Sol a rodos, muita gente de boca aberta e plena de entusiasmo competi-tivo e um parque automóvel de fazer inveja a muito boa organização “nacional”. Foi com tudo isto que encheu que nem um ovo o antigo cais da Foz do Arelho, palco de eleição para o arranque da II Rampa com o nome daquela bonita estância balnear. Para a História, registe-se o nome dos vencedores: entre os Pilotos, Adalberto Melim; nas Equipas, a Eurorentlei.
A II Rampa Foz do Arelho, organizada pelos homens do Ferodo Quei-mado, foi um sucesso. Inegável! Não apenas o dia esteve espantoso, sem frio e com um solzinho de aquecer os ânimos mais desanimados com estas coisas da crise e dos aumentos dos impostos; mas também o toque a reunir foi ouvido bem longe e por muito boa gente, que a-proveitou o ensejo para espanejar o pó dos carrinhos e, como se da continuação da festa de boas-vindas ao Papa, religiosamente veio em procissão até à Foz do Arelho.
Por isso, espalhados pelas sombras dos choupos (ou afins, tinham folhas e eram verdes…) do largo do cais marítimo, podiam contar-se qualquer coisa como 78 bonitos e enfeitados popós. Entre eles, algumas relíquias, uma ou outra raridade, os tradicionais Minis, Escortes e Bêémes – mas também uma carreta funerária, com “morto” e tudo – que, no final, entrevistado pelo AutoanDRIVE, jurou por todos os santinhos nunca mais se meter numa alhada destas. Porquê? “É muito perigoso! Prefiro morrer na cama, bem acompanhado por uma morenaça toda vampe, ou então a emborcar uma mine…”
Entre Porschetas, Minosos e Escortes
Pois é: eles estavam lá! Enquanto os donos fugiam aos esforços do Rui Alves para os reunir no camião para o chato do “briefing”, ou se escondiam nas esplanadas dos arredores, arrefecendo os canos com um estranho e espumoso líquido amarelo, servido em copos esguios e altos, eles lá estavam, debaixo das árvores – que bem podiam ser plátanos, mas não eram; como também não eram nespereiras ou amendoeiras; eram árvores, tinham sombra e pronto! Eles – os popós; fazendo olhinhos uns aos outros, todos pimpões nas suas vestes coloridas e enfeitadas com “colantes” muito vistosos, alguns deles de tempos idos, em que eram jovens e davam cartas por algumas flores-tais, subidas e pistas deste país à beira-falência plantado. Deste mar-melanço descarado, que se saiba não resultou nenhum Mini ainda mais Mini, ou um piqueno Bêémezinho – não senhor, foram todos bem comportados, sem beijos e abraços e outros exageros sexuais, não fossem os donos dar por isso. É que assédio é hoje crime, em especial no emprego, quando o patrão faz olhinhos à secretária ou à menina dos cafés.
Mas adiante: cumpre referir (que isto de fazer reportagens no local não é só dizer estas baboseiras e descrever as cores dos vestidos das senhoras, que por acaso vestiam todas calças de ganga!) que o Fero-do Queimado conseguiu reunir um grupo muito curioso de bons e vá-lidos automóveis Clássicos.
Estavam lá representados – o AutoanDRIVE bem os viu e até fotogra-fou! – alguns dos mais emblemáticos (palavra bonita esta, faz sempre lembrar o emblema maior deste país, o glorioso…) carrinhos de anta-nho (antanho, não anho, ainda não chegámos ao reconforto dos estômagos! Aliás, isso parece que ficou lá mais para as calendas da meia-noite, algures nas Caldas e parece também que foi muito bem apreciado por mais de uma centena de mentes famintas).
Por exemplo: um DAF 66 Variomatic, coisa azul ferrete um bocado parecida, para os mais distraídos, com um Datsun 1200; uma VW Type 2 “Pão de Forma”, de janelinhas da frente alevantadas, onde alguém poisou a refrescar duas cervejinhas; dois FIAT 127 muito bem arranjadinhos (que saudades das corridinhas em Vila Real e do Conde, com eles…); um BMW 635 CSI (idem, idem, as palavras atrás escritas, juntando-lhes a descida de Mateus, com o Manel Fernandes atrás da roda); um BMW 320 IS com as cores da Alpina; um “Brilhante” Renault 5 Turbo 2 com as cores oficiais; o Volvo 142S do Tomás Baptista (belo exemplar de automóvel!); o também já habitual Alfa Romeo Giulia Super do Familiar (que só não ganhou a Rampa, porque lhe calhou um “jackpotzito” em pontos, que o fez dar um trambolhão);
um bonito Opel 1904 SR; um Citroën Visa Trophée de Grupo B, muito bem estimadinho; um rutilante Citroën ID19 “Boca de Sapo”; um belo Alfa Romeo Spider 2.0; um Citroën Dyane (que me fez lembrar uma viagem até Penha Garcia, eram os Dyane ainda novos, que demorou… um dia inteiro, com uma senhora ao volante e a esbracejar contra uma vespa imaginária nas curvas da Barquinha); e, está claro, os sempre referidos e nunca esquecidos Escortes, Carochas, Mines (não, não as em garrafa e copos de plástico, são os carrinhos que, de tão pequeni-nos, venceram o Monte Carlo e outras coisas assim, nas corridas) e, (em inglês), “the last but not the least”, os Porschetas 911, em versão T, Targa ou Carrera. Enfim, para todos os gostos.
E por falar em Porschetas, ao volante de um deles estava Fernando Santa Bárbara, que já tinha feito a Rampa há 40 anos e que agora, já com venerável experiência de vida, acelerou outra vez rampa acima – embora agora já não no interior das instalações da Inatel, como dessa primeira vez, mas sim na estrada marginal, que leva ao caminho para São Martinho do Porto, lá no alto sobranceiro ao mar azul. Poesia, poesia…
Ah! E estava lá também uma Ginetta toda giraça e modernaça, que faz corridas no “Nacional” de GT e que abria a Rampa. E que não ficou nem um bocadinho amuada quando alguém, decerto muito bem informado destas coisas dos popós, lhe chamou Jaguar!
Um ramo de rosas e um morto morrido
No meio de tantas beldades e quejandas, a mascote era, sem sombra de… dúvida, o Messerschmitt KR200 – aquela “coisa” de três rodas que evitou que a fábrica de aviões de guerra fosse à falência após a Se-gunda Grande Matança europeia. E que parece (é?) um “cockipt” dos ditos cujos caças e que, na Foz, até tinha lá dentro a inevitável rosa cor dela mesma.
Mas esta mascote não estava sozinha: ou melhor, sozinha, isso esta-va, bem à entrada do largo do cais – mas fique-se com a certeza de que, mesmo escondida, daria sempre nas vistas, por ser uma coisa (quase) nunca vista, pelo menos pelos surpreendidos passeantes de um sábado solarengo. Voltando à solidão: apesar de escondida à sombra duma azinheira (ou lá o que era…) e com uma equipa vestida mais à “cowboy” que à cangalheiro, quem não passou mesmo desper-cebida foi a Bedford CF250 de 1979, paramentada a preceito, com cai-xão, morto e tudo! E lá estava o nome da agência: a Campeão, nome que tanto pode dar gloriosos e chorudos prémios, ao sabor dos humo-res das tômbolas, como levar à eternidade e a uma glória diferente.
Sobre estes, vai o AutoanDRIVE escrevinhar um artigozinho mais com-pleto para cada um. Seja como for, mais ou menos devagar, mais ou menos atravessados, todos eles subiram a Rampa, todos eles mais ou menos apressados para chegarem lá acima e verem bem o mar até às Berlengas – que da praia ficam as imagens passadas, de belas famílias com belos farnéis à beira-mar comidos, e um futuro ainda pouco per-ceptível e ao sabor das máquinas encalhadas no (loooongo) areal.
As classificações, paridas pelo cronómetro e feitas as contas (não, não foi o Teixeira dos Santos!), depois de quatro subidinhas em bom ritmo, uma delas à luz dos candeeiros (não apagados) e das estrelas no céu, bem como todas as fotos da II Rampa Foz do Arelho, podem ser visio-nadas no blog do Ferodo Queimado, na morada http://ferodoqueimado.blogspot.com.
Texto: Hélio Rodrigues
Fotos: Hélio Rodrigues e Ferodo Queimado/Gonçalo Reis


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