Atracção total pelo triunfo
A Audi comemorou, a 3 de Março, os 30 anos do seu sistema de tracção total designado por quattro. Nesse dia, em pleno Salão Automóvel de Genebra, foi apresentado pela primeira vez o Audi quattro. Construído para fazer ralis, numa altura em que este tipo de tecnologia significava problemas constantes, depressa assumiu a reputação de indestrutível, sendo ainda hoje considerado um dos melhores carros de ralis de sempre.
A história do Audi quattro está intimamente ligada a Portugal. De facto, a sua estreia aconteceu no Rali Urbibel Algarve, prova que se disputou entre 29 de Outubro e 2 de Novembro de 1980. Foi a primeira aparição pública do carro alemão, que foi pilotado na prova pelo finlandês Hannu Mikkola.
Então, o seu papel na estrada foi de carro “0”, aquele que passava nos troços antes do pri-meiro concorrente. Porém, os tempos conseguidos nas classificativas dei-xaram todos assombrados, bem como a fiabilidade manifestada, que era de todo improvável – de acordo com os cânones da época. Por isso, a Audi decidiu inscrever-se no Campeonato do Mundo de Ralis do ano seguinte, 1981. Começou então uma das sagas mais bem sucedidas da história da modalidade.
Poderoso e assustador
O Audi quattro era, desde a primeira série, um automóvel poderoso.
A ideia de construir um Audi com tracção a todas as rodas surgiu em 1977, depois de um engenheiro de chassis da marca de Ingolstad se ter apercebido das qualidades paten-teadas pelo VW Iltis, em terrenos difíceis, como neve e lama. Na verdade, há quem diga que a experiência deste modelo da VW no então ainda incipiente Dakar foi a fórmula que os técnicos germânicos encontraram para perceberem se a ideia tinha ou não futuro. Pelos vistos, tinha: o Iltis venceu a prova africana em 1980, com o conde sueco Freddy Kottulinsky e, ainda nesse ano, nasceu o Audi quattro.
A sua carroçaria era de um “coupé” de duas portas e, na verdade, partilhava alguns componentes com outros modelos da Audi, como o Coupé, da família 80. Internamente, foi designado por Typ 85, que partilhou também com outros modelos, como o Coupé GT, o Coupé quattro e o 4000 CS quattro. A palavra “quattro” é sempre escrita em caixas baixas, pois não é ela que designa o modelo, mas sim apenas que ele está equipado com tracção às quatro rodas.
O primeiro Audi quattro tinha um motor de 5 cilindros em linha e 2144cc, capaz de uma potência de 200 cv e um binário de 285 Nm às 3500 rpm. Demorava 7,1s a acelerar dos 0 aos 100 km/h e atingia uma velocidade de 220 km/h. Em 1987, foi substituído por uma evolução de 2226cc, com idêntica potência, mas com o binário a surgir em rotações mais baixas. Dois anos mais tarde, este mesmo motor passou a ter uma potência de 220cv e a levar o carro aos 220 km/h. Porém, nesta altura este carro poderoso e capaz de intimidar os mais ousados, já tinha sido banido das competições de estrada, por ser considerado demasiado perigoso. A sua carreira terminou em 1991, depois de 11.452 unidades produzidas.
Durante este 11 anos, o Audi quattro sofreu apenas ligeiras alterações estéticas, mantendo sempre o formato original em flecha de contornos agressivos e muito angulosos, em que a frente extensa se unia a um habitáculo recua-do, para terminar na traseira truncada, de “coupé” baixo e afilado. Mecanicamente, manteve sempre o mesmo de esquema de suspensões independentes na frente e atrás, apenas com alterações na geometria dos braços traseiros logo no início de vida, quando também foi retirada a barra anti-rolamento traseira, para reduzir a sua tendência sobreviradora. Foi esta base que, de imediato, acabou aproveitada para fazer aquele que, ainda hoje, é um monstro histórico dos ralis.
Grupo B: o expoente máximo
O Audi quattro foi, de facto, um dos mais emblemáticos automóveis de competição. Nos ralis, não teve rival à sua altura, tornando-se num dos que mais provas venceu; bateu recordes na mítica rampa de Pikes Peak e, nas provas dos campeonatos Trans-Am (200 quattro) e IMSA (90 quattro), mesmo em variantes e carroçarias distintas do original, demonstrou ser imbatível ao ponto de os organizadores se esfalfarem em mudar as regras de uma forma escandalosamente regular, procurando assim tentar manter o equilíbrio e o interesse das provas.
Logo em 1981, o Audi quattro de competição, cujo motor era baseado no original e tinha uma potência apro-ximada de 304 cv, tornou-se um vencedor. Foi ao volante de um destes carros que a francesa Michele Mouton se tornou a primeira mulher a ganhar uma prova do Mundial de Ralis – no caso, o Rali de San Remo, na Itália, em 1981. De tal forma essa vitória teve repercussões na família dos ralis, que seu futuro colega de equipa, o alemão Walter Röhrl, agastado, comentou que… “até um macaco conseguiria vencer com o Audi quattro”. Seja como for, picardias à parte, depois dos primeiros sucessos, a Audi respondeu às solicitações dos regulamentos de Grupo B com o “verdadeiro” Audi quattro. Utilizando uma versão do motor de cinco cilindros em linha, mas equipado com um turbo-compressor, as sucessivas evoluções do quattro, designadas A1 e A2 e construídas até 1984, tinham uma potência de 355 cv e venceram oito provas do Mundial de Ralis, conduzidos por Stig Blomqvist, Walter Röhrl e Hannu Mikkola.
Em 1984, a Audi lançou a primeira versão do Sport quattro, carro que se estreou em compe-tição no ano seguinte, com a designação Sport quattro S1. A versão “civilizada” deste carro tinha um motor mais pequeno que o do quattro A1 e A2, construído em alumínio e com 2133cc e quatro válvulas por cilindros, no total de 20. Na versão de estrada, tinha uma potência de 306 cv, que era aumentada até aos 450 na versão de competição. As regras do Grupo B impunham a construção de pelo menos 200 exemplares e a Audi fabricou um total de 224 Sport quattro.
O S1 era ainda mais poderoso que o Sport quattro original, com o seu motor de menor cilindrada (2110cc), mas uma potência substancialmente aumentada para os 480 cv e, em fases posteriores, esticada até aos 507 cv; na fase final dos Grupo B, o Sport quattro S1 apresentava a espantosa potência de 600 cv – antes de serem banidos das provas de estrada no final da temporada de 1986, após os terríveis acidentes com um Grupo B (no caso, um Ford RS200, pilotado por Joaquim Santos), no Rali de Portugal/Vinho do Porto, no início do ano e, em Maio, a morte da equipa Henri Toivonen/Sergio Cresto, na Córsega, ao volante de um dos outros adversários do Sport quattro, o Lancia Delta S4.
Este abandono não foi o final da vida desportiva do Audi Sport quattro S1, que continuou activo em algumas provas específicas, como a rampa de Pikes Peak, que já tinha sido ganha em 1985 por Michele Mouton – sendo depois a vitória repetida em 1987, nas agora por Waleter Röhrl.
No total da sua vida activa no Mundial de Ralis, o Audi quattro ganhou 20 provas e dois títulos de Construtores (1982 e 1984, respectivamente com o quattro e o quattro A2), permitindo ainda a Hannu Mikkola (1983) e a Stig Blomqvist (1984) sagrarem-se Campeões do Mundo. Michele Mourton pode também agradecer ao poder dos quattro o seu sucesso nos ralis, pois em 1982 lutou até ao fim pelo título, com Walter Röhrl, perdendo para o alemão no fim da época por escassa margem pontual, depois de ter ganho quatro provas, entre elas o rali português.
Texto: Hélio Rodrigues
