Alma de berlina
A Honda teve, até há bem pouco tempo, uma tradição de que abdicou com alguma relutância: utilizar motores a gasolina. Durante anos e anos, os seus automóveis eram propulsionados sem o recurso a motores Diesel – e apenas exigências do mercado a levaram a abandonar essa tradição. No entanto, ficaram as saudades. O CR-V tem no modelo com motor a gasoli-na uma entrada de gama muito especial.
Quem não se lembra do SUV compacto HR-V, que durante tanto tempo utilizou motores a gasolina de tamanho médio? Ou dos primeiros CR-V, quando ainda eram apenas movidos com blocos a gasolina, embora já com 2 litros de cilindrada?
Pois hoje em dia, a Honda apostou em motores da maior cilindrada tur-bo-Diesel, deixando os pequenos motores a gasolina para outras fran-jas do mercado europeu. A excepção é o bloco 2.0 i-VTEC de 150 cv, que partilha o Accord e o CR-V. As injecções de adrenalina invocadas pela tecnologia VTEC, nos pequenos desportivos Civic e CRX, já lá vão. Hoje, a Honda assume uma faceta mais ecologista, através de propos-tas híbridas, com pequenos motores eléctricos associados a motores médios a gasolina. Exemplo disso, são o Insight, o Civic Hybrid e, principalmente, o CR-Z, único onde a tradição desportiva se mantém viva – embora diferente e caracterizada numa faceta, digamos, mais verde. Outros tempos…
Dinâmica eficaz, ambiente de berlina
O Honda CR-V nunca foi uma viatura consensual. Não vamos discutir os seus argumentos de “design” pois, como em tudo na vida, há quem goste e há quem deteste. Ficamos a meio caminho, ao olharmos o seu perfil que ora invoca um SUV, ora faz lembrar um monovolume compac-to. Os ombros mais largos assumem-se como boa uma tentativa de ingressar em percursos mais empenhativos, fora dos limites do asfalto – veleidade muito bem aceite pelo sistema de tracção inteligente Real Time, que transfere, sempre que necessário, a tracção para as rodas traseiras, quando por exemplo há perda de aderência num dos eixos, em piso molhado, com areia ou lama. Interessante e eficaz, mas que exige algum cuidado pois, apesar das vias mais largas e de uma sau-dável altura ao solo, o CR-V não é um TT puro e duro.
O CR-V pretende, afinal, ser a proposta mais europeia de um “crosso-ver”, aquele tipo de veículo hoje tão em voga na mente dos automobi-listas urbanos, que não desdenham escapadelas pelos montes alente-janos aos fins-de-semana. Com a família a bordo, é bem de ver: e, nis-so, o CR-V é numa boa ajuda, pois espaço é coisa que lhe não falta. Versatilidade, também não, pois encontram-se formas de viver bem lá dentro, sem procurar muito. A ergonomia dos comandos e a eficácia do painel de instrumentos não provoca queixas; porém, o mesmo não se poderá dizer da qualidade geral, pois é fácil encontrar (amplas) super-fícies de plástico duro e não muito agradável, em conjunto com algum refinamento e cuidado colocados noutros locais do interior, em especial na consola central e painéis das portas. Uma maior qualidade percep-tível não teria feito mal a ninguém, ainda por cima quando a Honda coloca o CR-V num nível Premium de equipamento e oferta geral.
O bloco 2.0 i-VTEC a gasolina é suave, silencioso e eficaz. Não exige muito da caixa manual de seis velocidades – que pode ser substituída, em opção, por uma automática – de relações suficientemente equili-bradas para impedir consumos desastrosos; para nós, estes até foram uma agradável surpresa: pouco superiores aos sete litros por cada centena de quilómetros percorrida. A segurança de rolamento é boa, sem grandes oscilações da carroçaria, mesmo em troços mais exigen-tes, com a direcção a informar bem o condutor, embora parecendo, aqui e ali, algo cremosa. Sobre o conforto efectivo, nada a dizer: o CR-V é um pacato companheiro de viagem, sossegado e sem sobressal-tos. Recomenda-se a quem gosta de fazer muitos quilómetros e não quer chegar ao fim do dia com as costas massacradas e os pulsos dormentes.
O nível Elegance de equipamento pressupõe, de série, ar condicionado automático, dupla plataforma de carga no compartimento de baga-gens, faróis de nevoeiro, espelho retrovisor interior anti-encandea-mento, luz ambiente, punho da alavanca de velocidades e volante em pele, sistema áudio com leitor de CD e MP3, entrada USB e comandos no volante ou jantes em liga leve de 17”, entre outros mimos. Na ver-dade, um equipamento a condizer com o ambiente que se vive dentro do CR-V, bem mais de acordo com uma berlina topo de gama do que com um SUV, “crossover” ou seja ele o que for. E tudo isto por menos de 32 mil euros, o que não se pode classificar de exagero.
CARACTERÍSTICAS TÉCNICAS
Motor: Diant.transversal, 4 cil. em linha, 1997cc, distribuição variável, inj.indirecta a gasolina, admissão variável
Potência (cv/rpm): 150/6200
Vel. Máx. (km/h): 190
Acel. 0-100 km/h (s): 10,2
Consumos (l/100 km): 8,2
Emissões CO2 (g/km): 190
Preço (euros): 31.740


[...] voltamos ao mesmo: sobre o Honda CR-V, já aqui falámos (http://autoandrive.com/2010/11/19/honda-cr-v-2-0i-vtec-elegance/). Das suas características, como o espaço a bordo, a qualidade de acabamentos no interior, a [...]