Ilustre (quase) desconhecido
Piers Courage morreu fez 40 anos no dia 21 de Junho. Tinha 28 anos e rejeitara havia poucos meses um convite para pilotar para a Ferrari. Mais que as suas qualidades, ficou na memória colectiva o horror do seu aci-dente em Zandvoort e ser herdeiro das cervejas com o mesmo nome.
Piers Raymond Courage nasceu em Colchester, filho mais velho e her-deiro do dono das cervejas Courage, uma dinastia então com largos pergaminhos no país – bem como uma fortuna milionária associada. Educado nos melhores colégios, como o Etton College, tinha tudo para desejar e possuir o que de melhor a vida podia dar. E fê-lo: muito ce-do, sentiu despertar em si a paixão pela adrenalina, alimentada ainda por cima pelo facto de o seu pai possuir um Lotus Seven. Ao volante do qual, claro está, o jovem Piers assinou as suas primeiras participa-ções em corridas. Nada de mais, excepto o facto de, na maior parte das ve-zes, ficar às aranhas na pista, depois de um bom par de piões…
Talento escondido
Mas o talento estava lá – escondido ainda, mas estava. E a prova dis-so teve-a em 1964, quando, em equipa com Jonathan Williams, conse-guiu os primeiros bons resultados, com um Lotus 22 de F3. O ano se-guinte, 1965, revelou-se como o mais importante da sua vida de pilo-to: encorajado para uma carreira internacional, Piers entrou para a equipa de Charles Lucas, correndo com um Brabham de F3. O seu co-lega de equipa – e ocasionalmente também o mecânico – era um tal Frank Williams. Entre os dois homens, estabeleceu-se uma ligação que, com os anos, se foi tornado cada vez mais forte. O futuro funda-dor da equipa Williams tornou-se num fã incondicional do talento de-monstrado por Piers Courage e, ao longo dos anos seguintes, foi ele quem sempre o apoiou e, inclusivamente, criou uma estrutura de pro-pósito para o levar até à F1, onde acreditava que o amigo tinha lugar.
Os resultados conquistados por Courage atraíram as atenções de Co-lin Chapman, que decidiu entregar-lhe um dos seus carros para a tem-porada de F3 de 1966. Nesse ano, os Lotus eram inferiores aos Bra-bham, mas o jovem britânico conseguiu algumas performances dignas de registo – o suficiente para se inscrever e participar no GP da Alema-nha de F1, em Nurburgring, ao volante de um monolugar de F2. A sua passagem foi efémera, pois desistiu após um acidente.
E foi esta propensão fatídica para os acidentes que quase colocou um ponto final na sua carreira, mal ela tinha começado. Corajoso e sempre acreditando para lá dos seus limites e da máquina que pilotava, Piers Courage era um virtuoso. Que, contudo, não conseguia manter-se frio em situações mais exigentes – para desespero dos seus directores de equipa.
Em 1967, Courage assinou com a equipa de fábrica de BRM, para cum-prir a temporada completa de F1. A seu lado, tinha outro britânico, Chris Irwin, também um talento emergente. Porém, em tantos aciden-tes se envolveu, alguns deles em momentos cruciais das corridas, que a BRM despediu-o liminarmente, após o Grande Prémio do Mónaco. Sem alternativa, Courage fez o resto do ano como piloto de reserva de John Coombs, no campeonato de F2. Alguns bons resultados garanti-ram-lhe o 4º lugar no final do ano, altura em que decidiu comprar o McLaren M4A, para participar na temporada dos antípodas de Fórmula Tasman. E foi aqui que a sua carreira foi relançada, em especial após uma brilhante vitória na última corrida: impressionado, Reg Parnell propôs-lhe um contrato para o Mundial de F1 de 1968, ao volante de um dos seus BRM P126; sem hesitar, Courage aceitou.
Ao volante do BRM de Parnell, Courage conseguiu alguns resultados interessantes, como o 6º lugar no GP de França e, em especial, o 4º lugar em Monza, palco do GP de Itália. Ao mesmo tempo, retomou a sua ligação com Frank Williams, que tinha percebido que a sua vocação era como dono de uma equipa e não como piloto. Courage participou em quase toda a temporada de F2, com um dos carros do amigo.
No ano seguinte, quando Williams decidiu dar o salto para a F1, com a Frank Williams Racing Cars, a escolha mais óbvia para piloto foi Piers Courage. Com o Brabham BT26 azul-escuro do seu amigo e protector, fez maravilhas, conseguindo muitas vezes classificações superiores aos carros da equipa oficial.
Em termos de resultados, o destaque tem que ser os 2º lugares con-quistados nos GP do Mónaco e dos Estados Unidos, na infame pista de Watkins Glen. Mas o ponto alto da sua temporada foi, indiscutivel-mente, o GP da Itália, em Monza, a rapidíssima pista que parecia ser tanto do seu agrado. Mesmo ao volante de um carro mais antigo, Courage manteve-se sempre em luta pelo comando, até que, perto do final, um problema com a pressão de óleo o levou a moderar o ritmo – mesmo assim, ainda conseguiu ser 5º classificado. No final do ano, terminou o Mundial em 8º lugar, com os 16 pontos – os dois pódios, mais dois 5º lugares, acrescentando-se ao de Monza o conquistado em Silverstone, palco do “seu” GP.
O fim antes da glória
Em 1970, Frank Williams decidiu dar uma prenda ao seu amigo. Parcei-ro de negócios com o argentino Alessandro De Tomaso, conseguiu, no seguimento de um acordo estranho, que o sul-americano lhe cedesse um dos seus ainda frescos chassis De Tomaso 505, para participar na temporada de F1 de 1970.
O carro foi um fiasco – e, além da carreira, terminou com a vida de Piers Courage. O chassis era feito, entre outras coisas, de magnésio – o que tornava o carro demasiado pesado e completamente inguiável. Mesmo assim, Piers ainda conseguiu subir ao pódio, graças ao 3º lugar no International Trophy, corrida extra-campeonato que se realizava antes da temporada europeia ter início.
Com o De Tomaso 505, participou em quatro provas – desistiu em três delas e, no Mónaco, não conseguiu classificar-se, apesar de ter chega-do ao fim. Em Espanha, não chegou sequer a partir. Mas o pior suce-deu em Zandvoort, palco do GP da Holanda, a 5ª prova do ano.
Excelente 9º nos treinos, Courage partiu embalado pela sensação de que as coisas estavam a melhorar. Integrado no meio do pelotão, su-bitamente perdeu o controlo do De Tomaso, numa curva rápida, emba-tendo na barreira lateral, que projectou o carro numa volta completa sobre si mesmo, aterrando de rodas para o ar e pegando fogo. O magnésio do chassis foi alimento para as chamas desenfreadas, que chegaram a chamuscar as árvores mais próximas da pista. As inves-tigações concluiram que o piloto morreu antes das chamas terem início, pois o seu capacete mostrava a marca de um forte impacto frontal com uma roda, que se terá destacado do chassis durante um dos embates.
Aos 28 anos, Piers Courage acabou por perder a vida num acidente, provocado, tudo o indica, pela areia atirada pelo vento a partir das du-nas que ladeavam a pista holandesa, situada próximo da praia. Foi um triste fim para uma carreira que se previa promissora: antes da tempo-rada de 1970 começar, tinha recebido uma irrecusável proposta da Ferrari para correr na F1. Porém, Courage não a aceitou, pois a lem-brança do que a Scuderia tinha feito, dois anos antes, ao seu amigo e também muito promissor Jonathan Williams, levou-o a continuar fiel a Frank Williams. Uma decisão fatal. Três anos mais tarde, exactamente na mesma curva, pelos mesmos motivos e dentro de um carro consu-mido pelas chamas, perdeu a vida outra jovem esperança britânica da F1: Roger Williamson. A partir daí, a pista de Zandvoort foi banida da F1; objecto de prolongadas e profundas alterações, reabriu mais tar-de, mas com um traçado diferente e mais curto.

