Patrick Depailler (09/08/1944-01/08/1980)

Talento e carisma

Patrick Depailler nunca foi um piloto que me tenha dito grande coisa. Isto, apesar da sua apetência por esbanjar adrenalina e das suas capacidades inatas de pilotagem. Porém, fiquei triste quando tive conhecimento do seu acidente fatal em Hockenheim.

Pode parecer repetitivo, mas lembro-me bem desse dia: estava de férias na velha e hoje desfeita praia da Foz do Arelho e fui de propósito às Caldas da Rainha de autocarro, para comprar o AutoSport. E lá estava, na primeira página, estampada a morte de Patrick Depailler. Fiquei banzado: não estávamos em fim-de-semana de nenhum Grande Prémio e, claro está, nessa altura sem a arte e rapidez da Net e afins, não fazia “a mínima” de que estavam a decorrer testes privados em Hockenheim.
Na viagem de regresso, e depois na barraca cravada no areal e na fres-cura da casa alugada no centro da vila, li e reli o texto, vi e revi as fotos do acidente e do piloto gaulês: era mais um imolado pela paixão que nos unia – eu, leitor ainda ávido e que ainda termia com as acrobacias e ousadias dos pilotos nas pistas; ele, o piloto que tantas vezes arriscou a vida e outras tantas foi atirado para as camas dos hospitais, quer no automobilismo, como em desportos ainda mais radicais, como asa-delta.

Piloto polivalente
Patrick André Eugène Joseph Depailler, nascido em Cler-mont-Ferrand, tinha um ídolo, na sua infância: Jean Behra, centauro e piloto de automóveis francês, que perdeu a vida num acidente bizar-ro, ao volante de um Porsche de “sport”, na pista assassina de AVUS-Berlin, em 1959. Por isso, não resultou nada estranho que, ainda adolescente, se tivesse apaixona-do pela adrenalina das competições mecânicas. Primeiro, nas duas rodas até que, com 20 anos, decidiu ser piloto de automóveis. Começou pelas fórmulas de promoção – porque assumiu então que o seu objectivo era o de todos os pilotos, nessa altura: chegar à F1 e, se possível, ser Campeão do Mundo.
Depailler cumpriu um desses seus sonhos: ser piloto de F1. Porém, nunca esteve perto de se sagrar Campeão do Mundo. Talentoso e com um carisma notável, nunca conseguiu contudo estar numa equipa à medida desse talento e foi-se perdendo, anos a fio, a pilotar carros pouco mais que medíocres, desde o Tyrrell ao Ligier, terminando a sua carreira numa Alfa Romeo já em dificuldades. E terminando da pior forma possível: pagando com a vida, num acidente que, tal como o de Jim Clark – também em Hockenheim, mas em 1968 – ou o de Alberto Ascari, em Monza, em 1955, não teve testemunhas e não teve explicação.
O talento de Patrick Depailler suplantou muitas vezes as de-bilidades das máqui-nas que pilotou ao longo da sua carrei-ra. Piloto polivalente, espraiou esse talen-to também por corri-das com carros de “Sport”, onde igual-mente conheceu o sabor da vitória. Mas tudo começou, a bem dizer, quando, em 1971, conquistou o título de Campeão de França de F3. No ano seguinte, estreou-se na F1, partici-pando em diversas corridas que não pontuavam para o Mundial mas, principalmente, correndo no “seu” Grande Prémio de França, na pista de Charade, a 2 de Julho de 1972, com um Tyrrell. Daí até ao Grande Prémio da Grã-Bretanha de 1980, alinhou em 95 provas de F1, ga-nhando duas, conquistando uma “pole position”, subindo por 19 vezes ao pódio e garantindo 141 pontos válidos para o Mundial – onde a sua melhor classificação foi em 1976, quando terminou em 4º lugar, com o Tyrrell P-34 (de seis rodas), após conseguir cinco segundos e dois terceiros lugares, num total de 39 pontos.

Nunca baixar os braços
O seu primeiro ano a tempo inteiro na F1 foi em 1974, quando foi contratado por Ken Tyrrell, impres-sionado com o ta-lento deste francês introvertido, 3º no Europeu de F2 em 1973, após conquis-tar a vitória no difícil e mortífero Nurbur-gring.
Esta sua primeira temporada no escalão máximo do automobilismo foi brilhante: logo na Suécia, fez a única “pole” da sua carreira e acabou a prova em 2º lugar; mas, até final do ano, conquistou mais três pontos apenas, terminando em 9º lugar no “ranking” de Pilotos. O problema de Depailler, que teve como colega de equipa o imprevisível Jody Scheckter, foi o seu maior empenho na F2, modalidade em que con-quistou então o título de Campeão da Europa, depois de ter ganho em Pau, Mugello, Karlskoga, Hockenheim e Vallelunga.
Em 1975, sem ter que se preo-cupar com qualquer outra coisa além da F1 – as suas experiên-cias nas corridas de “sport” tinham também terminado, após alguns bons momentos, em 1972 e 1973 – Depailler continuou na Tyrrell, mas essa época foi pouco frutuosa, com um único pódio, em Kyalami. Depois do bom ano de 1976, Depailler viu a sua vida a andar para trás em 1977: o Tyrrell de seis rodas já não era competitivo (na verdade, nunca o foi…) e nem os três pódios con-quistados na África do Sul, Canadá e Japão salvaram a sua temporada.
Felizmente, o velho lenhador abandonou as seis rodas e re-gressou às tradicio-nais quatro: isso motivou Patrick Depailler a continuar na equipa inglesa, onde pela primeira vez não teve um colega de equipa a fazer-lhe sombra. As quatro primeiras corridas significaram outros tantos pódios – com a sua primeira vitória, no Mónaco, a ser a cereja em cima do bolo. Depois desta prova, Depailler ficou na frente do Mundial, com 23 pontos. E foi tudo: daqui até ao final do ano, conquistou apenas mais 16 pontos, terminando o campeonato em 5º lugar. Foi a sua melhor época, apesar de tudo.
E a derradeira com-pleta: em 1979, ano em que ganhou a sua segunda corrida na F1 (GP de Espa-nha, em Jarama), correndo na Ligier e tendo Jacques Laffite como colega de equi-pa, Depailler partiu as duas pernas num acidente de asa-del-ta, hipotecando a sua temporada e as suas relações com Guy Ligier, que não teve problemas em o despedir no final do ano.
O francês ainda conseguiu recuperar a boa forma a tempo de iniciar a temporada de 1980, mas teve que suar para conseguir um lugar numa equipa. A “escolhida” foi a Alfa Romeo, que nesse ano tinha um pode-roso, mas pouco fiável, motor turbo – e, Depailler nem sequer conse-guiu terminar uma única das corridas que fez com a equipa italiana. Até que chegou o fatídico dia 1 de Agosto de 1980.

Um fim inesperado
O acidente de Patrick Depailler nunca foi explicado, já atrás o referimos. Nesse dia, a Alfa Romeo estava em testes privados em Hockenheim, preparando o Gran-de Prémio da Ale-manha, que ali iria ter lugar dez dias mais tarde. Então, não existiam médi-cos, socorros ou sequer comissários durante os testes privados de F1 (medida que apenas foi alterada após a morte, em circunstâncias semelhantes, de Elio de Angelis, seis anos mais tarde!).
A meio da sessão, quem estava nas boxes ouviu um estrondo violento, ao longe, e o motor do Alfa Romeo deixou de uivar. Em carros normais, toda a gente se precipitou ao longo da pista, até que, na Ostkurve, se deparou o cenário do horror: os restos do Alfa Romeo estavam para lá da fileira de “rails” arrancados, com o chassis “encolhido” para meta-de, pela força do embate. Não existiam sinais de travagem. O piloto já estava morto.
Nunca se soube a causa do acidente. Muito se especulou – desde uma saia que-brada por uma pe-dra, que fez o carro levantar voo, a uma falha na suspensão, até mesmo doença súbita de Depailler: foram adiantadas diversas possibili-dades. Mas apenas isso: a razão ficará, para todo o sempre, no segredo dos deuses – os mesmos que nada quiseram então com Patrick Depailler, que iria fes-tejar os 36 anos nove dias mais tarde. No dia seguinte, 10 de Agosto de 1980, o seu colega de equipa na Ligier, Jacques Laffite, venceu a corrida e dedicou o triunfo ao amigo morto. Depailler perdeu a vida exactamente 21 anos depois do seu ídolo de infância, Jean Behra.

Hélio Rodrigues

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