Pelos Caminhos de Santiago (3)

Do mar de Ofir à fé enorme de Santiago

O terceiro dia da aventura amanheceu fresco. Bonito, solarengo, a tentar esquecer a violência da véspera. As vagas azuis e acinzentadas do oceano ecoavam em surdina, beijando a areia molhada e com gaivotas. Olhámos, respirámos fundo – era a hora de partir. No final da estrada, à nossa es-pera estava Santiago de Compostela.

Os corcéis – todos eles com o mesmo nome, BMW, só diferindo no “pedigree” – brilhavam sob os raios solares, quando enfrentámos a primeira escaramuça, o trânsito da auto-estrada, rumo a Viana do Castelo. Cidade com origens pré-históricas, continua a ser, ainda hoje, local de passagem e de paragem dos peregrinos que demandam a fé. Passámos – deixando o espelho do Lima à nossa esquerda, cada vez mais lá em baixo, subindo a encosta húmida e de chão atapetado de folhas e ramos quebrados, do Monte de Santa Luzia.

Santuário de Santa Luzia, lugar de peregrinação
No alto do monte, depois dos cedros seculares, lá está o Santuário de Santa Luzia. Lugar de peregrinação para milhares de crentes, desde 1918 que a romaria sobe da cidade, agradecendo a Santa Luzia a bênção de terem ficado imunes à febre pneumónica, que matou mi-lhares de pessoas no primeiro quartel do século XX. São 742 os pe-nosos degraus que vêem desde Viana ao santuário – que está ainda ligado à cidade por um funicular construído em 1923 e que demora se-te minutos a cumprir os 650 metros, à velocidade de dois metros por segundo. A nossa peregrinação subiu pela estrada sinuosa, de velho asfalto e velhas sombras.
No alto de uma escadaria ampla e impressionante, rodeada de colunas imponentes, fica a Basílica de Santa Luzia. Foi construída no século passado, um projecto assinado pelo arquitecto Miguel Ventura Terra, inspirado no Sacré Couer de Montmartre, de Paris. Mistura arquitec-tónica de estilos diversos – neo-bizantino, neo-gótico e neo-românico – assenta numa planta em forma de cruz grega. As obras de constru-ção começaram em 1903 e só terminaram 40 anos mais tarde, embora tenha sido aberto ao culto ainda incompleto, em 1926. Muito do traba-lho de construção foi executado em granito e mármore de Vila Viçosa. O seu interior possui um altar-mor onde podem ser apreciados dois querubins, esculpidos em mármore de Vila Viçosa, encontrando-se ao centro o Coração de Jesus, uma réplica do trabalho em bronze, da autoria de Aleixo Queirós Ribeiro, existente na entrada do santuário, inaugurado em 1898. As enormes rosáceas em vitrais coloridos foram feitas nas oficinas de Ricardo Leone, em Lisboa e, na cúpula, está um magnífico fresco representando a Via-Sacra e a Ascensão de Cristo. O carrilhão da basílica é composto por 26 sinos. Uma escada em caracol, com 150 degraus íngrimes, leva ao alto do templo, onde na cúpula existe um miradouro, de cuja varanda se pode avistar aquela que é considerada uma das mais belas paisagens do mundo, um panorama deslumbrante sobre a cidade de Viana do Castelo e o rio Lima, onde se destaca a bela ponte metálica da linha férrea, construída por Gus-tave Eiffel e que é um dos “ex-libris” da cidade minhota.
Passando ao lado da Pousada de Santa Luzia e, mais longe, mas ain-da perto, da Citânia, conhecida por Cidade Velha e que mais não é do que o local onde foi fundada a povoação, em idos pré-históricos, come-çámos o nosso caminho rumo à muito bela e selvagem Serra de Arga.

Mosteiro de São João de Agra, guarida de quem demanda
Caminho onde parámos para dar passagem uma vara de javalis e a-preciámos a liberdade de dezenas de garranos, imóveis no horizonte ou entre os penhascos e as estevas luzidias. Aqui e ali, eram vacas que tapavam a passagem da caravana, que tinha simplesmente de esperar que decidissem afastar-se e darem-nos autorização para de-vassarmos os seus domínios. Com uma altura máxima de 825 metros, Arga é um miradouro granítico sobre o rio Minho e a Galiza. No seu es-pinhaço, ostenta um enorme parque eólico, um dos maiores de Portu-gal, com uma potência de 36 MW – e, para os puristas da paisagem, as suas torres estilizadas, brancas contra o azul fundo do céu, emer-gindo dos afloramentos magmáticos, são um atentado condenável.
De repente, saímos da estrada principal, tortuosa e descemos para uma encosta escondida, fresca e escura: ao nosso lado direito, frente a um cruzeiro esguio em granito, alguns edifícios escuros, de aspecto ruinoso. É o Mosteiro de São João de Arga, durante muitos anos tépido abrigo para os extenuados peregrinos, que emergiam das agruras da serra ventosa e cruel. A sua data de construção é incerta. A lenda garante que foi mandado erguer no ano de 661 por São Frutuoso, bispo de Braga, mas as suas características arquitectónicas e os documentos existentes apontam para o século XIII. No altar-mor, está inscrita a data de 1333 e, depois de passar para a Ordem de Cristo, em 1515, o mosteiro caiu em ruína, durante dois séculos, até ser recuperado quando as romarias cada vez mais constantes exigiram a sua remo-delação e a construção dos dois albergues que ainda hoje ladeiam o recinto. Mais tarde, deixou de existir como mosteiro, passando apenas a local de romaria e de hospedaria para os peregrinos; hoje, é somen-te local de romaria.
Situado na encosta sobranceira à ribeira de São João, está isolado do mundo, rodeado por enormes pinheiros e é composto por uma igreja de planta longitudinal, com altar em pedra, barroco e policromatica-mente pintado; no seu interior, encontram-se as imagens de São João e a de São Miguel com o “diabo das esmolas”. Esta igreja está implan-tada no centro de um recinto quadrangular, ladeado por duas hospe-darias em L de primeiro andar, de galeria aberta entrecortada pelos pilares que sustentam o varandim do piso superior, para onde se sobe por escadas frontais. Hoje estão abandonadas, mas em tempos serviram para acolher os peregrinos que demandavam Santiago e os romeiros que, em especial no Verão, procuravam o local como sítio de devoção e romaria. O adro é dominado por um frondoso carvalho secular e, da porta de entrada do recinto, a paisagem é encimada pelo cruzeiro, colocado num local ermo, virado à ribeira e à encosta da serra. Do alto, em dias límpidos, a paisagem estende-se até à foz do rio Minho, a Caminha e à Galiza, com o monte de Santa Tecla e o forte da ilha de Ínsua no horizonte.

Mosteiro de Oia, fortaleza da fé cristã
Deixado o Mosteiro de São João de Arga, logo de seguida acabamos de atravessar a serra e, em passagem rápida por Vila Nova de Cervei-ra, uma das terras mais aprazíveis do Alto Minho, bordejando a mar-gem esquerda do rio Minho, outrora sede de um caminho de Santiago menos utilizado, que vinha da orla costeira, desde Matosinhos e Ca-minha, em direcção a Valença (o actualmente designado Caminho Português da Costa), cruzamos o rio pela ponte nova, entrando em terras espanholas.
Subimos ao Monte Rosal, fronteiro ao Minho, para espraiarmos a vista pela paisagem magnífica: Vila Nova da Cerveira em frente, do lado de lá do rio, aos pés da serra poderosa, o rio e a ilha Coração, a foz em Caminha, o monte de Santa Tecla, como um pequeno e longínquo vulcão abandonado à névoa do meio da tarde. Depois, rumamos à costa. E, de súbito, começamos a descer: cheira a maresia, já.
Então, a meio da descida, quando o espelho do mar nos entra pelos olhos adentro, quase doloroso, temos que parar: em recorte de som-bra negra, contra a prata do espelho, está a torre esguia, capricho de pedra em silhueta de figura chinesa – é a primeira visão do Mosteiro de Oia, que depois descobrimos ter os alicerces encharcados pelas marés do oceano frio, junto ao novo embarcadouro de Santa Maria de Oia – obra magnificamente limpa, que custou, dizem as placas orgu-lhosas no local, 350 mil euros.
O Mosteiro de Oia foi fundado, rezam as crónicas, em 1137 – meio sé-culo mais tarde, entrou nos territórios da poderosa, em Tui, Ordem de Cister. Situado numa língua de terra chã, foi o principal ponto de aco-lhimento dos peregrinos que usavam o Caminho Monacal; possuía mesmo, no século XVI, um hospital, algo de muita importância para quem então calcorreava os perigosos caminhos da fé. Era a última etapa de uma longa peregrinação – Santiago fica, por estradas ac-tuais, a menos de 140 quilómetros.
Os monges do mosteiro eram muito empreendedores; ficaram conheci-dos pelos seus hábitos brancos, mas também por transformarem uma região hostil e pobre, numa das mais ricas das redondezas, cultivando a terra, que afinal era fértil, criando cavalos e fundando novos povos aqui e ali. Eram eles, também, quem defendia a costa dos ataques dos piratas – por isso, ainda hoje o mosteiro tem um aspecto de fortaleza virada ao mar. Nenhum outro mosteiro cisterciense se encontra, em algum lado, tão perto do mar e este serviu também de porto de abrigo para os barcos que navegavam desde Baiona; então, os monges co-bravam impostos sobre as embarcações que entravam ou zarpavam do porto, ajudando assim a criar a imensa riqueza que o Mosteiro de Oia chegou a possuir.
Regido até 1835 por 140 abades, entre 1912 e 1932 foi ocupado pelos jesuítas expulsos de Portugal. Durante a Guerra Civil de Espanha, ser-viu de prisão. Hoje, a maioria do edificado do mosteiro é propriedade privada, sendo a igreja a única parte aberta a visitas. Em estilo gótico cisterciense, foi construída no final do século XII, com o coro do século XVII e a fachada de estilo barroco do século XVIII. No seu interior, que se encontra apenas em relativo estado de conservação, com vestígios de obras inacabadas, encontra-se a imagem da Virgem del Mar, em honra da qual se celebra, na segunda-feira a seguir a Pentecostes, uma festa popular no local.
Visita breve, que a tarde se fazia em noite: e, de auto-via em auto-via, depois de debruarmos alguns quilómetros do litoral ali selvagem, re-cortado de improváveis afloramentos rochosos saídos das próprias vagas alterosas, chegamos a Santiago de Compostela. Ou melhor: aos arredores, numa das margens da derradeira auto-via. Da catedral e da fé, nem sombras: estas, apenas se desfizeram mais tarde, no Camiño de Santiago que, noite dentro, nos levou ao poema de pedra, seis qui-lómetros cidade adentro. Mas, isso, fica para a próxima e última crónica de uma peregrinação dos tempos modernos.

Texto: Hélio Rodrigues
Fotos: Clube Escape Livre, C. Santos e Hélio Rodrigues

Links relacionados: http://autoandrive.com/2010/10/19/pelos-caminhos-de-santiago-2/; http://autoandrive.com/2010/10/14/pelos-caminhos-de-santiago-1/; http://autoandrive.com/2010/10/08/bmw-x-experience-ligou-trancoso-a-santiago-de-compostela/

2 respostas a Pelos Caminhos de Santiago (3)

  1. Ju diz:

    Olá.
    Sempre vi o seu trabalho, e gostei. Principalmente por saber que tudo passou por aqui! Vila Nova de Cerveira é uma vila muito linda! Aconselho a passarem por aqui, penso que as pessoas recebem os turistas!
    Continuação de um Bom Trabalho.

  2. Ju diz:

    É de aproveitar, dar uma voltinha por aqui! :D

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