Tom Pryce (11/06/1949 – 05/03/1977)

Peixe na água

Tom Pryce foi um piloto galês de F1: primeiro ponto. Segundo ponto: pouca gente se lembra, mas era um especialista à chuva, o verdadeiro peixe na água. Na memória dos mais “antigos”, contudo, ficou para sempre a sua morte, decapitado pelo extintor de um comissário de pista, em Kyalami, no Grande Prémio da África do Sul de 1977.

A morte de Tom Pryce foi, quanto a mim, uma das mais injustas (isto, se alguma morte é… justa!) e cruéis que aconteceram entre pilotos de F1. Nessa altura, três anos depois do golpe de Estado de 1974, eu andava no último ano do liceu. Eram tempos complicados, no mínimo esquisitos e, sem dúvida, caóticos, entre a população estudantil. As greves e RGA (reuniões gerais de alunos) eram mais fre-quentes que as aulas; e era também frequente, quando o tempo o permitia, a turma rumar, com professor e tudo, ao jardim do miradouro do liceu, em Santarém, para uma aula ao ar livre. O dia 6 de Março foi um desses dias mornos, em que apetecia… ter aulas assim; foi numa dessas aulas (não me lembro qual) que soube da morte do Tom Pryce, na véspera, durante a prova sul-africana. Um colega tinha-a ouvido ser noticiada numa rádio qualquer… Curiosamente, Pryce era um piloto discreto, mas cujos dons de pilotagem em condições difíceis me fascinaram ao ponto de eu estar, então, a seguir atentamente a sua carreira. E lembro-me bem da sua performance nos treinos livres para esse Grande Prémio, realizados sob chuva, em que se superiorizou, com um quase obscuro Shadow, a todos os outros, incluindo os Campeões Niki Lauda e James Hunt. Infelizmente, a sua morte, com con-tornos tão macabros que nunca mais esqueci o horror que me causou na altura (e, a bem dizer, ainda hoje, nos tempos gloriosos do You Tube), impediu que ficasse catalogado entre os meus ídolos – mas para lá caminhava seguramente.

Piloto por acaso
Thomas Maldwyn Pryce nasceu em Ruthin, no País de Gales. Filho de um polícia, que tinha sido metralhador de cauda num bom-bardeiro Lancaster durante a Segunda Grande Guerra, Tom não tinha nada que o ligasse aos automóveis. Aliás, mais tarde confessou que a sua paixão era ser piloto de aviões e que só não o conseguiu por ser pouco… inteligente! Então, um dia, o padeiro da aldeia deixou-o conduzir a carrinha de distribuição do pão e, com dez anos, decidiu aquilo que queria ser quando fosse grande: piloto, mas de automóveis. Chamou os pais e informou-os da sua decisão, deixando-os estupefactos.
Mas Tom Pryce não começou logo a correr; os pais insistiram em que ele aprendesse o curso de mecânico de tractores, num colégio de Llandrillo e o jovem ado-lescente fez-lhes a vontade. Não por muito tempo: a sua decisão ia fervendo em lume brando. Começou a seguir as corridas de F1; arranjou mesmo um herói: Jim Clark. Foi com ele que teve o primeiro grande desgosto, quando o escocês morreu em Hockenheim, em 1968. Tomou, então, outra decisão crucial: seguir-lhe as pisadas. Dois anos mais tarde, novo desgosto, quando Jochen Rindt se matou na parabólica de Monza; mas, então, já o galês era piloto: estava no bom caminho para seguir os seus heróis.

Na F1 como num sonho
O seu sonho era chegar à F1. Começou por onde então quase todos começavam: a Fórmula Ford. Na sua primeira corrida, em 1969, no circuito de Mallory Park, teve a felicidade de se encontrar com Trevor Taylor, ex-piloto de F1 na Lotus e companheiro de equipa do seu ídolo Jim Clark! Entre 1969 e 1971, pilotou carros de Fórmula Ford, com algum sucesso – nomeadamente a sua fantástica vitória em Silverstone, em 1970, debaixo de chuva torrencial, come-çando a construir aqui o mito de imbatível à chuva.
Em 1973, com um desconhecido Royale RP11 sem patrocínios, ganhou a prova de F3 integrada no programa da Corrida dos Campeões, em Brands Hatch, batendo Roger Williamson, James Hunt e Jochen Mass. Um acidente com o mesmo carro, no Mónaco, quando foi abalroado por Peter Lamplough, causou-lhe algumas fracturas, de que levou algumas semanas a recompor-se.
No ano seguinte, fez algumas corridas de Fórmula Atlantic, vencendo três, antes da Royale decidir subir à F2. Nesta categoria, Pryce nunca ganhou, mas esteve quase, em Norisring, prova que liderava quando o Royale teve proble-mas de travões.
Finalmente, em 1974 consumou o sonho: mesmo com um medíocre Token, estreou-se no Grande Prémio da Bélgica. Tinha 25 anos e a sua primeira prova terminou mal, com um “encontro imediato” com Jody Scheckter. A prova seguinte era no Principado, mas recusou correr lá, dizendo ser demasiado “inexperiente” para uma pista tão difícil e perigosa. Em vez disso, decidiu correr no Mónaco, mas de F3. E a sua performance entusiasmou de tal forma os responsáveis pela Shadow, que conseguiu um contrato quase de seguida, substituindo Brian Redman.
O valor de Pryce como piloto ficou bem expresso pouco depois, ao conseguir os seus primeiros pontos na F1, logo na sua quarta corrida com a Shadow – o 6º lugar na Alemanha, no perigoso traçado de Nurburgring. Antes disso, tinha já sido 3º na qualificação da prova francesa, em Dijon-Prenois.
Em 1975, continuou a progredir: pontuou cinco vezes, foi “pole position” em Silverstone e subiu ao seu primeiro pódio em Oster-reichring, palco do Grande Prémio da Áustria, onde foi 3º, sob terríveis condições atmosféricas. Pryce repetiu a proeza logo na prova de abertura da temporada seguinte, em Interlagos, Brasil. Nesse ano, conquistou dez pontos.
Então, chegou o fatídico ano de 1977. Nono nos treinos do Grande Prémio da Argentina, depressa atingiu o grupo da frente, onde rodava quando um problema mecânico o obrigou a entrar nas boxes. No Brasil, a prova seguinte, foi 8º nos treinos e estava em 2º lugar quando o motor falhou, ditando o abandono. Kyalami, onde teria lugar a 3ª prova do Mundial, seria o palco de tudo ou nada. Foi do nada…

Morte bizarra
Na primeira sessão de treinos, Pryce foi o mais rápido, a mais de um segundo de Niki Lauda. Chovia e, como sempre, o galês sentiu-se como peixe na água. Porém, como a qualificação foi com a pista seca, Pryce não foi melhor que 15º. O arranque foi péssimo, caindo para o último lugar. Em 20 voltas, chegou a 13º, ganhando 11 posições. Foi então que, nessa 21ª volta, o drama aconteceu: o seu colega de equipa, o medíocre piloto italiano Renzo Zorzi, encostou o seu Shadow no lado esquerdo da recta principal, com um princípio de incêndio a bordo. Atrapalhado, Zorzi estava em dificuldades para sair do “cockipt”, não conseguindo desligar os tubos de oxigénio do seu capacete. Ao verem isto, dois comissários que estavam do outro lado da pista, junto ao muro das boxes, decidiram atravessar a correr, para o ajudar. O primeiro deles, fê-lo sem problemas. O segundo, o jovem de 19 anos Frederik Jansen Van Vuuren, não teve tanta sorte: atingido em cheio pelo Shadow de Tom Pryce, cuja visão estava encoberta pelo carro de Hans Stuck, o seu corpo desfez-se em pedaços, jazendo junto ao muro das boxes. O extintor que carregava nas mãos bateu na cabeça de Pryce, arrancando-lhe de imediato o capacete e acertando depois no “roll bar”, que o catapultou para um espantoso voo, durante o qual passou para lá das boxes, aterrando contra um carro estacionado no “paddock”! Pryce morreu instantaneamente, quase decapitado pela violência do choque, que acon-teceu a cerca de 275 km/h. Com o piloto morto aos coman-dos, o Shadow con-tinuou em alta velocidade até ao final da recta, co-lhendo pelo caminho o Ligier de Laffite e terminando ambos contra as barreiras de protecção da primeira curva do circuito. Foi o fim da linha para o maior piloto de F1 do País de Gales, Tom Pryce. O seu fim horrorizou o pequeno mundo da F1 e ainda hoje deixa estupefactos os historiadores e fãs da categoria, pela sua brutalidade e bizarria.
Tom Pryce entrou para a galeria dos vencedores na F1 depois de ter ganho a Corrida dos Campeões em 1975. Nessa altura, esta era uma das mais importantes provas de F1, embora não contasse para o Mundial. Apesar disso, era mesmo mais importante que alguns Grandes Prémios oficiais – e vencê-la era um desafio para muitos pilotos “privados”, pois lá estavam, então, quase sempre as principais vedetas da altura. Realizava-se em Brands Hatch e, de uma forma geral, fazia mau tempo. Pryce foi, também, o único galês a liderar uma prova no Mundial – exactamente o Grande Prémio da Grã-Bretanha de 1975, durante duas voltas.
O ano de 1977 parecia ser o da sua confirmação na F1, depois de duas temporadas prometedoras. A Shadow, apesar de mediana, tinha encontrado o caminho das pedras e, com Pryce a liderar o piloto pagante Renzo Zorzi, estava em condições de, de vez em quando, lutar pelos lugares da frente, de maneira consistente. Infelizmente, o incrível acidente em Kyalami acabou com todas as esperanças – tanto de Pryce, como da Shadow, que nunca mais se recompôs da tragédia, encerrando as portas em 1980.

Texto: Hélio Rodrigues

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Uma resposta a Tom Pryce (11/06/1949 – 05/03/1977)

  1. CALIGULA diz:

    SIGO LA FORMULA UNO DESDE 1970 – HE VISTO MORIR A MUCHOS PILOTOS.

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