Não tem nada a ver!
Lembra-se do Citroën C3? Claro que lembra – afinal, o carro foi lançado em 2002 e, só em Portugal, foram vendidos alguns milhares. E eles andam aí, toda a gente os pode ver! Pois bem: agora existe um novo C3 e fique desde já a saber: não tem nada a ver! Com o antigo, pois claro! O AutoanDRIVE explica-lhe porquê.
O novo Citroën C3 herdou alguns dos genes do seu irmão mais velho. Felizmente, esses genes situam-se apenas ao nível da plataforma, que é a mesma. E, apesar do novo C3 ser mais comprido 9 cm que o ante-rior, mantém idêntica volumetria que faz dele um pequeno monovolu-me compacto, com a sua carroçaria mais alta que o normal num utilitário deste segmento e a posição de condução a condizer. Isso reflecte-se na sua imagem e, principalmente, na dinâmica de condução.
Os motores também já existiam na família Citroën, pelo que aqui não há grandes novidades. Por exemplo, a versão equipada com o “velho” motor 1.6 HDI, na sua decli-nação de 90 cv, que o AutoanDRIVE ensaiou, não revelou grandes surpresas; afinal, o motor já era nosso conhecido e, associado a uma caixa manual de cinco velocida-des, mostrou-se ligeiramente acima de competente, sem ser entusias-mante mas capaz de fazer mover o novo C3 sem sobressaltos, com consumos pouco acima dos cinco litros (a marca anuncia um consumo combinado de 4,3 l/100 km) e sem exigências de maior.
Enfim, é eficaz, levemente ruidoso quando frio e com a característica de dei-xar ouvir o assobio do turbo, o que é sempre um som agradável para os nossos ouvidos, pois espicaça aquele atle-ta escondido que há dentro de nós… E por falar em ruídos, de assinalar algumas perturbações aero-dinâmicas, quando a velocidades mais elevadas, em especial oriundas dos retrovisores, de dimensões algo generosas. Não se pode ter tudo…
No resto – qualidade geral e perceptível, equipamento e, principal-mente, imagem – o novo C3 é muito diferente do anterior. Para melhor, há que dizê-lo com frontalidade.
O céu é o limite
A volumetria do novo C3 resume-se, já o dissemos, à imagem de um monovolume compacto. Apesar disso, essa imagem surge mais feliz no resultado final, que no anterior C3, com a sua configuração (demasiado, quanto a nós) arredondada, que nem sempre garantiu consenso total. Esse consenso – quanto a nós, nunca é demais insistir, pois a beleza é sempre um conceito subjectivo – parece ser agora mais globalmente conseguido.
A frente tem linhas poderosas, agrupadas na grande grelha dupla, em rede favo de mel, separada pela chapa de matrícula e incorporando o enorme pára-choques, pintado na cor da carroçaria. Os grupos ópticos, lançados para trás, completam o feliz conjunto. Essa felicidade imagé-tica continua pela linha de cintura muito elegante, elevada como em qualquer tendência de monovolume, terminando numa traseira ligeira-mente abaulada, onde a Citroën decidiu, e muito bem quanto a nós, reproduzir conceitos estéticos semelhantes aos dos C3 e C4 Picasso. O resultado é um C3 com um visual mais jovem, dinâmico e até agressivo. Enfim, cativante.
Passemos para o interior. Aqui, tudo está ainda melhor. A qualidade é bem visível. Deixou de ser patente uma certa mediocridade na escolha dos mate-riais, que agora são mais criteriosos e se encontram bem montados e sem folgas visíveis. Isso só pode ser bom, não apenas para o tacto e o olhar, como para evitar que, com o enro-lar do conta-quilómetros, surjam os ruídos parasitas e uma vaga ideia de fragilidade, existentes no “velho” C3.
O volante, forrado a couro, possui inserções em alumínio, muito ele-gantes e desportivas e a instrumentação está bastante completa, colocada sem reparos e de fácil utilização e leitura. O espaço disponí-vel para os cinco passageiros ficou maior, tanto em comprimento como em largura, contribuindo para um ambiente convivial a bordo. Os bancos são forrados em tecido específico e em Alcantara, possuem bom apoio lateral mas, quanto a nós, parecem algo curtos em apoio para… pernas grandes.
Mas a cereja em cima deste (novo) bolo é o tecto panorâmico em vidro de dois tons Zenith, que se prolonga até quase meio do tejadilho, propondo uma forma diferente e mais luminosa de viajar. Aliás, viajámos lá atrás e é como se fizéssemos parte da paisagem; enquanto, à frente, olhando para cima, ficamos bem dentro das nuvens… ou das copas das árvores. Passe a imagem e fique a ideia… Esta forma de viajar é designada pela Citroën como Visiodrive e faz parte da nova linguagem do futuro, técnica e de estilo, da marca francesa. Apesar do aparato e aparente fragilidade, o Zenith não compromete a segurança activa e passiva e pode ser parcialmente escondido por uma cobertura em plástico, onde se integram as palas contra o sol, que infelizmente não possuem espelho de cortesia, para desagrado das… senhoras!
Ao volante, a maior altura da carroçaria condiciona a manea-bilidade em zonas sinuosas, que ten-de a adornar um pouco, quando solici-tada com mais vivaci-dade em transferên-cias de massa conse-cutivas, ou em cur-vas de raio mais apertado. Porém, nada como no ante-rior C3 – agora, possui novas barras de torção na suspensão traseira, que eram o calcanhar de Aquiles da anterior versão, aumentando o conforto de rolamento e filtrando com eficácia as irregularidades da estrada.
Os 90 cv do motor 1.6 são suficientes para uma viagem descansada, sem ter que recorrer exage-radamente à caixa de velocidades, que está bem escalo-nada, sem conces-sões estapafúrdias aos consumos, tal-vez por ter apenas cinco velocidades. Mais uma relação, com esta potência, e o equilíbrio entre eficácia e consumo talvez ficasse alterado… para pior. Afinal, por algum motivo a Citroën “ofereceu” a caixa de seis velocidades apenas às versões mais potentes da gama.
O C3 que o AutoanDRIVE ensaiou possuía o nível mais elevado de equipamento, que continha quase tudo de série, desde “airbags” para todos os “gostos” (como os de cortina na frente e atrás); ar condicio-nado automático; jantes em liga leve de 17”; vidros escurecidos atrás… Enfim, para abreviar, diga-se que os opcionais são apenas três: a pintura Preto Obsidien (300 euros); o ESP (400 euros); e o sistema de navegação Myway, com Bluetooth integrado (1000 euros). Sem estes, o preço desta versão é de 23.735,40 euros, valor que, sem ser de combate, fica justificado em absoluto pela quantidade e quali-dade do equipamento.
CARACTERÍSTICAS TÉCNICAS
Motor: Diant. transv., 4 cil. em linha, 1560 cc, turbo-Diesel, turbo-compressor c./”intercooler”, inj.dir. c./“common rail”, 16 válvulas
Potência (cv/rpm): 92/4000
Vel. Máx. (km/h): 182
Acel. 0-100 km/h (s): 11,5
Consumos (l/100 km): 4,3
Emissões CO2 (g/km): 110
Preço (euros): 23.735,40 (unidade ensaiada, 25.435,40)

