De Trancoso a Mondim de Basto
Muitos são os Caminhos que levam a Santiago. Desde tempos ancestrais, milhares de peregrinos percorreram estradas milenares, hoje ainda assi-naladas. O mais conhecido é o Caminho Francês, que trazia os fiéis atra-vés dos Pirinéus. Em Portugal, não existe um caminho definido, mas vá-rios percursos, muitos deles esquecidos, outros que já não estão marca-dos. Trilhamos alguns deles, numa viagem longa, que se iniciou em Tran-coso e, em três etapas, nos levou a Santiago de Compostela.
Integrados na BMW X Experience, verdadeira peregrinação dos tem-pos modernos chancelada pelo Clube Escape Livre, da Guarda, fizémo-nos à estrada, numa manhã nevoenta de sábado. O pretexto era o mais simples possível: percorrer velhas rotas, por montes e vales, que outrora foram utilizadas pelos peregrinos, seguindo a fé que os levava até Santiago. Pelo caminho, havia que parar em miradouros, capelas, santuários, mosteiros, conventos, castelos – velhas casas que, por gerações, acolheram milhares desses peregrinos da fé. E que, ainda hoje, em alguns locais continuam a acolher.
Trancoso, cidade ventosa
A escolha de Trancoso como ponto de partida não foi inocente. Jovem cidade, foi o ponto de passagem de milhares de peregrinos ao longo dos séculos, que demandavam o caminho do Sudeste, oriundos da Guarda ou de Figueira de Castelo Rodrigo. As estradas levavam-nos então a percorrer uma rota com passagem no Santuário da Senhora da Lapa, pela serra em direcção a Lamego, Vila Real e Chaves, antes de entrarem na Galiza, rumo a Verín. Aqui, encontravam-se com os peregrinos da antiga rota da Via Romana da Prata, que os trazia de Sevilla, Mérida, Zamora, Cáceres ou Salamanca. Então juntos, prosse-guiam viagem até Santiago.
Em Trancoso, entre os locais de visita imperdível, para lá do bem pre-servado centro histórico, do castelo e das suas muralhas, o destaque vai para as igrejas paroquiais de Santa Maria e de S. Pedro, a Igreja da Misericórdia, a Casa dos Arcos (Séc. XVI), a Casa do Gato Preto e o Pelourinho manuelino. No exterior das muralhas do castelo encontram-se a Fonte Nova, as capelas de S. Bartolomeu, exemplar barroco, do Senhor da Calçada e de Santa Eufémia, a Igreja da Senhora da Fresta e o antigo Convento dos Frades Franciscanos, que hoje aloja o Audi-tório Municipal. Um conjunto de 17 sepulturas medievais antropomór-ficas escavadas na rocha e a antiga nascente do rio Távora, merecem uma pausa para reflexão.
Mas Trancoso é também um sítio de lendas. Desde a do sapateiro e filósofo Bandarra, considerado o Nostradamus português, à do Padre Francisco Costa, que fez 299 filhos em 53 diferentes mulheres, inclu-indo a sua mãe, afilhadas, comadres, amas, escravas, uma tia e irmãs, tendo sido safo da fogueira eminente pelo próprio rei, que o conside-rou um exemplo de… povoador (!!!), muitas velhas histórias podem viver-se ainda hoje na cidade-castelo, cuja visita é sempre obrigatória.
Expiar os pecados nos escuros rochedos do Santuário da Lapa
Do velho Caminho do Sudeste, cumprimos a parte que nos levou à aldeia da Lapa e ao seu Santuário, em honra de Nossa Senhora. O nevoeiro mal nos deixou ver os telhados vermelhos de Sernancelhe desde o alto da Serra da Lapa, junto à capela de Nossa Senhora ao Pé da Cruz, encerrado e vazio, rodeado de estátuas pétreas em forma de Via Sacra. Depois, foi rumar, por trilhos nunca por nós antes navega-dos, em direcção à aldeia da Lapa, local de forte peregrinação e cuja história terá começado na lenda da pastora Joana, pequena muda que começou a falar depois de ter encontrado com uma imagem da santa.
O lugar, incluído no Roteiro das Aldeias de Portugal, foi berço de Aqui-lino Ribeiro, que o chamou de Terras do Demo: selvagem, brutal, vida plena e natural; a paisagem é fria, intensa, recorta nos corações e nos olhares pedaços de coragem e intensidade quase desumana. Perto, o caminho que leva à nascente do rio Vouga. Mas, no átrio cortado pelo vento gelado dessa manhã, o destaque vai para o Santuário de Nossa Senhora da Lapa e o Colégio, ambos construídos pela ordem dos Je-suítas, no seu afã de aproveitar o culto da pastora Joana para promo-ver a fé. Hoje, é um local de romaria e de turismo, onde a procura dos produtos típicos da aldeia, só por si, merecem uma visita lenta e curio-sa.
Depois de expiados os nossos pecados (com excepção da gula), no templo erguido a partir de um penedo de granito, espremendo-nos por entre a massa natural da pedra da montanha; depois de olhado o sar-dão da Lapa, hoje em fibra de vidro, mas cujo mítico ataque à mulher que caminhava na estrada e o asfixiou atirando-lhe novelos de lá que, guloso, vorazmente engoliu, ainda perdura na memória das gentes do lugar; depois de pausas sentidas frente ao altar da Virgem Adormecida e do Menino da Lapa; foi tempo de retemperar o estômago com o tra-dicional pão alvo, o queijo da Lapa e os bolinhos de castanha. E ala que se faz tarde – ficando a recordação deste santuário petrificado num desvio da estrada, para lá dos castanheiros, onde os soldados que rumavam a França, na Primeira Guerra, vinham pedir protecção virginal.
A grandeza de São João de Tarouca
O mais antigo mosteiro cisterciense português, de São João de Tarou-ca, surge aos nossos olhos na estrada a descer, na encosta da serra de Leomil, bem lá em baixo – enorme, imponente na sua nudez des-ventrada, pois só uma pequena parte do conjunto edificado está em sofrível estado de conservação.
Construído junto ao rio Varosa, em resultado de, é claro, mais uma lenda, este mosteiro teve concessão iniciada em 1140, como recom-pensa aos frades de Cister pela vitória sobre os mouros, na batalha de Trancoso. A primeira pedra da igreja conventual foi lançada em 1152 e a sua construção terminou 17 anos mais tarde. Até ao séc. XIII, foi um dos mais ricos e imponentes mosteiros cistercienses de Portugal, até cair em declínio a partir de 1834, quando foram extintas as ordens religiosas. Os edifícios conventuais foram ruindo, mantendo-se hoje em pé apenas a igreja, de arquitectura românica e gótica.
A sua fachada foi muito alterada no séc. XVII e o interior é austero, com a sacristia revestida em azulejo e os altares em talha dourada. Algum do património original ainda pode ser apreciado nas imediações do mosteiro, como as capelas de Santa Umbelina e de Santo António. Classificado como Monumento Nacional em 1956, a partir de 1996 têm sido desenvolvidas diversas acções de restauro e conservação do a-cervo monumental do mosteiro, um dos mais significativos conjuntos da arquitectura cisterciense existentes em Portugal.
Ucanha, a terra do monge que pedia
Já a caminho de Lamego, serra das Meadas acima, fomos traçando percursos entre as urzes e os castanheiros. A paragem em Ucanha, cuja ponte e torre foram classificados como Monumento Nacional em 1910, é obrigatória. Estaciona-se no largo exterior da povoação e continua-se a pé. O casario de pedra é lá em baixo – junto ao rio Va-rosa, cujas águas espelham os desenhos da nossa infância, com os salgueiros mergulhados e as margens verdes e imóveis.
A ponte é de pedra, corcovada a meio e dá para a torre fortificada, e-xemplar único na Península Ibérica. Por aqui passavam os peregrinos que demandavam o mosteiro de Salzedas, a caminho de Santiago. Eram os únicos que estavam isentos do pagamento de direitos de portagem, para entrar na aldeia de rua única e dezenas de caminhos transversais, que dão para os terrenos de cultivo e as vinhas. Todas as outras pessoas e mercadorias não passavam sem pagar ao monge portageiro a conveniente taxa, que ia direitinha para os cofres do mos-teiro – e que foi abolida por decreto régio, no séc. XVI. A ponte já e-xiste desde no séc. XII, mas a torre foi edificada pelos monges de Salzedas, para que, quando o bispo de Lamego chegava de visita, o abade local mantivesse uma situação de superioridade.
Ucanha é uma aldeia pequena, lançada nas encostas viçosas de vinhe-dos e castanheiros, com casas com varandas de madeira pintadas de cores vivas, como azul, lilás ou verde. Foi vila e sede de concelho até 1836, quando foi anexado ao concelho de Mondim da Beira. Além da torre e da ponte, merecem visita o Pelourinho, do séc. XVII, a Igreja Matriz de São João Evangelista, com um interior rico em talha dourada e caixotões pintados no tecto; e as ruínas românicas, situadas no local da Abadia Velha – onde hoje se encontram as conhecidas Caves da Murganheira.
A caminho da Senhora da Graça
Visitada Ucanha, é tempo de partir. Lalim é o povo a seguir, a merecer uma paragem. Vila rica em testemunhos históricos e monumentos, re-za a lenda da sua fundação que o terá sido por obra do régulo de La-mego, de seu nome Ibnehuim. Hoje, tem cerca de um milhar de habi-tantes e salpica as encostas de casario branco e de pedra, rematado por vinhedos; nos arredores, os moinhos de água nas margens do rio Barosela e o Parque Mãe Natureza, um lugar de lazer e reunião com a terra-mãe, como há poucos.
O almoço foi com o Douro vinhateiro à vista. Lamego é ponto de refe-rência ancestral para os peregrinos, que viam na localidade porto de abrigo das intempéries e de descanso. Cruzamento de vias e cami-nhos, Lamego é desde tempos medievos terra de votos de Santiago. Ponto de visita obrigatória é o Santuário de Nossa Senhora dos Re-médios, vigilante no alto dos 686 degraus do imponente Escadório, com patamares de decoração diferente, amenizando assim a crueza das peregrinações.
Depois de Lamego, os peregrinos usavam as terras de Mesão Frio, as curvas dos seus estreitos caminhos rodeados de vinhas e de pedras húmidas, como estrada de saída. Foi aqui, nestas paisagens verdejan-tes e prenhes de vinhedos escorrendo pelas encostas até ao Douro profundo, que as primeiras estalagens e os primeiros albergues foram construídos. Muitos deles funcionavam, na zona de Mesão Frio, como hospedaria e hospital, facto que o cansaço dos peregrinos tanto apre-ciava. Mas, antes disso, a região foi também zona de passagem para as legiões romanas, existindo ainda diversas estradas dessa altura, em boas condições de conservação. Miradouros e marcos pombalinos, colocados pelos proprietários nos seus terrenos classificados como imóvel de interesse público, povoam as terras frutuosas, onde hoje as quintas de enoturismo são um bom sinal dos tempos e da recuperação de um património cultural, paisagístico e gastronómico ímpar. Nos arre-dores de Mesão Frio existe um caminho pedestre de 12 quilómetros, que é percorrido pelos actuais peregrinos em sinal de arrependimento, utilizando veredas de antanho e buscando ermidas perdidas nos mon-tes e velhos trilhos de montanha.
O próximo desafio é formado pelas serras do Marão e do Alvão, esta uma massa granítica cortada pela cascata longa e que traz o nome de Fisgas do Ermelo. São 200 metros de desnível, borbulhando de águas selvagens, que ao longo de milénios tiveram funções terapêuticas. A montante das quedas, existem belas e misteriosas lagoas, hoje muito procuradas no Verão pela frescura e limpidez das suas águas.
Atravessar a serra, por veredas de castanheiros e sobre um manto de ouriços abertos e macios, é uma tarefa bonita de se fazer. Manadas de bovinos e cavalos surgem aqui e ali. O cantar dos pássaros frui das copas altas e verdes. Paz; prazer.
De repente, o horizonte é rasgado pelo perfil imponente e altaneiro do Monte Farinha. É o maior miradouro das terras de Basto – 947 metros, coroados com a ermida da Senhora da Graça, onde outrora, antes dos romanos, existiu a cidade de Cinínia, capital da tribo dos Tamecanos. Lá no alto, vista assim de longe, parece um refúgio inenarrável e im-possível, ninho de águias feito em pedra, no remate da estrada em caracol, ao longo da encosta montanhosa. Um centro de apoio aos peregrinos e romeiros encontra-se no cume, mas o Monte Farinha, início da cordilheira do Alvão, esconde também vestígios arqueológicos, caminhos e veredas estranhas e imperdíveis.
Perto, na estrada que todos os anos é percorrida pela caravana da Volta a Portugal em Bicicleta, fica Mondim de Basto. Vila rica em pai-sagens de cascatas e águas límpidas, trilhos, caminhos e pontes me-dievais, o seu património arquitectural é, também ele, rico e variado, com destaque para a Igreja Matriz de São Cristóvão e a Capela do Senhor. Ainda mais perto, virado para a escuridão insondável do vale do Tâmega, lá em baixo, fica o nosso ponto de repouso, sereno mira-douro moderno, encaixado entre a imensidão do Monte Farinha, en-cerrando de um lado o horizonte, e a beleza selvagem do rio que, dali, não se vê, mas se ouve bem.
Texto: Hélio Rodrigues
Fotos: Clube Escape Livre, C. Santos e Hélio Rodrigues





























Vocês organizam passeios ?
Têm todo o terreno(jipes) para alugar?
Podem fornecerem-me datas dos eventos?
Desde já os meus agradecimentos.
Boa tarde.
Não, o AutoanDRIVE não organiza eventos nem passeios de TT. Apenas os divulgamos. Se quer saber datas dos eventos organziados pelo Clube Escape LIvre, basta ir ao website do Clube, http://www.escapelivre.com
Abraços
Hélio Rodrigues
Este evento foi espetacular e revela o nosso património escondido e que em geral se encontra fora do alcance da generalidade dos portugueses,