No poema de pedra
A cidade é o final de todos os Caminhos de Santiago. Onde a estrada ter-mina, fica a Plaza del Obradoiro – e aí, imorredoiro, ergue-se o poema de pedra da Catedral, imensa e esmagadora. A fé palpa-se, nítida, eleva-se no ar e guia os olhares para o Pórtico da Glória e as torres de 75 metros de altura. Os passos, esses, avançam, lentos, quase sempre para a Porta Santa, mística de purificação para a alma de milhares, todos os dias.
Santiago de Compostela é a capital da Galiza. Situada na província de Coruña, tem cerca de 95 mil habitantes. Cidade feia, típica daquela zona, a única coisa que a distingue é o centro histórico, composto por dezenas de igrejas e palácios e onde a Catedral faz sombra a um dé-dalo de ruelas, em que as noites pagãs substituem a fé cristã de todos os dias. Juntamente com Jerusalém e Roma, Santiago de Compostela é um dos lugares de peregrinação mais importantes em todo o Mundo. Desde 1985 que é Património da Humanidade, galardão atribuído, com todo o mérito, pela UNESCO.
O Ano Santo Jacobeu
Sempre que o dia 25 de Julho, dia da Santiago, cujos restos mortais descansam na cripta da Catedral, coincide com um domingo, esse ano chama-se Jacobeu. É uma prática que foi adoptada na Idade Média, por disposição papal e exige celebrações especiais. Também conhecido por Ano Santo, Jubileu ou Ano Jubilar Compostelano, o Jacobeu costu-ma arrastar até à cidade da fé milhares de peregrinos, que chegam com uma predisposição diferente, mais mística ainda se possível. Tive-mos a sorte de 2010 ser Ano Jacobeu – a celebração sucede a cada 6, 5, 6 e 11 anos – pelo que o próximo Jacobeu será consagrado apenas em 2021. Este ano, as festas terminarão este fim-de-semana, com a presença do papa Bento XVI, que celebrará uma missa campal, em ple-no centro da Plaza del Obradoiro. Por isso, por estar a ser preparada a sua presença, a Catedral estava em obras de restauro e limpeza, obri-gando a que a nossa visita fosse feita no meio de andaimes e outros materiais bem pouco religiosos.
O templo da fé
Reza a lenda que o túmulo de Santiago, martirizado pelos infiéis e transportado para o local por alguns seguidores, foi encontrado no ano de 813. À sua volta, foi erguida a primeira capela e aberto o pri-meiro caminho para a peregrinação – que, ao longo dos séculos, se transformou em vários, levando ao aumento da cidade, que hoje é um templo vivo da fé, com um património religioso e monumental que to-taliza 46 igrejas, 114 campanários, 288 altares e 36 congregações – além de magníficos exemplos de arquitectura palaciana, alguns deles rodeando a principal praça da cidade, o Obradoiro. O seu “ex-libris” é a Catedral, imponente do alto dos 75 metros das suas torres principais e onde está a cripta com o sepulcro de Santiago. Alguém a caracterizou por “poema de pedra” – e é bem verdade.
Os caminhos nocturnos até Santiago
Na cidade, é sempre possível percorrer um Camiño de Santiago, que leva à catedral. Foi o que fizemos, na noite ventosa de sábado – quase cinco quilómetros a pé, apoiados no tradicional cajado, numa caminhada presidida pelo bispo da Guarda, D. Manuel Felício e por Luís Celínio, presidente do Clube Escape Livre. No final, depois de descer-mos o último lance de escadas, sob um pórtico onde se cantava Crosby, Stills & Nash – ou, simplesmente, talvez apenas Neil Young – demos a volta ao monumento, passamos junto à Porta Santa, a essa hora da noite fechada e sem as longas filas diurnas e paramos para a foto de grupo, de novo frente ao Pórtico da Glória. Aí, estendidos de costas no chão húmido e gelado, alguns peregrinos cumpriam a tra-dição – que, em tempos idos, incluía o mergulho no rio, para deixar para trás todas as impurezas e os dissabores da longa caminhada. Alguns deles, sabe-se que continuavam depois até ao remoto cabo Finisterra, onde literalmente a terra acaba e o mar começa, local em que queimavam, ao pôr-do-sol, algumas das roupas utilizadas na peregrinação – antes de, enfim, rumarem a casa.
Tradição que ainda hoje se mantém, são as três coisas que é preciso fazer, se se quiser sair de Compostela com a alma lavada de todos os pecados: tocar na coluna do Pórtico da Glória, mal se chegue junto à catedral, para pedir os seus desejos; e, entrando pela Porta Santa, dar um abraço à estátua do Apóstolo, existente no Altar-Mor, bem co-mo visitar a cripta onde descansam os ossos do Santo.
O verdadeiro peregrino de Santiago, o que faz da fé um cadinho místi-co de silêncio e saudação, recebe uma “Compostela” – espécie de diploma da sua peregrinação, entregue pela Oficina de Acogida de Peregrinos a quem provar que percorreu a pé mais de 100 quilómetros ou, de bicicleta, mais de 200. Para o provar, é necessário exibir a Cre-dencial do Peregrino, onde constam os carimbos e os selos de entida-des policiais ou autárquicas, bem como de albergues e hospedarias, onde o peregrino tenha pernoitado.
A mística do Botafumeiro
Depois da visita à catedral, embrenhámo-nos na multidão dispersa pelas naves, esperando pela Missa do Peregrino. Esta durou cerca de uma hora e foi concelebrada pelos bispos de Santiago e da Guarda. A diferença para as outras missas está na mística do lugar, de facto im-pressionante e única. Luís Celínio leu uma Invocação dirigida ao Após-tolo Santiago, na qual foi pedida protecção para todos “quantos cir-culam pelas nossas estradas”, bem como a promoção do “maior bem entre todas as pessoas, pelo encontro sério entre si mesmas e com o Senhor da história que dá sentido a tudo quanto fazemos.”
A celebração culminou com a cerimónia do Botafumeiro, uma tradição de Santiago e que é praticada em algumas missas solenes. Num ritual inesquecível, um enorme incensário em latão prateado, do séc. XIX, é balançado através de cordas pelos “tiraboleros” (o incensário é conhe-cido também por turíbulo), no interior da catedral, ao longo da nave central do Altar-Mor. Cheio de incenso a arder, vai perfumando o ar, por cima das cabeças dos crentes, promovendo a purificação das men-tes e dos espíritos. O turíbulo, que tem 1,5 metros de altura, passa sobre a multidão em velocidade cada vez maior, atingindo a altura máxima, quase na horizontal, antes de parar no centro da nave, no que é ajudado pelos mesmos homens que antes o faziam voar. Então, abre-se em partes iguais e deixa ver a imagem do Apóstolo Santiago, aparição celebrada por uma viva e emocionante salva de palmas, eco-ando longos minutos no espaço silencioso da catedral. Uma curiosi-dade: este ritual de purificação, que tem uma origem obscura, talvez na Idade Média, começou porque muitos dos peregrinos que entravam na catedral o faziam em lamentáveis condições de higiene, bem pouco apropriadas para assistirem à missa – e numa altura em que lhes era ainda permitido pernoitarem no interior da catedral.
No final, mergulhámos na ordeira multidão e descemos a escadaria de pedra que sai do Pórtico da Glória. No seu alto, encostámo-nos à humi-dade do ferro forjado e deixámos o olhar percorrer o Obradoiro, lá em baixo. Depois, pelas pedras milenares, curvados debaixo da morrinha gelada, entranhámo-nos no dédalo de ruelas estreitas. Cotovelo após cotovelo, fomos andando, cabeças no ar, pelo meio da multidão. O ba-fo morno a saber a alho e condimentos desconhecidos, fez-nos entrar. A nossa passagem por Santiago de Compostela terminou de uma ma-neira bem pouco mística – frente a um “Pulpo à la Gallega”, chegado depois de uns salgadinhos e ferventes “Pimientos del Padrón” e uma “Tortilla” firme e recheada. O branco Ribeiro fez as honras da casa, escorrendo gotas pelo vidro frio e tosco. Esperavam-nos exactamente 555 quilómetros de estrada até casa – mas só o soubemos quando lá chegámos, tinha acabado de cair a noite.
Texto: Hélio Rodrigues
Fotos: Clube Escape Livre, C. Santos e Hélio Rodrigues















