Viver a vida doce
Os dias escaldantes do estio já lá vão. As primeiras chuvas encharcaram as estradas e reverdeceram os campos ressequidos. E é neste ar doce de Outono que apetece viver a vida, cabelos ao vento, as faces refrescadas pelo perfume das vinhas maduras e dos últimos figos de mel, secando na tábua.
O Renault Mégane Coupé-Cabriolet é uma boa proposta para um ca-minho de curvas, em redor dos montes saloios, antes de procurar um pouco de paz ao lado das lezírias, junto aos salgueiros chorando na vala repleta de jacintos e juncos aguçados e tenros. Utilizámos, para isso, a versão de entrada de gama, equipada com o bloco 1.4 turbo a gasolina, com 130 cv de potência e um interessante binário de 190 Nm.
A aliança do génio e da natureza
A segunda geração do Coupé-Cabriolet da gama Mégane marca a di-ferença. Não apenas para a primeira geração, mas principalmente para a concorrência. De linhas apaixonantes (ainda mais…), este CC desta-ca-se pela pureza dos seus ângulos, com a frente tipicamente “família Renault” a conjugar-se num perfil irresistível, fluido e consensual, em que os traços negros do tejadilho em vidro retráctil se casa bem como o acentuar em cromado da linha de cintura e do contorno do pára-bri-sas, desde o forte pilar ao rebordo superior. A traseira surge mais ele-vada, mas a sua elegância foi bem acentuada pela colocação dos gru-pos ópticos, que suavizam o impacto provocado pelas linhas em dema-sia volumosas do porta-bagagens, dividido em partes nitidamente a-movíveis. E a razão deste facto é meramente mecânica, pois para a-colher o tejadilho retráctil, a parte traseira do Mégane CC separa-se em várias partes.
Já o interior mantém intacta a filosofia Mégane, com uma configuração do tablier e da consola central em tudo semelhante ao existente na restante família. A ergonomia é a mesma, o conforto dos bancos igual e, atrás, há espaço para dois ocupantes, sem grandes sobressaltos, sendo que este CC é, como está bem de ver, um 2+2. E o posiciona-mento mais baixo dos dois bancos traseiros resulta num maior espaço para ser ocupado pelas pernas dos passageiros que, no entanto, não podem sofrer de claustrofobia… Mas, contra isso, está um simpático botãozinho na consola, que liberta todos os anseios que se possam sentir, ao viajar com o tejadilho mesmo a roçar os cabelos. É que, mes-mo sendo de vidro e deixando ver as nuvens no céu, sempre é um obstáculo sólido à liberdade de movimentos…
Ainda há estrelas no céu
Por isso, toca de libertar a liberdade. A manobra somente pode ser efectuada com o CC imobilizado e demora escassos 21 segundos. Urge referir –acentuar, mesmo – que o principal traço distintivo deste CC está no seu tecto panorâmico, todo em vidro: com assinatura Kar-mann, é o maior do segmento, começando no limbo do pára-brisas e terminando por trás da nossa nuca. A sua elegância é evidente, transformando o Mégane CC num “cabriolet” vibrante e incitador de hedonismos inconfessáveis.
Apesar de filtrar os raios solares, minimizando o aquecimento interior, o facto é que não é nada saboroso sentir o sol mesmo por cima de nós – e a rede que nos separa do vidro por vezes é como se não estivesse lá. Mais uma razão, portanto, para escamotear o tecto para dentro do porta-bagagens. Contudo, aqui é necessário ter algum cuidado: a ma-nobra é acompanhada por um aparatoso mimetismo da parte traseira da carroçaria do CC, com algumas partes a afastarem-se dos limites naturais da mesma, exigindo que o carro esteja parado longe de qual-quer parede ou obstáculo, sem o que a manobra não consegue ser efectuada. Depois… bom, depois, descobre-se que ainda há, para lá do sol, estrelas no céu.
Suave como veludo
Cabelos enfim libertos, é tempo de nos fazermos à estrada. Equipado com o motor turbo a gasolina TCE 130, este Mégane CC funciona como entrada da gama. O seu nível de equipamento é baseado no Dynami-que e inclui, entre outros, cartão mãos-livres com fecho automático não apenas das portas, mas ainda do porta-luvas (quando o carro está em versão descapotável), por afastamento; travão de estacio-namento eléctrico-assistido; ar condicionado automático bi-zonal com três modos; faróis bi-xénon direccionais; sensores de estacionamento; sistema áudio “3D Sound by Arkamis” com ligações Plug&Music; e na-vegação integrada Carminat by TomTom.
Dinamicamente, a suavidade de rolamento é o seu forte, com os 130 cavalos do motor a serem suficientes para acalentar algumas veleida-des mais joviais, no que é bem acompanhado pela caixa manual de seis velocidades. Na verdade, estas características já as tínhamos encontrado noutras propostas da Renault equipadas com semelhante base mecânica. A diferença, aqui, está no comportamento do chassis, cuja rigidez torsional poderia ter sido posta em causa pelo facto da sua condição de descapotável. Mas não foi: a rigidez estrutural foi aumentada, através de reforços cirúrgicos, tornando esta geração do Mégane CC mais rígida dinamicamente 30% que a anterior; além disso, a Renault integrou regulações específicas no chassis original, endure-cendo as molas, a barra estabilizadora e o eixo traseiro. Por isso, em-bora se “perceba” que vamos a bordo de um CC, a sua eficácia não é colocada em causa, com capota fechada ou em versão descapotável.
E já que falamos em descapotável, também aqui há diferenças para os seus “adversários”. A Renault colocou, por trás do banco… traseiro, um pequeno o vidro corta-vento, que diminui as turbulências e as pertur-bações acústicas até aos 90 km/h. Curiosamente, quando estão ape-nas dois passageiros no CC, pode ser instalada, como protecção supe-rior adicional, um rede que, colocada por cima dos bancos dianteiros, permite rodar confortavelmente, independentemente do ritmo adopta-do. Ritmo que, convém também referir, é sempre responsável pelos consumos, que dificilmente conseguem ser inferiores aos 8l/100 kms nesta versão do Mégane CC, com os 130 cavalos do motor TCE a ga-solina a exigirem muita “água” quando se adoptam velocidades de cruzeiro mais elevadas.
Elevado, de facto, não é o preço desta entrada de gama: 29.500 euros é o que consta no fundo de uma ementa que, para lá do equipamento já assinalado, contém ainda pratos de segurança, como sistema ABS com distribuidor electrónico de travagem EBV e ajuda à travagem de emergência; ESC com função de controlo de viragem e, na segurança passiva, plataforma reforçada em zonas de forte solicitação, incluindo nas molduras das portas e vidros e no pilar central.
CARACTERÍSTICAS TÉCNICAS
Motor: Diant., 4 cil. em linha, 1397cc, distribuição variável, duas árvo-res de cames, 16 v, inj.directa, turbo
Potência (cv/rpm): 131/5500
Vel. Máx. (km/h): 200
Acel. 0-100 km/h (s): 10,7
Consumos (l/100 km): 7,3
Emissões CO2 (g/km): 169
Preço (euros): 29.500
Texto: Hélio Rodrigues
Fotos: C. Santos
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