Animal selvagem
O Nissan GT-R é um animal. À rédea solta, ou parado a recuperar fôlego, depois de uma correria, sente-se, ouve-se, cheira-se: um autêntico animal selvagem, triturador de asfalto e devorador de curvas. Não pára quieto, nem sequer adormecido: basta um olhar e percebe-se que está ali, à nossa frente, imóvel, em atitude eterna de desafio constante. Irresistível!
O Nissan GT-R já vai na sua quinta geração. No início, era baseado no Skyline de duas portas. Porém, depressa a marca decidiu que o GT-R tinha o seu próprio lugar no mundo dos felinos de quatro… rodas e, hoje, é um ícone no mundo dos “fast and furious” das pistas.
É verdade: o GT-R é uma lenda. Ficou famoso com o jogo Gran Turismo 4, para a Playstation – uma diversão da pesada que vendeu mais de 48 milhões de cópias e transformou para sempre a vida do GT-R. E, depois de ter sido também herói num dos filmes “Fast and Furious”, a Nissan teve que dar uma volta ao projecto. De lenda de ecrã, o GT-R estava a tornar-se numa lenda da estrada e, além disso, tinha-se tornado um senhor do mundo. As fronteiras recortadas das ilhas japonesas já não chegavam para a fome de fumo e de rugidos, exigida em altos brados pelos maluquinhos das máquinas mais velozes. Havia que transformar o GT-R, torná-lo num produto europeu; de armas e bagagens, os técnicos da Nissan voaram para a Europa e escolheram o único sítio possível: entre Colónia e Frankfurt, sabiam que um visionário tinha construído, há quase um século, uma pista fenomenal. Ela tinha todas as curvas possíveis e imaginárias, ideais para testar uma máquina como o GT-R. E onde mais existiria um templo assim, onde se adorava uma madona diferente, a Velocidade pura?
Além disso, havia que afastar o GT-R de puro e duro ícone dos “drifters”, aqueles artistas japoneses da derrapagem em aceleração lateral, nascidos nas montanhas em redor de Tóquio, há quase 50 anos. Havia que provar que o GT-R não era apenas o melhor para os artistas do “drift”, mas o melhor em todas as estradas, todos os caminhos, todas as situações. Depressa atacou o templo da Porsche que era Nurburgring e bateu o senhor do castelo: em 23 de Abril de 2009, o Nissan GT-R tornou-se o carro de produção em série mais rápido de sempre, ao fazer uma volta em 7m26,70s ao Nurburbring, conduzido pelo responsável pelo seu desenvolvimento, o japonês Toshio Suzuki, então com 54 anos. Hoje, já não é ele quem é rei na Floresta Negra do Eifel, mas reina em todos os olhos que o olham e em todos os corações que o sentem.
Imagem brutal e arrasadora
E não é caso para menos: a sua imagem é brutal, arrasadora. Um fenómeno! Sabia que um GT-R, tal como este que vê nas fotos, é parcialmente feito à mão, um por um? Sabia que cada caixa automática de seis velocidades é especialmente combinada com cada motor, feito à mão por verdadeiros magos da mecânica, numa sala hermética, esterilizada pela luz crua e pelo ar condicionado? Sabia que a atenção aos detalhes é de tal forma quase uma obsessão, que os pneus, montados em generosas jantes de 20”, são calibrados com nitrogénio, porque o ar comum se contrai em demasia?
Pois é isso mesmo! Mas a mania pelos pormenores não termina aqui: para lá de o GT-R ser uma pérola mecânica, de que falaremos mais abaixo, ostenta um acabamento primoroso, pouco comum num super-desportivo tão “hard rock” e bem mais de acordo com um modelo de luxo. Bancos em concha, forrados a pele e aquecidos, recebem como uma luva os ocupantes – mesmo os dois existentes atrás, embora aqui o espaço não abunde. Os painéis laterais e o “tablier”, a consola central e o enorme túnel de transmissão, são também forrados a couro. O rebordo superior do painel frontal e o magnífico volante, são costurados em pespontos vermelhos. Não existem plásticos duros e de mau aspecto; tecido macio forra os pilares e o tejadilho; o chão é atapetado de forma firme, destacando-se sob os pés do condutor um GT-R metálico, a marca de água de uma obra-prima.
Afinal, o interior mais não é que a continuação do exterior. O seu “design” agressivo, musculado, viril, impressiona e preenche na totalidade o olhar. Parece uma massa brutal, pronta para ser colocada em movimento perpétuo – mas as suas linhas foram de tal forma bem esculpidas, que o seu coeficiente de penetração aerodinâmica é de uns improváveis 0,27 Cx. Portanto, também aqui nada foi deixado ao acaso: quanto a nós, o lado que menos impressiona no GT-R é a sua frente, apesar do seu “capot” enorme e poderoso e da grande entrada de ar dianteira, negra e imponente; aqui, as suas linhas são quase dulcificadas pelos enormes pára-choques envolventes e pelas duas ligeiras bossas que correm ao longo do “capot”, com pequenas entradas de ar negras. A agressividade das suas linhas está mais patente no perfil atarracado, como um sólido enorme preso a uma mola de elástico pronta a largá-lo e especialmente na sua traseira.
Aqui sim, a angulosidade das linhas impõe respeito, os seus largos ombros caem quase na vertical até ao pára-choques de generosa superfície, culminado num extractor em fibra de carbono, que envolve duas duplas saídas de escape enormes e cromadas – onde se deposita o fumo negro deixado pela gasolina que nem sempre é bem consumida pelo motor, de curva em curva dos caminhos. As ópticas redondas dão aquele ar de misterioso oriental ao Nissan GT-R, terminando a viagem dos sentidos no enorme “aileron”, de fixação curiosamente enrolada, que encima a tampa da mala, remate sólido de uma traseira imponente, mas assaz curta e que esconde uma bagageira funda, com 310 litros de capacidade, inéditos num carro deste calibre.
Por dentro do jogo
A primeira vez que andei com um Nissan GT-R foi há um par de anos, no Circuito do Estoril. Por isso, depois de ter feito bravejar todo o animal que se esconde debaixo do seu longo “capot”, no local para o qual foi geneticamente feito, fiquei com uma enorme curiosidade em saber como este felino puro se comportava no meio dos outros mortais. Iria devorá-los, como autêntico predador que parece ser – e é? A resposta é surpreendente: devorar, lá isso devora – mas com uma arrepiante “souplesse”, como se, também ele, afinal tivesse sido feito a pensar no “drifter” que vai para o trabalho montado no cavalete da sua arte.
É isso mesmo: o Nissan GT-R é um mutante! Brutal mas tremenda-mente eficaz na pista, é cremoso e viciante em qualquer boa estrada, adaptando-se de uma forma magistral a todas as solicitações que lhe sejam pedidas. De uma coisa, porém, ele decididamente não gosta: andar devagar, situação em que as suas entranhas metálicas começam a emitir estranhos borborigmos, parasitantes, insistindo e desafiando o condutor a carregar no pedal metálico do lado direito. O que ele faz, sem relutância. Foi isso que, quase sempre, fizemos.
Entramos e sentamo-nos. A posição de condução é baixa, alinhada com os pedais e o volante, típica de um desportivo – enfim, correcta. Olhando à nossa volta, bem envolvidos pelo assento fundo e em concha, depressa percebemos que o GT-R não é apenas um herói de um jogo da Playstation – ele é o próprio jogo! Estamos sentados dentro de um jogo de consola! O volante de exactas medidas, cheio de botões; as patilhas, de tamanho preciso para nunca errarmos, por trás dele; o “joy stick” cromado da alavanca de caixa de seis velocidades automática; o botão vermelho “start/stop”, bem ao centro da alta consola central – que mais não é que o túnel de transmissão; o enorme e estranhamente deslocado para o lado direito, travão de mão.
Mas, principalmente, a parafernália de instrumentos e mostradores, à nossa frente e na parte central do painel – além dos óbvios conta-quilómetros (marcando uns animadores 340 km/h) e conta-rotações, de indicações bem legíveis, o destaque vai para o ecrã multifunções, curiosamente desenhado pelos técnicos da Playstation Digital e onde podemos encontrar: temperaturas da água, do óleo de transmissão e do motor, pressões de gasolina e do óleo, acelerações G laterais e longitudinais, forças G de travagem, distribuição em tempo real do binário pelos dois eixos, percentagem dos cursos dos pedais do acelerador e do travão, gráficos de avaliação de performance, cronómetro, telemetria de circuito – enfim, tal como num (bom) jogo de consola! E, claro está, para deleite maior do nosso acompanhante, especialmente se ele for um maluquinho deste tipo de “gadgets”. É que, verdade seja dita, mal carregamos no botão na consola central deixamos de ter tempo para outra coisa que não seja dominar os ímpetos do animal.
Feito para correr
E que ímpetos ele tem! Decididamente, o Nissan GT-R foi feito para correr atrás das outras presas – ou melhor, na sua frente. Autêntica peça de relojoaria, basta referir que, desde a carroçaria ao motor, tudo (mas mesmo tudo!) foi feito para andar depressa e bem. Uma vez mais, nada foi deixado ao acaso.
A carroçaria não foi feita num único material; a melhor forma encontra-da pelos engenheiros para criar a rigidez necessária e o ideal amorte-cimento para o chassis, foi utilizar a fibra de carbono no painel dian-teiro, o alumínio na parte central e o aço nos painéis da nova plata-forma sobre a qual foi construído o GT-R. O motor foi instalado numa posição dianteira recuada em relação ao eixo da frente, ficando a transmissão e a caixa de velocidades situada na traseira – com isso, foi encontrada a disposição ideal de pesos, contribuindo para tornar o GT-R no míssil de equilíbrio que, na verdade, é.
O ronco do motor define a situação: rouco, profundo. Ficamos a vibrar, os nossos pés calcam os dois pedais, a mão direita engrena a posição de marcha. A caixa de velocidades, de dupla embraiagem, pode ser usada em dois modos distintos – automático ou sequencial, aqui com a escolha das relações através das enormes patilhas por trás do volante: para subir, à direita, para descer, à esquerda.
O GT-R começa a rolar pela estrada, assinalando todos os pequenos deslizes do asfalto. A suspensão em duplo braço na frente e “multilink” atrás, possui três modos de funcionamento, que alteram a dureza e a eficácia – Comfort, Normal e R. Os mesmos níveis de funcionamento do controlo de estabilidade (VDC-R), aliás – se colocar tudo no modo R, então é bom que tenha umas mãos de fada, pois fica apenas com a ajuda do ABS. Mas lá que vai divertir-se que nem um… “drifter”, lá isso vai! Nos outros dois modos, tudo se passa de forma mais ou menos aveludada, pois pode escolher maior ou menor incidência da tracção nas rodas traseiras, a rijeza da suspensão e a permissividade do controlo de estabilidade, condicionando a postura do GT-R na estrada – ou até na cidade, onde chega a comportar-se como um carro “normal”, apenas mais rugidor.
O poder de aceleração do V6 3.8 é portentoso, bem ajudado pelas passagens de caixa milimétricas, mais rápidas no modo totalmente automático – afinal, é missão impossível lutar contra computadores feitos por potentes “geeks” da informática! O GT-R demora apenas 3,5 segundos a ir dos 0 aos 100 km/h – valor que o transformou no carro de série mais rápido do mundo! E o nosso problema é que tudo se passa com toda a naturalidade, sem sermos incomodados pelo seco digerir das irregularidades do asfalto – é que, se olharmos sem ver o ponteiro do conta-quilómetros, pensamos por instinto que vamos a uns 80 km/h – quando, afinal, no GT-R o número que está no lugar dos “nossos” 80 é exactamente o dobro! Por isso, chegar aos 270/280 km/h em linha recta, se houver espaço para isso, não é tarefa nada ciclópica, bem pelo contrário. Ciclópico é não pensar naquelas maquinetas malvadas que estão por aí escondidas atrás dos “rails”…
De consumos, nem vale a pena falar – apesar da Nissan garantir que o GT-R não gasta mais de 12,1 litros aos 100, em média ponderada. Pois, pois… mas isso não interessa: quem quer um GT-R, a última coisa em que pensa é que vai conseguir gastar tanto como um motor TDI!
Falemos, isso sim, do preço. O Nissan GT-R é um super-desportivo feito minuciosamente, equilibrado como um relógio suíço. Utiliza materiais nobres, como fibra de carbono, possui um equipamento, luxuoso, com bancos de pele e aquecidos, sistema áudio BOSE – com direito a chapinha luzidia na consola – telemetria de bordo e sistema de navegação integrado. Tem um motor brutal de seis cilindros em V e 485 cavalos – que vai ser ainda mais potente em 2011, com 530 cv. Bateu arrogantemente a Porsche no seu terreno. E custa menos de 120 mil euros. Poderá interrogar-se – porquê barato? Sabe quanto custa o principal rival do GT-R, de marca Porsche? Pois sempre lhe diremos que fica quase tanto para lá dos 200 mil euros, como o GT-R dos 100 mil! Até mesmo aqui, o GT-R é impressionante…
No final, abuse pela última vez dos enormes travões, que nessa altura já devem chiar sempre que se carrega no pedal e coloque o “joy stick” na posição de “parking”. Desligue o coração do leão. Por um momento, ouça-o suspirar, estalidos metálicos à sua volta. Saia – os estalidos continuam, secos, vibrações de um corpo a entrar em descanso. Cheire o ar à sua volta – outra vez, você fica com a sensação de que, também por um momento, foi o rei da selva. E esse momento efémero ficará, de certeza, gravado no seu cérebro de pacato predador de bifes, para todo o sempre. Outra certeza: o Nissan GT-R é uma ode a todos – literalmente – todos os sentidos: a audição, a vista, o sabor e o olfacto e o tacto.
CARACTERÍSTICAS TÉCNICAS
Motor: Diant.longitudinal, 6 cil.em V, 3799cc, 4 válvulas por cil., duas árvores de cames à cabeça, distribuição variável, inj.directa, dois turbos c/”intercooler”
Potência (cv/rpm): 485/6.800
Vel. Máx. (km/h): 310
Acel. 0-100 km/h (s): 3,5
Consumos (l/100 km): 12,1
Emissões CO2 (g/km): 298
Preço (euros): 118.850
Texto: Hélio Rodrigues
Fotos: C. Santos





















