A natureza em estado puro
Sábado amanheceu com o céu de um azul que já tinha esquecido que existia. Depois de quase cinco meses de inverno profundo, decidi meter-me à estrada e ir em busca de um pouco do nosso Portugal, também profundo. O destino? A Serra do Caramulo, uma das que mais me fascinou, desde que lá fui, pela primeira vez, já lá vão 20 anos.
Pouco trânsito na A1 e, depois, na A25: mesmo como eu gosto, con-duzir de forma descontraída e sem “stress”, sem ter que aturar as birras e frustrações dos outros condutores. Podem pensar e dizer-me que o caminho é melhor pelo IP3, em direcção a Tondela. Mas eu não vou nessa: nunca gostei dos “Ipês” – a primeira vez que fiz o IP5, num Citroen ZX 1.6 e com o Nuno Rodrigues da Silva ao volante, íamos morrendo contra um camião. Depois disso, nunca mais! Antes do IP5 ser transformado em A25, seguia pela A1 até à Mealhada e depois subia a partir de Águeda. Agora, vou sempre pela A25: é mais seguro. E, no sábado, duas horas e meia mais tarde, primeira paragem – a vila do Caramulo, a 790 metros de altitude, segundo o altímetro do C5 Tourer.
Boa para os pulmões
A vila do Caramulo tem hoje cerca de 1000 habitantes. É um lugar pacato, simpático, onde apetece ficar a viver. O ar é límpido, rodeado pelos pinheiros das encostas da serra e, a perder de vista, a paisagem do Vale de Besteiros, com Tondela ao fundo e, mais ao longe, quando o ar é de vidro, a Serra da Estrela. Mas, sábado, o ar não estava de vidro – tinha mesmo um leve manto de neblina a separar o chão do sol.
A vila do Caramulo, que foi uma das primeiras terras em Portugal e ter rede de saneamento básico e de água potável, em 1938, chama-se, na realidade, Paredes do Guardão – afinal, o seu território é a freguesia do Guardão e não do Caramulo! Só passou a ser conhecida por este nome depois de 1921, quando foi criada a Estância Sanatorial do Caramulo, hoje desactivada. Tinha 19 sanatórios e as águas correntes serviam para tratar doenças pulmonares, como a tuberculose. Hoje, é num deles que funciona o Hotel do Caramulo, unidade de 4 estrelas, pendurada na encosta, com vista de privilégio para o Vale de Besteiros.
Na vila do Caramulo – estatuto que detém desde 1 de Fevereiro de 1988 – existe também o Museu do Caramulo (www.museu-caramulo.net), cujo núcleo está num edifício neo-clássico quadrangular, cons-truído em granito e xisto da região, em torno de um magnífico claustro do Séx. XVIII, salvo por Abel de Lacerda do destroçado convento franciscano de Fraga, em 1954. No seu interior, existem inéditas colecções de arte, miniaturas, brinquedos e de automóveis e motociclos clássicos. Propriedade da família Lacerda, merece sem dúvida uma cuidada visita; por 7 euros, pode ficar com uma ideia completa sobre a evolução do automóvel, desde a sua criação (um dos exemplares expostos é um Benz, de 1899!). E, também, deliciar-se com o perfeccionismo de quem fez da miniatura uma forma de arte e de vida. E por falar em arte, o andar superior encerra algumas obras-primas de grandes pintores e tapecistas nacionais e internacionais, para deleite da alma e descanso do corpo. Fernand Léger, Grão Vasco, Silva Porto, Amadeo de Souza-Cardoso e até Picasso são alguns dos mestres que lá pode encontrar representados.
A vila do Caramulo, apesar da calma quase rústica que se respira nas suas ruas, não parou no tempo. As festividades são uma tradição que ainda hoje se cumpre e, todos os anos, se realiza o Caramulo Motorfestival, durante o qual se deslocam à vila milhares de visitantes, para assistirem à subida crono-metrada da Rampa que leva ao alto da serra, em pleno cruzamento para o Caramulinho. Esta subida é feita por automóveis modernos, mas também por Clássicos, alguns deles com uma longa história e tem o alto patrocínio do Museu do Caramulo e da edilidade de Tondela, concelho a que a vila pertence.
Confortar alma e estômago
Mas deixemo-nos de lenga lenga para turista consumir. Aquilo de que queremos aqui falar é de sensações. Por isso, continuemos: entrámos na vila do Caramulo, pela hora do almoço. Estavam 10 graus centígrados, sem vento, uma tepidez lírica no ar. Com a alma a começar a ficar confortada, fomos tratar do estômago. Local? O restaurante típico Montanha, ali quase à entrada da vila, para quem vem, como nós, da A25. É fácil lá chegar; as placas são como o algodão – não enganam… desde que estejam bem colocadas. Esta está.
O Montanha é uma típica casa rural, com o primeiro andar preparado para espaço de restauração. Para lá chegar, passa-se por um jardim frondoso e fresco, sobem-se uns degraus rústicos e entra-se no espaço. O ambiente é bucólico, com as traves envernizadas e as alfaias de ferro forjado a limitarem este templo da arte de cozinhar. Não, não há ali cozinha de autor, que enche a alma de arte e deixa o estômago e a carteira vazios; ali, come-se comida caseira. Aconselho os Rojões da Aldeia e o Polvo à Lagareiro – foi isso que comemos, no sábado. Mas há mais: Bacalhau à Lagareiro, Arroz de Pato, Cabrito do Caramulo e uma magnífica Chanfana na Púcara. Infelizmente, o repasto foi acompanhado por uma boa água do Caramulo, pois quem conduz não deve beber. Em Setembro, por alturas do Motorfestival, a vingança será terrível!
E pronto: quase duas horas mais tarde, com o corpo confortado, subimos com a alma até ao Caramulinho, exactamente 1000 metros acima do nível marítimo. Aqui, o ar é ainda mais límpido – de tal forma que, apesar de estarem 8 graus, tremia com vidro à distância, como se estivesse um calor de rachar.
O Caramulinho é o ponto mais alto da serra, com os seus 1.076,57 metros de altura. Quem tiver fôlego e bons pulmões, pode subir até lá e espraiar os olhos pelos arredores, até à Serra da Estrela e, quiçá, até à Ria de Aveiro e ao mar, do outro lado. Já não tenho nem fôlego, nem pulmões; por isso, fiquei a ver as pessoas a subirem, pelo meio das pedras cinzentas cinzeladas pelo vento e das urzes, encosta acima, até surgirem lá bem no alto, contra o azul do céu, debruçadas das grades do miradouro.
Enquanto esperava, fui olhando em volta. Não, não vi nenhum gato-bravo, nenhu-ma cobra-de-escada, nenhuma salaman-dra de pintas – nem sequer uma singela joaninha. Somente os pássaros, chil-reando e brincando de urze em urze e, lá no alto, três ou quatro rapinácias, talvez o bufo-real, pairando no calor das correntes. Também não vi, escondidos pela carqueja, nenhum daqueles cogumelos dos livros da nossa infância, vermelhos com pintas brancas – os venenosos amanita-mata-moscas e que enchem de cor as sombras dos bosques de carvalhos, aquelas manchas verdes que via ao longe, rodeados pelas fragas – aqui chamam-lhes penhas – alterosas e em equilíbrio impossível. Vi, isso sim, em muitos locais da serra e não apenas mesmo ali, no sopé do Caramulinho, poças de gelada água do degelo recente e em escorrência prado abaixo, até à beira dos rios que nascem no Caramulo – como o Couto, o Alfusqueiro e o Alcofra.
O Caramulinho é um dos locais de passagem do Percurso dos Caleiros, um perímetro pedestre de 8.200 metros e que atravessa a paisagem agreste da serra, durante quatro horas.
Voltei as costas ao Caramulinho e, olhando para a encosta em frente, para lá das torres eólicas, vi uma aldeia adormecida ao sol, na ponta final de um caminho tortuoso – decidi ir até lá. Não sabia sequer o seu nome, mas depois descobri que se chama Bezerreira. Descobri, também, que muitas das aldeias escondidas na serra não têm placas – nem à entrada, nem à saída. O melhor, depois, é, em casa, navegar pelo Google Earth para saber onde se esteve. Foi o que eu fiz…
Um percurso singular
Desci então a estrada de volta à vila do Caramulo e, a meio caminho, tomei o caminho à esquerda, a subir; a Bezerreira fica a cerca de três quilómetros. A certa altura, ela surge, como um Piódão inesperado, espalhado pela encosta. A aldeia, em xisto e granito, está quase deserta: apenas meia dúzia de velhos, elas com aquelas mantas negras pelos ombros, eles de boné surrado, a olharem sem muito interesse. Pelas ruas estreitas de pedra polida, subi à Capela, restaurada há não muito tempo. Um miradouro natural com vista para o Caramulinho, onde me chamou a atenção a torre sineira, com os seus dois alti-falantes virados para o povo…
Usei a mesma es-trada para regres-sar ao cruzamento para o Caramulinho, mesmo à beira da aldeia de Cadorços, e subir ao Cabeço da Neve, outro mira-douro para a vila do Caramulo e o Vale de Besteiros. Pena a plataforma rudi-mentar ali construída que, apesar do tecto em pano verde, a imitar relva, não deixa de anular a serenidade do local.
Depois, decidi inventar um percurso: rumei de novo ao Caramulinho, tomei a estrada à esquerda, logo no cruzamento, com uma placa a indicar três aldeias, a última delas com um nome curioso: Jueus.
Estrada estreita, ondulante, rodeando fragas e acom-panhando ribeiros, onde não escapei ao encontro com uma manada de vacas e um rebanho de cabras…
O próximo cruzamento, depois de rodear o Caramulinho pela encosta virada a Tondela, indicava São João do Monte, entre outras povoações.
Arrisquei este nome mas, umas centenas de metros mais adiante, em estrada recém asfaltada e estranhamente larga, em vez de curvar para baixo à esquerda, decidi apontar à direita, a subir. Fiz bem. Menos de dois quilómetros anda-dos, agora com a serra do lado direito, lá no alto, outra povoação, esta espraiada num campo verdejante, com o cinzento cru das pedras mais atrás. Os espigueiros em madeira eram a espinha dorsal da aldeia – Almofala de seu nome, mas isso descobri depois no Google Earth: placas, nem vê-las, é só para conhecedores…
Pressentia que o percurso estava a terminar; a paisagem já não me era estranha, com as hortas do lado esquerdo da estrada e a serra sempre do lado direito. E eis um local que reconheci: o cruzamento para a aldeia do Teixo, onde pernoitei já por duas vezes, em turismo rural: uma delícia! A estrada que tomei então levou-me de volta ao caminho para o Caramulinho: essa mesma estrada que, há dois anos, ainda estreita e esburacada, fiz pela madrugada, com olhos vivos a espreitar-me na escuridão.
E pronto: com a alma cada vez mais cheia, o estômago já a precisar de reconforto, apontei o nariz do animal à vila do Caramulo e, depois, a este Portugal menos profundo, menos límpido, menos são. Onde vivemos, no templo da indústria, do automóvel, da hipocrisia e do stresse, essa doença inventada pelo Homem - no fim do Mundo.


Muitos parabens por este artigo e pelas fotos. Acabei de usar uma destas fotos no meu fundo de ecran.
Obrigado
Muito obrigado pelas suas palavras de apreço e pala preferência. Já agora, só por curiosidade, qual foi a foto que escolheu?
Um abraço
Hélio Rodrigues