O último herói italiano
De origens humildes, Lorenzo Bandini subiu a escada toda, a pulso, até atingir o cume chamado Fórmula 1 – e, para mais, como piloto oficial da equipa Ferrari. Dilecto do Comendador, a sua morte, no GP do Mónaco, foi um paradoxo: depois do acidente, a pista do Principado tornou-se na mais segura da F1.
Em 1966, o sonho foi finalmente realizado: Lorenzo Bandini tornou-se o líder incontestado da equipa Ferrari, substituindo John Surtees. Na marca do “cavallino rampante” desde 1962, Bandini foi uma das esco-lhas mais sentimentais do próprio “comendatore” Enzo, que não con-tratava pilotos italianos para as fileiras da sua equipa, desde o terrível acidente protagonizado pelo marquês Alfonso de Portago, ao volante do Ferrari 335 S nº 531, nas Mille Miglia, em 1957. Nesse acidente, morreram nove espectadores e Enzo Ferrari assistiu, com horror, ao sofrimento das crianças estendidas no solo, feridas de morte pela mesma paixão que os unia: a velocidade, a Ferrari. Então, tomou a decisão de nunca mais contratar um piloto nascido na sua terra, para a sua querida equipa. Mas, com Lorenzo Bandini, abriu uma excepção.
Subir a escada
Lorenzo Bandini não teve uma vida fácil. Nasceu na cidade cirenaica de Barce, hoje na Líbia, então uma colónia italiana. Os seus pais regres-saram ao continente, quatro anos mais tarde, estabelecendo-se perto de Florença. Porém, com apenas 15 anos, o jovem Lorenzo ficou órfão de pai e teve que fazer pela vida mais cedo do que esperava. Abandonou a casa paterna e viajou até Milão, encontrando emprego como aprendiz de mecânico, numa oficina chamada Freddi. Aí, tomou contacto pela primeira vez com o desporto motorizado – e até começar a correr, foi um pequeno passo. Como tantos outros pilotos da sua geração, Bandini iniciou-se pelas duas rodas, antes de se estrear nos automóveis, em 1957, com um FIAT 1100, preparado e assistido pelo patrão.
Depressa se percebeu que era um jovem cheio de talento. Logo em 1958, com um Lancia Appia Zagato, venceu a sua classe nas Mille Miglia. Até 1961, participou em várias corridas e campeonatos de Fór-mula Júnior, ao volante de chassis Volpini e Stanguellini – depois do terceiro lugar na prova de estreia em monolugares, em 1959, na Sicília, Bandini terminou em 4º lugar o Campeonato do Mundo de Fórmula Júnior, no ano seguinte. Aio mesmo tempo, seguia coleccionando triunfos e sucessos em carros de Turismo e de Sport, como a vitória à classe com um Berkeley de 500cc, nas 12 Horas de Monza, em 1958.
Por isso, com tamanho talento, a sua chegada à F1 era apenas uma questão de tempo. Em 1961, desiludido com o facto de não ter sido escolhido pela Scuderia para o seu projecto de apoio a jovens pilotos – foi escolhido Giancarlo Baghetti, que venceu a sua primeira prova oficial com a Ferrari, na F1! – Bandini acabou por aceitar um convite endereçado por Mimo Dei, da Scuderia Centro Sud, para correr na F1. Primeiro, em corridas extra-campeonato: no GP de Pau, foi terceiro. Depois, estreou-se no Mundial, no GP da Bélgica, na temível pista de Spa-Francorchampos, abandonando com um problema mecânico.
No final de 1961, a Ferrari, ganhou o campeonato do Mundo, com Phil Hill, mas perdeu um dos seus grandes pilotos, o conde Wolfgang von Trips, em Monza. Após muitas hesitações, o “comendatore”, impres-sionado com o talento, mas principalmente com a humildade e a capa-cidade de trabalho de Bandini, contratou-o para a Scuderia. Em 1962, no GP do Mónaco, a sua prova de estreia como piloto de fábrica, Bandi-ni classificou-se em terceiro.
Em 1963, sem lugar na equipa de F1, Bandini foi uma vez mais ajudado por Mino Dei, que lhe deu um BRM para fazer a temporada, depois de despedir Graham Hill. Mas, ao mesmo tempo, Bandini continuou a cor-rer em provas de Sport com a Ferrari. E, claro está, com sucesso: nes-se ano, fazendo equipa com Ludovico Scarfiotti, venceu as 24 Horas de Le Mans; em 1965, ganhou o Targa Florio e, em 1967, meses antes de morrer, teve tempo e arte para inscrever o seu nome no Álbum de Ou-ro das 24 Horas de Daytona.
Lorenzo Bandini regressou à equipa de F1 da Ferrari em 1964, tendo ajudado John Surtees a sagrar-se Campeão do Mundo. Nesse ano, conquistou a primeira e única vitória na F1, no GP da Áustria, em Zelt-weg. Bandini foi promovido a primeiro piloto da Scuderia a meio da época de 1966, quando Surtees subitamente decidiu abandonar a equipa.
A relação entre Enzo Ferrari e Lorenzo Bandini foi sempre muito inten-sa. Casado com Margherita em 1963, Lorenzo vivia em Maranello, per-to da fábrica da Ferrari e geria a oficina de mecânica dos pais da sua esposa. Era frequente o casal ser convidado para a moradia do “co-mendatore”, fazendo mesmo vida social intensa com a família Ferrari, composta na altura pela esposa de Enzo, Lina, e pelo filho Piero. Cho-cado com a sua morte, o “comendatore” apenas muito tempo depois se deixou aproximar de outro mito: Gilles Villeneuve, o “pequeno prín-cipe”, que comparava ao monstro sagrado, Tazuo Nuvolari.
Morte por cansaço
Na década de 60 – e ainda pior antes! – as corridas de F1 eram cansa-tivas. No Mónaco, especialmente, eram necessárias mais de duas ho-ras para cumprir a centena de voltas ao traçado tortuoso, rodeado por barreiras compostas por fardos de feno e pneus soltos. Os “rails”, quando existiam, eram pouco mais que rudimentares e mal colocados; o que mais havia, eram pináculos em cimento, cravados no asfalto ou, quando muito, nos passeios. E não eram montados para as corridas – estavam ali sempre, pois a pista era feita nas ruas, como hoje. Mas, ao contrário de hoje, não eram objecto de grandes alterações: corria-se nelas como estavam, ou pouco mais. Tudo isso em conjunto, resultou fatal para Lorenzo Bandini.
O GP do Mónaco de 1967 estava a chegar ao fim. Em segundo atrás de Denny Hulme, Bandini nunca teve um minuto de descanso, rodando sempre a fundo, procurando alcançar o seu adversário. Ao volante há mais de duas horas, sob um sol quente de final de Pirmavera, mesmo assim forçou o andamento, convicto de que poderia ultrapassar o neo-zelandês. Na 82ª das 100 voltas da corrida, Bandini aproximou-se da chicane a seguir ao Túnel, então muito estreita. Calculou mal a distân-cia e o Ferrari tocou ao de leve nas protecções laterais. Descontrolado, acabou por embater com violência do outro lado da pista, imobilizando-se quase a cair para o mar, no meio dos fardos de feno e das ténues barreiras de protecção. Imobilizado com as rodas para o ar, o Ferrari incendiou-se, mas a corrida não foi parada. Os carros continuaram a passar velozes, enquanto os comissários e os bombeiros tentavam extinguir o incêndio provocado pela explosão do cano de escape e, mais tarde, do deposito de combustível, e extrair o piloto dos destro-ços carbonizados e fumegantes.
Com queimaduras de terceiro grau em mais de 70% do corpo, Bandini agonizou durante três dias no hospital, não conseguindo resistir às queimaduras provocadas pelo fogo e à inalação de gases tóxicos. Ao saber da sua morte, a sua esposa, Margherita, que estava à espera do primeiro filho do casal, sofreu um ataque de ansiedade quase fatal. No seu funeral, no dia seguinte, participaram mais de 100 mil pessoas, o que demonstra bem o carinho que as multidões lhe votavam.
Depois desta prova, os fardos de feno foram proibidos nos circuitos de F1. Sensibilizados com a horrível morte de Lorenzo Bandini, a família real monegasca tudo fez para tornar o GP do Mónaco a prova mais segura do calendário de F1. Isso foi conseguido – nunca mais ninguém teve um acidente fatal no Mónaco, mesmo na terrível década de 70, quando correr na F1 era um mister tão perigoso que em cada ano que passou, pelo menos um piloto perdeu a vida numa qualquer pista, um pouco por todo o Mundo.
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