Velocidade com estilo
O título que escolhemos para esta recordação de Peter Revson é o mesmo que utilizou na sua autobiografia. E não podia ser melhor: herdeiro de uma rica família judia norte-americana, viveu o que de bom há na vida, rodeado por belas mulheres e sem problemas financeiros. E, para dourar mais essa vida de sonho, juntou a emoção e a adrenalina da pilotagem a alta veloci-dade, que trilhou com sucesso. E com ainda maior estilo.
Peter Jeffrey Revson nasceu em Nova Iorque, filho de Martin, um dos pilares da família Revson. O seu tio, Charles, fundou a indústria de cosméticos Revlon – que se tornou um império multimilionário – na altura da sua morte, a fortuna de Peter Revson estava avaliada em um bilião de dólares!
O seu estilo de “bon-vivant”, sempre feliz e de grande sorriso nos lábios, abraçado a belas mulheres – a última das quais, Marjorie Wallace, foi Miss Mundo e acompanhou-o nos últimos anos da sua vida, depois de o ter conhecido durante uma edição das 500 Milhas de Indianapolis, cidade onde tinha nascido – depressa cativou a minha mente sonhadora, de adolescente num velho liceu de província. Ele e Cévert foram, nos meus primeiros anos de paixão pela F1, os meus primeiros ídolos. Curiosamente, ambos ricos, famosos e talentosos, conheceram uma morte semelhante, com menos de seis meses de intervalo.
Os primeiros anos
O que leva um jovem com pouco mais de 20 anos, bacharel numa escola famosa norte-americana, de bom aspecto, carismático, inte-ligente, atrevido nos negócios, dono de uma vida de absoluto e literal “dolce far niente”, com um enxame de belas e descomprometidas mulheres a baterem à porta das escadas do seu barco de dez metros, um verdadeiro espírito livre dos inícios da de 60, a um dia atravessar o mar até ao Hawaii e começar aí uma nova vida, repleta de agitação, risco e perigo? Ele explica isso na sua autobiografia – mas fica sempre a dúvida: o perigo envolvente completa, ou faz parte da vida de um “playboy” nascido para viver?
Seja como for, talvez não tenha sido alheia a essa vontade, o facto de, entre os seus colegas na Universidade de Cornell, estar um tal Teddy Mayer – que já nessa altura respirava automóveis e, mais tarde, lhe deu o impulso que lhe faltava para o sucesso na Europa. Mas já lá vamos. Antes disso, convém referir que “Revvo” (ou “Revvie”, como era conhecido) se estreou em 1960, como membro do Associated Sports Car Club do Hawaii, correndo com um Morgan: segundo na prova de estreia, venceu a seguinte e, na terceira, foi proibido de correr! Motivo: era demasiado bom! Sem baixar os braços, participou numa prova de Fórmula Júnior com um Taraschi-FIAT, na Taça Vanderbilt e apenas foi 7º, porque ficou sem combustível…
Apresentadas as credenciais, Peter Revson regressou em 1961 ao continente – e tornou-se membro do Sport Car Club of America, começando a participar, ainda com o Morgan, em provas na costa Leste, terminando o campeonato em 4º, após diversos segundos lugares, mas sem nenhuma vitória.
Em 1962, começou a sua associação com Teddy Mayer. Formou a equi-pa Rev Em (Revson-Mayer Formula Júnior Team), que correu com um Cooper em diversas provas daquele campeonato. Umas vezes, era ele o piloto; noutras, o promissor irmão mais novo de Teddy, Timmy – que viria a morrer numa prova do campeonato da Tasmânia, dois anos mais tarde.
Saturado do ambiente, Peter Revson pegou em 12 mil dólares da sua herança e zarpou rumo à Europa. Aqui, correu no Campeonato de Fórmula Júnior, em pistas como Monte Carlo, Zolder, Enna-Pergusa (onde estabeleceu a melhor volta, a uma média de 210 km/h!) e Co-penhaga, onde venceu a sua primeira prova europeia, largando da “pole position”. Este ano representou também a sua estreia na F1, com um Lotus/BRM, terminando em 9º a Gold Cup, que teve lugar em Oulton Park.
O ano seguinte, 1964, foi o de viragem – a F1 a tempo inteiro e, de-pois, o enorme sucesso nos “States”.
Campeão nos “States”
Propositadamente afastado da F1 após uma primeira abordagem, com resultados aquém do esperado (vide capítulo seguinte), Peter Revson desdobrou o seu talento por alguns campeonatos de monolugares, como o Europeu de F2 mas, especialmente, nas pistas do seu país. Primeiro, no novo campeonato para “Sport Cars”, designado Can-Am. E mais tarde, sempre com o bichinho dos monolugares muito presente no seu horizonte, na Fórmula Indy.
Logo em 1965, Revson pilotou para a equipa oficial da Lotus na F2, dirigida por Rin Harris, terminando num excelente 2º lugar no velho e perigoso Nurburgring. Inda nesse ano, e na mesma equipa, venceu o GP do Mónaco de F3, antes de regressar aos Estados Unidos, partici-pando em corridas de Sport com um Brabham BT8.
Depois de um ano de 1966 em que coleccionou vitórias na categoria GT, partilhando um Ford GT40 com Skip Scott e ajudando com os seus resultados na conquista do título mundial para a Ford. Entre os cinco triunfos, estão os conseguidos em Spa e Sebring, resultando num terceiro lugar à geral em cada uma dessas provas.
Os três anos seguintes viram o talento de Peter Revson ser vitorio-samente repartido pelos campeonatos Can-Am (com um Ford MkII B) e Trans-Am (ao volante de um Lincoln/Mercury Cougar).
Ao mesmo tempo, Revson experimentou os monolugares do seu país, sentindo-se particularmente à vontade nas míticas Indy 500, onde rubricou a “pole position” em 1971, com um recorde que viria a durar 11 anos, depois de duas corridas anteriores (1969 e 1970), em que o que de melhor conseguiu foi o quinto lugar na estreia, um resultado espantoso para um “rookie”, ainda por cima largando do 32º lugar em 33 carros! A “pole” de 1971 permitiu-lhe terminar em segundo, com o McLaren M16/Offenhauser oficial.
Ainda em 1971, venceu o título na Can-Am, levando ao lugar mais alto do pódio o seu McLaren M8F/Chevrolet em Road Atlanta, Watkins Glen, Elkhart Lake, Brainerd e Laguna Seca e tornando-se no primeiro piloto norte-americano a sagra-se campeão na categoria. No final da tempo-rada, apareceu de novo o chamamento da F1 – fatal como o destino, aceitou o desafio.
Sucesso na F1
Depois da sua estreia em Oulton Park, em 1963, Peter Revson tentou a sorte na categoria maior do automobilismo mundial, a tempo inteiro. Inscrito pela equipa semi-oficial gerida por Reg e Tim Parnell, utilizou um Lotus 24/BRM e participou com ele em seis Grandes Prémios do Campeonato do Mundo, bem como em cinco provas extra-campeonato. Não foi muito feliz, nesta sua primeira abordagem à F1 – um 10º lugar em Spa foi a sua melhor qualificação e, em termos de resultados, o melhor que conseguiu foi ser 13º em Monza. Fora do campeonato, Revson terminou em 4º lugar em Solitude, depois de ter sido 6º em Enna.
Desiludido, concentrou-se então nas provas de “Sport cars” e Fórmula Indy, na América, regressando apenas à F1 sete anos mais tarde. Entusiasmado com os resultados conseguidos nos monolugares da Indy, Revson correu em Watkins Glen, no ano de 1971, com um Tyrrell.
No ano seguinte, decidiu correr a tempo inteiro, na equipa do seu amigo Teddy Mayer, a McLaren, equipa que geria desde a morte de Bruce, em 1970. Como colega tinha um ex-campeão do Mundo, Denny Hulme. No final do ano, foi 4º classificado, depois de um segundo lugar (Canadá, onde conquistou ainda a sua única “pole” na F1) e três terceiros lugares (África do Sul, Inglaterra e Áustria).
O ano da consagração foi o de 1973. Com um McLaren M19 bastante competitivo e fiável, Revson iniciou a temporada com o segundo lugar em Kyalami. Até final do ano, venceu duas corridas (Inglaterra e Cana-dá) e acabou classificado em 5º lugar, com 38 pontos.
Porém, o seu espírito aventureiro veio ao de cima e, ainda mal os mo-tores tinham arrefecido, decidiu trocar a vencedora McLaren e o seu amigo de escola, pela bem mais modesta Shadow. Na verdade, o peso dos dólares nos bolsos de outros pilotos falou mais alto nesta mudan-ça de rumo: apesar da sua fortuna pessoal, Revson foi batido pelo brasileiro Emerson Fittipaldi na corrida ao volante na equipa vermelha e branca; no final do ano, “Fitti” foi Campeão do Mundo e Peter estava morto.
O ano fatal
De facto, o resultado desta mudança não podia ter sido pior. O Shadow DN1 até era relativamente bem nascido e Peter Revson conseguiu dar nas vistas com um bom andamento nas duas primeiras provas do ano – na Argentina qualificou-se em quarto na grelha e, no Brasil, em sexto. Infelizmente, não terminou nenhuma das provas. Depois, voou para a Europa, classificando-se em sexto lugar na prova extra-campeonato de Brands Hatch. Logo de seguida, a Shadow chamou-o para testes em Kyalami, uma semana antes do Grande Prémio da África do Sul. Nessa manhã de 22 de Março, a suspensão do seu carro cedeu, atorando-o contra os “rails”, que despedaçaram o Shadow. Revson não sobreviveu á violência do acidente, no que foi um choque tremendo para a sua família, de que era o único herdeiro. E, para cúmulo, o seu irmão mais novo, Douglas, tinha já morrido num acidente similar, na Dinamarca, me 1967, aos 26 anos.
A passagem de Peter Revson pela F1 foi pouco mais que fugaz, mas com todos os ingredientes para um futuro radioso. Em 33 Grandes Prémios, venceu dois e subiu por oito vezes ao pódio, garantindo ainda 61 pontos. Tudo isto, em apenas duas temporadas completas e mais alguns “pozinhos” em 1964, 1971 e 1974, o ano fatal.

