Novos pedaços de luz e cor
Desengane-se quem pensa que conhece a Serra da Estrela, apenas porque já subiu até à Torre para comprar o famoso queijo e depois desceu ao Sa-bugueiro e aí escolheu um cãozinho de peluche para o filho. A Serra da Estrela é, felizmente, muito mais que isso. Descubra connosco alguns dos seus paraísos escondidos, num roteiro por trilhos incríveis, que começou na Guarda e terminou em Seia, com passagem pelas Penhas da Saúde, Unhais da Serra e Penhas Douradas.
Sábado, manhã ainda fresca, mas já com no cheiro do calor que se aproximava. Ainda com o mapa pontilhado de luz e espanto nos olhos mal despertos, assoberbados pela beleza apenas adivinhada do alto da Torre de Menagem, o ponto mais alto da Guarda (1056 metros), avançamos para a linha da partida do Desafio Turismo de Portugal 4×4. Dos homens do Clube Escape Livre recebemos o primeiro “road book”, onde estão assinalados os segredos para a primeira etapa de descoberta de outros segredos – os da Serra da Estrela. Rumo: Esta-lagem da Varanda dos Carqueijais. Mas, até lá chegarmos, temos a garantia de ir ao encontro de um admirável mundo novo cheio a abarrotar de cor, cheiros e, até, sabores. Comece já a surpreender-se.
A varanda da Estrela
A primeira nota a sério do “road book” é aquela que dá a primeira indicação para sairmos do asfalto, através do qual rodeamos a cidade da Guarda: são os primeiros trilhos, os primeiros caminhos selvagens que nos irão levar, por cima da Covilhã, à varanda situada a meio da encosta da Serra da Estrela. Até lá, paramos várias vezes – para cheirar o sabor a estevas que encharcava o ar, límpido como não se encontra na vida urbana; para saborear com olhares espantados o silêncio da distância, preenchido com o chilrear de pássaros escon-didos e a palete de um pintor sem assinatura conhecida, que se entreteve, com uma paixão desmedida, a retalhar cor a cor, a sua-vidade de montes e vales. O amarelo das giestas e dos piornos tanto davam lugar ao roxo dos rosmaninhos, como ao branco intenso das estevas.
Benespera e as suas casinhas brancas de telhas vermelhas, no vale de cores alegres e amarelas, lá em baixo. O vale mineiro da Vela, onde começa a Cova da Beira, com as suas quintinhas típicas e as casas de granito a descoberto. A aldeia do Seixo Amarelo, sobranceira à Ribeira do Seixo e ao vale do Zêzere, com os seus corta-fogos de pedra solta, serpenteando pela serra amarela das giestas. Depois, Valhelhas, lá no alto, olhando o rio grande, de um lado, e a ribeira de Famalicão, do outro, rodeada de loureiros e oliveiras.
O planalto de Sarzedo, com as suas matas de carvalhos e as hortas e pastagens que, no Inverno, ficam escondidas pela neve. Enfim, a si-nuosa e alcandorada Vila do Carvalho, pendente sobre o vale da Co-vilhã, foram alguns dos nomes que encontrámos pelos caminhos. Antes de passarmos pela Rosa Negra e entrarmos no asfalto final da rampa que sobe serra acima, rumo à Torre. Quanto a nós, ficámo-nos pela varanda que se debruça sobre a cidade, lá em baixo, e que tem um nome sentido, invocando cheiros doces e noites ao relento, no verão tépido da serra: Carqueijais.
O vale glaciar desconhecido
A segunda parte desta etapa levou-nos a um mundo milenar, onde as surpresas surgiam, não tanto a cada curva dos trilhos, ou na crista das subidas entre eucaliptos e pinheiros, mas sim na distância indelével, de horizontes poderosos, prenhes de fragas, do verde das árvores, das matas de flores em azul-claro e amarelo bem forte.
Acresce dizer que este percurso já estava nas nossas intenções há anos; por algumas vezes, tentámos fazê-lo, pelo menos a primeira parte, mas acabámos sempre por recuar. Percebe-se porquê: a estra-da que liga Piornos a Unhais da Serra, ao longo do vale glaciar de Unhais, pode ser mortal.
Está abandonada, degradada, foi arrastada pelas águas das caleiras de irrigação, pelos deslizamentos de rochas redondas e imponentes, está mortalmente ferida pela incúria dos homens e pela potência da natureza. Em partes deste percurso, vimos o mundo suspenso no abismo, com o asfalto rebentado, encosta abaixo, deixando os “rails” de segurança em equilíbrio metálico, quase improvável. Para uma pessoa como nós, para quem a altitude é uma vertigem constante e constante a atracção pelo abismo, foi uma incalculável tortura: valeu, contra ela, a magnificência do horizonte, a incrível beleza ondulante da paisagem, a paz que se respirava em constante melodia dos sentidos, metro a metro. Até que Unhais da Serra surgiu à esquerda, paisagem agora transformada em definitivo pela imponência do H2otel, estância de autêntico culto à água e aos seus poderes naturais.
Depois, a serra de Penesinos acolheu-nos de trilhos abertos, a cami-nho da povoação do Barco, entalada entre as serras da Estrela e da Gardunha, tal como está desde os tempos dos Romanos, com os seus campos de milho e hortas verdejantes. Aqui, foi a parte mais difícil do percurso, com alguns trilhos e pedir menos atenção à paisagem – em direcção ao Castelejo, terra parqueada entre soutos e pinheirais de intenso verde-escuro, virada para a Gardunha e as suas encostas loiras e amarelas. Ao longe, a paisagem estende-se até outras serras, com o Fundão cada vez mais perto, trilho a trilho.
O percurso final levou-nos, depois de Souto Maior, à Moagem – Cidade do Engenho e das Artes, complexo do conhecimento que assenta na recuperação da antiga Empresa de Moagem do Fundão, fundada nos anos 20 do século passado por dois empreendedores locais e que esteve em funcionamento até entrar em falência, nos anos 80. Situada ao lado da linha férrea da Beira Interior, com um ramal privado, na sua história, magnífica, o destaque vai para a fome que matou aos milha-res de famílias do lugar, no tempo da escassez de pão provocada pelo conflito mundial. O Centro de Interpretação, formado pelo núcleo em madeira do edifício antigo, propõe uma viagem ao intricado processo de fabrico de farinha, que utilizava o mais eficaz e avançado dos mé-todos industriais de então, o Austro-Húngaro.
Do planalto lindo ao poço infernal
A terceira etapa decorreu toda na manhã de domingo, uma vez mais com partida da varanda da serra, subindo às Penhas da Saúde e, de seguida, aos Piornos. O asfalto deu lugar ao planalto, habitado por penedos redondos e de formas fantasmagóricas diurnas, recortando o horizonte, fechado pela parede longínqua da Torre, com restos alvos de neve coroando o cinzento metálico da rocha.
Tempo de descer trilhos soltos, curva a curva, através de pinhais velhíssimos e matas de carvalhos: cada vez mais perto, cada vez mais fundo, e ei-la, cravada no meio de uma verdura luxuriante, de um brilho verde palpitante e palpitando com o som constante da água em queda, em fuga da sua prisão natural: a cascata do Poço do Inferno. Pausa prolongada: meter as mãos na água fresca; subir as escadas íngrimes de pedra periclitante e olhar cara a cara a água em fuga, despenhando-se na bacia gelada, límpida como um espelho, lá em baixo; pensar como deve ser estar ali, numa manhã de gelo, porque não de neve – porque não em pleno Inverno, quando a água se assoma em violência inusitada, quase atravessando a estrada para o outro lado, para o lado da floresta milenar, espessa como em nenhum outro lado da serra, desta serra estranha, espantosa, vital. Serra em que nenhuma das faces é, sequer, semelhante à outra – as paisagens diferentes, apenas iguais na beleza selvagem, ora árida, ora faminta de vida; os cheiros, nunca de intensidade contida; as cores, uma pale-te constante e enlouquecida de beleza pictórica impossível de descre-ver por estas palavras. Só indo, caminhando, trilhando, até lá, à Serra da Estrela.
E ainda a procissão estava no adro. De volta à estrada, foi tempo de respirar fundo pelos caminhos abobadados de carvalhos de folhagem frágil e pinheiros olorosos, de pinhas minúsculas, que se despenhavam aqui e ali. Mas não por muito tempo, esta profundidade da respiração: subir a aldeia do Sameiro, vendo a paisagem afastar-se lá em baixo, as matas de pinheiros, as hortas, as pontes, os trilhos louros cortando o verde da distância, foi mais uma experiência nova – das muitas que não iremos esquecer, mas sim, talvez, repetir.
Um corta-fogo final e eis o alto de São Lourenço, observatório perfeito sobre Manteigas e o seu vale glaciar, serra acima, lá longe, para lá do silêncio de vidro da distância inequívoca.
Depois, uma curta paragem na Pousada de São Lourenço, nas Penhas Douradas, antes do percurso final, infelizmente em asfalto, até à cida-de de Seia, onde fica o Museu do Pão. Por ver, ficou a nascente do rio Mondego, que dizem ser uma das maravilhas da serra da Estrela. Não uma das sete – elas são muito mais, as maravilhas.
Este roteiro traçado ao longo do Desafio Turismo de Portugal 4×4 não podia ter conhecido melhor desfecho: o Museu do Pão – que, desde a sua inauguração em 26 de Setembro de 2002, recebeu já mais de 850 mil visitantes! – é um complexo privado elaborado em 3500 m2, como um hino à arte e à tradição do fabrico do pão português.
Em jeito de rescaldo, fica a certeza de que este roteiro pela Serra da Estrela não é o único: a serra mais alta de Portugal tem largas cente-nas de trilhos possíveis que, percorridos a pé, de bicicleta ou de jipe, nos levam a novas descobertas, novas paisagens, novas cores, chei-ros e sabores. Bem-haja quem vier. E que venha por bem – como bem irá ser recebido pela serra, as suas gentes, as suas encostas e cami-nhos.
Texto: Hélio Rodrigues
Fotos: Hélio Rodrigues e Clube Escape Livre
