrdia ideia de criar o Eclipse – a versão mais cara (e rara) do 402. Estapafúrdia, por ser uma espécie de Menino d’Ouro num mundo à beira da ruína, apenas isso. No resto, era um portento de beleza, sedução e qualidade e, aí, há que tirar reverentemente o chapéu à marca francesa.
O Peugeot 402 Eclipse Décaptable possuía aquilo que hoje se chama uma capota “hardtop” metálica eléctrica. Mas o sistema dava tantos problemas que, um an o mais tarde, o motor eléctrico foi substituído por um sistema manual, muito mais fiável.
De linhas muito elegantes e audaciosas, repleto de “glamour”, esta imagem de alta sociedade, bem na vida e com acabamentos de luxo, não foi suficiente para tornar o modelo num sucesso. Equipado apenas com o motor 1991cc de 55 cv, entre 1936 e Setembro de 1940 – quan-do saiu o último exemplar – foram produzidas apenas 580 unidades. Hoje, encontrar um 402 Eclipse Décapotable original e em bom estado, não é muito frequente, pelo que o seu valor no mercado de clássicos é bastante inflacionado.

