“O primeiro ALBA levou quatro meses a ser feito“
António Martins Pereira foi um visionário. Na década de 50, decidiu cons-truir, não apenas um dos mais bem sucedidos e evoluídos automóveis de competição portugueses, como lhe acrescentou um motor feito também por si. Sim, é ele a alma-mater por trás do ALBA.
António Augusto Martins Pereira nasceu em 1927, neto do comendador Augusto Martins Pereira, o fundador da metalúrgica ALBA, situada em Albergaria-a-Velha. Desportista apaixonado, ser piloto de automóveis foi apenas uma das suas muitas facetas de polivalência. Ainda estu-dante, no Colégio Almeida Garrett, no Porto, Martins Pereira foi prati-cante de voleibol, no Sport Clube do Porto e, mais tarde, integrou a equipa de futebol júnior, no Infesta. E seria mesmo o futebol a sua maior paixão – uma paixão de profundas raízes na sua família, pois o seu pai e o seu avô tinham fundado, a 1 de Janeiro de 1941, o Sport Clube Alba, uma equipa de futebol local. Por isso, não é de estranhar que, no início dos anos 50, Martins Pereira tenha decidido reavivar o “seu” clube, que estava inactivo há alguns anos. Com muito empenho e enorme dedicação, deitou incansáveis mãos à tarefa de reerguer o Sport Clube Alba. Mãos – e pés, pois, antes de ser dirigente, deu o seu contributo como jogador, ocupando as posições de extremo direito, de avançado centro e, embora mais raramente, de defesa direito. O téc-nico era o célebre Carlos Alves, o homem das luvas pretas e um dos grandes nomes do futebol nacional. Aos 32 anos, Martins Pereira dei-xou os relvados e assumiu as rédeas do clube, tendo sido presidente da direcção e da Assembleia Geral até 1993. Mas, além o Sport Clube Alba, Martins Pereira foi presidente do Sport Clube Beira-Mar durante dois anos e membro das direcções do Sporting Clube de Aveiro, do Clube Naval de Aveiro e do Clube de Albergaria, de que é, a exemplo do Sport Clube Alba, sócio número 1. O estádio municipal de Albergaria tem o seu nome.
Na década de 50, ao mesmo tempo em que enveredava pelo dirigismo futebolístico, Martins Pereira começou a praticar automobilismo de competição, com a mesma paixão e vontade que dedicava ao futebol. Depois de algumas provas de motonáutica e de alguns ralis com um Sumbean Talbot e um Simca 8 Sport, decidiu construir um carro próprio. Nasceu então o ALBA, que se tornou num crónico vencedor na catego-ria Sport, pilotado tanto por si como pelo seu amigo Corte-Real Perei-ra. E foi com o ALBA que o seu nome se tornou uma lenda viva na história do automobilismo de competição em Portugal.
O AutoanDRIVE partilhou com António Martins Pereira alguns minutos de conversa, durante a cerimónia de apresentação do livro de José Barros Rodrigues, “ALBA – Uma Marca Portuguesa de Automóveis”, no Museu do Caramulo.
António Martins Pereira em directo
AutoanDRIVE (A): O senhor não possui nenhum curso técnico, nem superior. Apesar disso, conseguiu façanhas notáveis de engenharia mecânica, como a concepção de raiz de um motor e o fabrico de um automóvel, o ALBA. Como adquiriu os conhecimentos que lhe permi-tiram isso?
António Martins Pereira (AMP): O único curso que tenho é o curso geral dos liceus. Mas a minha família tinha a fábrica de metalurgia, o que foi fundamental para eu adquirir conhecimentos de mecânica e de metalurgia. Conhecimentos que depois fui aperfeiçoando nas minhas viagens ao estrangeiro. Além disso, fui ficando com umas noções do que era preciso e mais essencial, ao longo da minha carreira como piloto, em que, apesar de não ter sido muito longa, consegui recolher a sensibilidade necessária para levar por diante a ideia que vinha amadurecendo.
A: Essa ideia foi fazer um carro de competição. Como surgiu?
AMP: Bom, decidi fazer um carro meu, por pura distracção e diverti-mento. Nunca me passou pela cabeça dar início a uma indústria séria de automóveis. Simplesmente, um dia lembrei-me: “Porque não fazer eu mesmo um carro? Posso fazê-lo, tenho o que é preciso…” E foi o que fiz! O meu primeiro carro demorou quatro meses a ser feito. Mas não tinha capacidades para bater os [Porsche] 356 e os Denzel, pois não tinha motor para isso, apesar de eu estar constantemente a evo-luí-lo. Foi então que me lembrei de outra coisa: “Porque não fazer um motor, que pudesse ombrear com os meus adversários?” E nasceu assim o meu motor de 1500cc.
A: Que tinha várias novidades tecnológicas para a época…
AMP: Sim, tinha. Era um motor de quatro cilindros com dois carbura-dores duplos horizontais, coisa rara nessa altura e que era uma técnica muito mais avançada do que o que se passava com os outros motores. Mas, como era muito caro fazer um motor, decidi que, para ele ser fiável e não correr o risco de quebrar, fui à cabeça dos pis-tões e tirei-lhe dois milímetros na altura. O motor ficou então com uns 90 a 95 cv e posso dizer que nunca me deu qualquer problema. Só fiz esse motor.
A: E conseguiu aquilo que queria, que era bater a concorrência?
AMP: Sim, esse motor era muito bom. Logo na sua estreia, ganhei o Rali Vinho do Porto à Régua e, depois, fui 3º classificado no Rali a Guimarães. Isso foi em 1955. Mas, nesse ano, decidi afastar-me das corridas. Apareceram os filhos, as responsabilidades começaram a ser maiores e, como já não podia dedicar-me à competição como queria, tomei a decisão de deixar de correr.
Mesmo depois do seu abandono da competição, os ALBA ainda parti-ciparam em algumas provas, com a última inscrição a ser em 1961, no Rali Nocturno do Salgueiros, com o “piloto-fetiche” da ALBA, Corte-Real Pereira, ao volante. No entanto, apesar de afastado das pistas e dos ralis, António Martins Pereira seguiu sempre com “muita atenção” o fenómeno automóvel ao longo das décadas seguintes. Fã indefectível da F1, garantiu-nos que iria seguir atentamente o Mundial deste ano, “que deverá ser um dos melhores dois últimos anos, pois à Ferrari vai juntar-se a Mercedes.” E confessou um desejo especial: “Tenho uma enorme admiração pelo Michael Schumacher. Gostava que voltasse a ser campeão do Mundo.”
Texto: Hélio Rodrigues
Fotos: Pedro Martins Pereira/Museu do Caramulo

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