Pelos Caminhos de Santiago (2)

Entre Mondim de Basto e Ofir

Domingo amanheceu escuro, chuvoso, agoirento. O pó dos corcéis moder-nos transformou-se em montinhos de lama, quase diluídos nas pedras da calçada. Mas não havia que hesitar: era tempo de partir – do outro lado da vitrina, estava a promessa de um mar azul. Mas, para lá chegar, era preci-so descobrir os caminhos da peregrinação.

Mondim de Basto atravessou-se depressa, envoltos na poalha da chu-va. Depois de um último olhar ao vale do Tâmega e ao esboço imenso do perfil do Monte Farinha, a estrada transportou-nos, rápida, a cami-nho de novos horizontes. Que quase se não viam, escondidos pelas bátegas e pelo vento. Por isso, estrada acima, patinhando na lama dos trilhos, escorregando nas pedras centenárias de calçadas estrei-tas entre muros de pedras encharcadas e árvores de fruto disformes, não estranhámos que o vulto do castelo de Arnóia estivesse, lá em cima à esquerda, escondido no ventre das nuvens. De fundação incerta e espaço esconso, este castelo tem a sua história ligada a uma lenda: ocupado pelos mouros, que escravizaram a popu-lação cristã dos arredores, esta, numa noite escura, juntou todos os rebanhos, com ruidosos badalos ao pescoço e velas nos chifres, inci-tando-os em direcção ao castelo. Amedrontados, pensando que um exército monstruoso caminhava na sua direcção, os ocupantes mouros fugiram, deixando todas as suas riquezas no interior do recinto.
Mais adiante, rodeámos lentamente o Santuário de Nossa Senhora do Viso, espaço amplo de romarias e procissões, de cujo cabeço se pode apreciar a bacia do Tâmega – mas, desta feita, o nevoeiro e a chuva esconderam tão bem a beleza do horizonte que até duvidámos que pudesse existir.
Do que nunca duvidámos foi da existência da serra da Cabreira, bar-reira de bosques de castanheiros, penhascos escorrendo chuva, mi-lhares de cascatas e fios de água turbulentos, que sabíamos caminhar ao nosso encontro. Mas, antes de nela penetrarmos, havia que retem-perar forças na Aldeia de Agra.

Aldeia de Agra, desenho de pedra crua
A aldeia de Agra fica a cerca de 50 quilómetros de Braga – mas nada, no seu cenário, parece indicá-lo. À entrada, passa-se pela ponte româ-nica da Parada, que atravessa o rio Ave, que nasce ali bem perto. Cho-via torrencialmente quando o fizemos e a aldeia surgiu como uma obra do impressionista Manet: as casas típicas, feitas de pedra, preenchiam as ruas estreitas, com latadas suspensas nas cordas da chuva e luzes foscas a tremeluzirem aqui e ali. A pequena igreja de São Lourenço, bem no meio da povoação, abria a porta com uma quente promessa de aconchego sereno, mas decidimos rodear o cruzeiro, roçando as Alminhas a escorrer água e, por mais ruas estreitas, regressar à es-trada principal, entre muros de pedra solta e escura, onde passavam algumas vacas, tão encharcadas pela chuva que pareciam pintadas a pastel.
Classificada como Aldeia de Portugal em 2005, Agra é um pequeno conjunto de casas tradicionais daquela zona montanhosa, com alguns exemplos – as casas de Fundevila (1803), do Cruzeiro (1879), das Cortinhas (1678) e do Cabo (1748) – perfeitamente preservados a constituírem alguns dos pólos de atracção da povoação. Cercada por campos verdes e árvores centenárias, Agra é um hino à natureza no seu mais puro estado, prenhe de silêncio, onde apetece descansar e ficar ali, quieto, olhando o vento nas ramadas frementes e cheirar a serra da Cabreira, mesmo ao lado.

O seio sôfrego da Cabreira
Portanto, saímos de Agra em direcção à serra da Cabreira. A chuva estava cada vez mais intensa. A estrada escorregava continuamente, cascatas de água atiravam-se contra as rochas e escoavam-se por baixo de nós, em pontões estreitos e, por vezes, sem parapeitos. Os castanheiros debruçavam-se sobre o asfalto e os tapetes de ouriços, que os cavalos selvagens pastavam solenemente à chuva, impávidos e perfeitamente desinteressados pela nossa presença, ali imóveis, espe-rando com paciência que acabassem de retouçar o pitéu. Vacas ma-gras de longos cornos, brilhantes de água e gaios fugidios por entre as cordas que caíam das nuvens, com as penas azuis da cauda agi-tando a velocidade da fuga. Curva após curva, alminha após alminha, a igreja de Nossa Senhoras das Neves, na empedrada aldeia da La-goa, passou despercebida, no seu pequeno largo com árvores de troncos nus e erectos.
Vieira do Minho atravessou-se já com pouca chuva, mas muito vento, drapejando nos toldos das barracas do mercado, vila mansa e morna, a antiga Vernária que recebeu foral dado por D. Manuel I, em 1514. A quem hoje lá for, que vá com tempo: há muito para ver, muito para saborear. O Museu da Moto Antiga é apenas um exemplo, bem como a Via Romana de 12,4 km, em excelentes condições e que é uma refe-rência para os adeptos de caminhadas e de BTT.
E, de repente, a Pousada de São Bento, porto de abrigo quente e a cheirar a lençóis lavados, café e lareira, acolhedor, com vista – quando a chuva o permitia – para a barragem da Caniçada e os dois rios, o Ave e o Cávado, paisagem de desvelo para os olhares, já em Terras de Bouro. Valeu a pena o descanso e o conchego do corpo e da alma. Lá fora, a tempestade mostrava sua força contra as vidraças e o arvo-redo que descia a encosta para as margens do rio. Era bom saber co-mo ela era, pois de seguida iríamos enfrentá-la e ver, por dentro, a sua força.
 
São Bento abre a porta à Abadia
Árvores arrancadas e atiradas fora; postes quebrados que nem fósfo-ros; ramos e troncos a preencherem o vazio das estradas estreitas: foi este o cenário. Atravessámos o rio, passagem obrigatória para o san-tuário de São Bento da Porta Aberta, ainda hoje local de acolhimento para centenas de peregrinos, que demandam Santiago através do Ca-minho do Lima. A sua origem remonta a 1640, ano em que se construiu uma pequena ermida, que possuía um alpendre e tinha sempre as por-tas abertas a quem passava e pedisse conforto e abrigo. Por isso, o nome; o santuário que hoje lá se encontra foi erguido entre 1880 e 1895 e acrescentado com um novo projecto, de linhas singelas, termi-nado em 2002, para fazer frente ao crescente número de devotos de São Bento ou simples visitantes. Debruçado para o rio Cávado, a vista tem horizontes longos e vibrantes.
Reza a lenda que a imagem de São Bento que tinha desaparecido do convento, apareceu no caminho chamado Formigueiro, que liga, mon-tanha acima, ao santuário vizinho de Nossa Senhora da Abadia. Cami-nho sinuoso e com vista de cortar a respiração, bem conhecido dos romeiros, não pode ser trilhado por nós, por causa das árvores que teimavam em cair e fechar a estrada. A opção foi demandar a Abadia por estrada de asfalto, rodeando o monte até ao local escuro e isola-do, entre riachos tumultuosos e secretos, onde foi construído há sé-culos não definidos – da estrutura original nada resta e o actual mo-numento foi erguido no século XVIII. Em estilo barroco e rococó e rodeada de plátanos centenários e com o ruído das águas rolantes como pano de fundo, a Abadia convida a pensativas caminhadas e meditações solitárias. À sua volta e borde-jando o caminho arbóreo que desemboca no largo comprido e com arcadas sucessivas, existem oito capelas alinhadas em forma de Via Sacra. O seu interior é composto por três naves, separadas por ar-cadas assentes em colunas toscanas. O altar principal é de grande beleza, sendo trabalhado em talha dourada.
A quatro quilómetros, fica o Mosteiro de Santa Maria do Bouro, hoje transformado em pousada mas que, em tempos, foi couto de benedi-tinos, antes de dois processos de degradação: um, depois de ter sido entregue à Ordem de Cister e outro após a extinção das ordens reli-giosas, no século XIX. Então, abandonado e vendido em hasta pública, quase desapareceu em ruínas, antes de ser adquirido pela Câmara Municipal de Amares, que o recuperou e adaptou, fazendo renascer a sua grandiosidade, como pousada, onde se mantêm as características e os traços dos tempos em que ali se alojavam os frades.
Aqui, a passagem foi rápida, que a tarde começava a cair e ainda havia que seguir até Braga, em cujos arredores fica um dos mais grandiosos complexos religiosos nacionais, o Mosteiro de Tibães.

Séculos de história em Tibães
O Mosteiro de Tibães, também conhecido por São Martinho de Tibães, fica no cimo de uma larga alameda, centrada com um Cruzeiro no alto de uma peanha em degraus. Dista seis quilómetros de Braga e foi fundado no séc. XI, tornando-se depois um dos mais ricos e poderosos mosteiros do norte de Portugal. A partir do séc. XVI foi ocupado pelos monges beneditinos, que o transformaram na casa-mãe de todos os outros mosteiros da ordem e difusor da doutrina e da cultura. Com a extinção das ordens religiosas, em 1834, o Mosteiro de Tibães entrou em acentuado declínio, de que foi salvo apenas na recta final do século passado, quando o Estado o comprou aos privados onde tinha ido parar, depois da guerra civil do século XIX e que, ao longo de mais de uma centena de anos, se empenharam a delapidar o seu património. Cadinho de estilos arquitectónicos, fruto das diversas fases de recons-trução, ampliação e decoração, o Mosteiro de Tibães possuía um enor-me património territorial em redor.
Encerrado a partir de 1834, com excepção da Igreja, da Sacristia e do Claustro do Cemitério, os seus bens móveis e imóveis foram mesmo vendidos em hasta pública, sendo depois deixado à mercê da ruína e da degradação. Um bom exemplo da senha destruidora que moveu as gentes do lugar contra o Mosteiro, está na grandiosa biblioteca, que chegou a ter mais de 30 mil obras – das quais hoje restam apenas um milhar, recuperadas durante o processo de restauro que o complexo está a sofrer desde que, em 1986, foi adquirido pelo Estado. Hoje em dia, esses trabalhos – que incluem mesmo estudos arqueoló-gicos profundos – continuam, não estando abertas ao público grande parte das instalações, enquanto outras se encontram em processo de renovação e reconstrução. Mesmo assim, ao longo de duas horas, to-da a riqueza passada que Tibães encerrou pode ser imaginada – essas duas horas, valeram por uma lição de história, mas também de vida.
Depois de Tibães, já sol-posto, lugar às vias rápidas de ligação à cos-ta, onde as forças iroam ser garantidamente recuperadas, com o som das vagas a rebentarem na areia de Ofir.

Texto: Hélio Rodrigues
Fotos: Clube Escape Livre, C. Santos e Hélio Rodrigues

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