Avião mas pouco
A Messerschmitt foi um dos mais importantes fabricantes de material bé-lico, na Alemanha, durante a Segunda Guerra Mundial. Em especial, de a-viões de combate. Após o fim do conflito, sem encomendas, a falência e o desmantelamento eram a saída mais óbvia. Até que alguém teve a lumi-nosa ideia de salvar a Messerschmitt – construindo automóveis.
Automóveis? Bem, a palavra talvez seja um pouco exagerada. Aquilo que o engenheiro aeronáutico Fritz Fend fez mais parece uma bolha com rodas. Mais exactamente, três pequenas rodas, de 8” cada – duas à frente e uma atrás – sob um recipiente tipo charuto, encimado por uma cobertura de acrílico transparente, que abria como a carlinga de um caça. Aliás, olhando para a estrutura da engenhoca, tudo fazia lembrar a cabina de um Messerschmitt Me 109 – o caça alemão mais famoso da Segunda Grande Guerra; por isso, Fend chamou-lhe Kabi-nenroller, o KR incluído no nome do pequeno carro.
Mas é apenas isso: a semelhança com o famoso caça construído pela fábrica de material de guerra e que tanto deu que fazer à Força Aérea aliada. De resto, é mais um carro-bolha, minimalista, à imagem do que aquela época exigia: sem matéria-prima, sem dinheiro para mais, ma-ior e melhor, mas com necessidades prementes de deslocação, havia que dar asas à imaginação, para conceber maneiras práticas e baratas de a população se deslocar. Na Itália, nasceu o Isetta; na Alemanha, a BMW pegou no formato italiano e fez nascer um carrinho idêntico. A Goggomobil também foi na mesma onda. Diferente, apenas o Messer-schmitt. Há uns meses, encontrámo-nos com um deles, na II Rampa da Foz do Arelho e ficámos abismados com a simplicidade e… simpatia inata do carrinho.
Primeiro estranha-se…
… Depois, continua a estranhar-se, mas já nada nos pode fazer mudar de ideias: o Messerschmitt é único. E, além disso, ternurento – entra-nha-se, tal como a conhecida beberagem do capitalismo…
Ironias à parte, sempre vamos dizendo que o primeiro Messerschmitt foi o KR 175. Começou a ser desenvolvido por Fend em 1952 e, no ano seguinte, o primeiro exemplar enfrentou as estradas germânicas.
O KR 175 era um veículo inusitado. Autor de um curioso triciclo monolu-gar – o Fend Flitzer – o engenheiro aeronáutico aproveitou os ensina-mentos retirados para conceber o primeiro Messerschmitt. A carroçaria monocoque era em aço, fusiforme, com as já referidas três rodas, dois lugares em forma de tandem – um atrás do outro, por questões de es-paço, sendo o segundo maior, para acolher um adulto e uma criança! – e uma cobertura transparente, que se abria na totalidade para um dos lados, ficando presa por cabos, permitindo assim o acesso ao interior do KR 175. É preciso referir que, ao contrário do que muitos pensam e acreditam, nada existente no KR 175 era material que restava dos antigos aviões de combate; até mesmo a capota em plástico foi feita de propósito para o veículo.
Mas é preciso dizer também outra coisa: em época de crise, não se podia exigir que houvesse qualidade naquilo que se fazia; carácter prático, isso sim – qualidade, não. Por isso, o Messerschmitt KR 175 era uma coisa estranha, espartana e sem luxos.
Na frente do KR 175, destacavam-se os dois faróis redondos, coloca-dos no alto do inclinado “capot” dianteiro; os guarda-lamas salientes; a linha de cintura estreita e afilada, que culminava numa traseira se-melhante a uma moto. Media 2,82 metros de comprimento e tinha a mesma altura e largura – 1,22 metros. O peso, esse, era inferior a uma moto de alta cilindrada, na ordem dos 210 quilos.
O interior era o mais simples possível. Não tinha volante – apenas um guiador semelhante a uma bicicleta… ou à manche de comando de um avião. Era directamente ligado às rodas da frente e bastava apenas ¾ de uma volta para ir de um lado ao outro. Os mostradores do “painel” de instrumentos eram do mais rudimentar: num lado, um relógio; no outro, o velocímetro; ao meio, um adorno cromado.
Porta-bagagens também não existia – apenas um pequeno espaço, por trás do segundo banco, que permitia acolher o essencial.
O motor estava colocado na traseira do KR 175. Trava-se de um Fichtel & Sachs, de um único cilindro, a dois tempos, refrigerado a ar, com 175 cc e 9 cv de potência. O seu ruído asmático, aliado a uma fumarada azul, eram outra das “imagens de marca” do KR 175. Um litro de ga-solina dava para fazer cerca de 40 quilómetros, o que o tornava num veículo bastante económico.
O KR 175 tinha uma caixa de velocidades com quatro relações, com a embraiagem accionada por manete; não possuía marcha-atrás e o arranque era feito por meio de um pedal. Tudo, como nas motos…
Mesmo com estas limitações, o Messerschmitt KR 175 era um veículo divertido. Muito bem equilibrado, graças à boa distribuição de pesos entre os eixos, era seguro e fácil de conduzir. A sua velocidade máxima atingia os 78 km/h. Porém, o facto de o habitáculo ser dentro de uma bolha de vidro, tornava a visão um pouco… turva, enquanto a sensa-ção de claustrofobia era atenuada com a abertura lateral das janelas.
KR 200: maior e melhor
Em 1955, o KR 175 deu lugar ao KR 200. O aspecto manteve-se basi-camente inalterado, com excepção de alguns pormenores, que torna-ram um pouco mais atraente e harmonioso o veículo: o pára-brisas passou a ser envolvente e a incluir limpa-vidros eléctricos (em vez dos anteriores, manuais!) e a via dianteira ficou mais larga. O que, asso-ciado aos amortecedores hidráulicos nas três rodas, bem como a sus-pensão traseira redesenhada e novos apoios do motor, tornou mais estável o pequeno carro. Porém, as principais evoluções foram mecâni-cas. Assim, o motor passou a ter 197 cc e 10 cv de potência, permitin-do alcançar uns estonteantes 90 km/h. O pedal de embraiagem entrou na lista de “equipamento de série” e passou a ter marcha-atrás. Per-dão, quatro marchas para trás! Como? Muito simples: com o motor desligado, bastava carregar num botão situado junto ao interruptor de ignição, para inverter a ordem de funcionamento do motor – assim, ficava-se com quatro velocidades para a frente a outras tantas (as mesmas…) para trás!
O KR 200 deixou de ser produzido pela Mersserschmitt no final do ano de 1956 que, no ano seguinte, retomou o fabrico de aviões. A patente do KR 200 foi entregue a Fritz Fend, que mudou o nome da empresa para FMR – Fahrzeug und Maschinenbau Regesnburg. O KR 200 man-teve-se na linha de produção, mas agora com o nome KR 201, conti-nuando a ser comercializado nos primeiros anos da década de 60, incluindo versões como um Kabrio e um Roadster. Uma versão com 13 cv estabeleceu mesmo o recorde mundial de velocidade, para veículos até 250 cc, depois de 24 horas “non stop”, a uma média de 103 km/h.
Nesta altura, Fend já tinha construído outros modelos, mais evoluídos e com… quatro rodas. Um deles, foi o TG 500, com motor Sachs de 493 cc e 19 cv. Atingia os 125 km/h, mas custava o dobro do preço do KR 201. Na realidade, o TG 500, que ficou conhecido por Tiger, era um excelente desportivo, com performances dignas de modelos superiores – um dos seus principais adversários foi o… Austin-Healey Sprite. Deixou de ser fabricado em 1961. Três anos depois, a produção dos Messerschmitt foi definitivamente encerrada. Para a estatística, ficaram os números da produção destes micro-carros: 20 mil unidades do KR 175; 21 mil do KR 200/KR 201; e menos de 1000 do TG 500.
Texto: Hélio Rodrigues
Fotos: Ferodo Queimado, Hélio Rodrigues e Internet

gostei muito de rever este fenomeno que foi o ratao alemao… realmente o seu dono deve ter muita vaidade nesta preciosidade…parabens.. eu estou a reconstruir ,o Nobel 200 que tambem vem equipado com o motor sachs kr 200..este era fabricado en Inglaterra e na Argentina,mas com o nome de Bambi///