Didier Pironi (26/03/1952 – 23/08/1987)

Trágico destino

Estava na praia do Portinho da Arrábida a torrar ao sol de um Verão como já não existe hoje quando, de um rádio abandonado numa toalha vizinha, ouvi qualquer coisa sobre o acidente de Didier Pironi, nos treinos para o Grande Prémio da Alemanha. Não percebi muito bem o que tinha sucedido; mas a gravidade da voz do locutor fez-me pensar o pior. E, com o desaparecimento de Gilles Villeneuve ainda tão próximo, temi o fim da Ferrari.

Não foi o fim da marca de Maranello. Mas, para mim, a Ferrari nunca mais foi a mesma. Nem sequer quando Michael Schumacher a elevou de novo aos píncaros da glória. Didier Pironi e Gilles Villeneuve formaram, na minha modesta opinião, a dupla de pilotos mais fantástica da Ferrari dos tempos modernos. E, quando falo em pilotos, falo daqueles de verdade: que não tinham medo de perder uma corrida pelo prazer do espectáculo puro e duro. Ou seja, corridas a sério. Foi disso que viveram Gilles e Didier; e é disso que a sua lenda hoje sobre-vive, deste legado fantástico de pilo-tagem, irreverência e ausência quase total de medo. Aliás, estas carac-terísticas trans-portou-as consigo depois Pironi, quando percebeu que a sua carreira de piloto de F1 tinha ficado no asfalto molhado de Hockenheim e, anos mais tarde, decidiu enfrentar outras das suas paixões: as corridas de F1, mas em barcos.
Porém, nesse trágico ano de 1982, tanto Gilles Villeneuve como Didier Pironi poderiam ter sido Campeões do Mundo; o destino assim não quis. E o “comendatore” Enzo Ferrari perdeu, então, dois dos seus dilectos filhos, como ele considerava os pilotos que lhe tocavam o coração.

Talento inato
Didier Joseph-Louis Pironi nasceu em Villecresnes, no cantão de Val-de-Marne, em 1952. A sua paixão pelos automóveis come-çou bem cedo – aliás, isso não poderia ser de outra forma, pois o seu primo José Dolhem já corria e chegou mesmo a fazer uma prova de F1, o GP dos Estados Unidos em 1974.
Mas, já antes disso, Pironi, que decidiu estudar engenharia para seguir as pisadas do seu pai, era um desportista talentoso, ven-cendo mesmo o campeonato nacio-nal de… natação. Porém, depressa decidiu deixar os estudos e dedicar-se por inteiro às competições motorizadas. Começou pelas motos, sendo colega de pilotos como Claude Vigreux e Jean-Claude Guenard; só que estas eram demasiado perigosas e, depois de ver morrer o seu amigo Vigreux, a família proibiu-o de correr em duas rodas. Restavam-lhe as quatro e, em 1972, entrou para a escola de pilotagem Winfield, em Paul Ricard. Ainda nesse ano, inscreveu-se no Volante Shell, ganhando-o e, com isso, o prémio de fazer uma época na Fórmula Renault, que também venceu, em 1974. Dois anos mais tarde, sagrou-se campeão da Europa de Fórmula Super Renault e, em 1977, subiu dois degraus, decidindo correr no europeu de F2. Mesmo sendo estreante, ganhou a prova do Estoril e terminou o campeonato em 3º lugar, atrás de René Arnoux e Eddie Cheever.
Contudo, o que chamou a atenção dos “olheiros” da F1 foi a sua única corrida num F3 – o Grande Prémio do Mónaco. Mesmo sem conhecer o monolugar, Pironi não se fez rogado e venceu a corrida com uma eston-teante facilidade, humilhando os seus adversários. Estava aberta a porta para a F1.

O encontro estava marcado
Ken Tyrrell foi, é claro, quem lhe deu a mão. As fortes relações do velho lenhador com a Elf e o facto de Didier ser desde sempre apoiado pela petrolífera gaulesa, foram o factor decisivo para a estreia de Pironi na F1, em Buenos Aires, no Grande Prémio da Argentina, em 15 de Janeiro de 1978. Esse ano, apesar do Tyrrell ser um carro ganhador, foi de aprendizagem para o jovem francês, que pontuou em quatro das primeiras seis corridas da temporada. Porém, a sua coroa de glória foi a vitória nas 24 Horas de Le Mans, fazendo equipa com o veterano Jean-Pierre Jaussaud, ao volante de um Alpine Renault A442B.
Em 1979, continuou com a Tyrrell e, apesar do 009 ser inferior ao carro do ano anterior, Pironi subiu pela primeira vez ao pódio, em Zolder, no GP da Bélgica. No final do ano, deixou a Tyrrell e assinou pela Ligier, que já o assediava há quase um ano. O seu andamento foi de imediato semelhante ao do seu colega de equipa, Jacques Laffite e, por isso, não demorou a conseguir a sua primeira vitória na F1 – o GP da Bélgica. Porém, a sua ambição, a sua combatividade, o facto de nunca baixar os braços, mesmo em condições adversas, e a sua simpatia e educação, não passaram despercebidas a Enzo Ferrari, que não hesitou em contratar o pequeno piloto para ser companheiro de equipa de Gilles Villeneuve na Ferrari, a partir de 1981.
A cumplicidade entre Gilles e Didier foi imediata. Torna-ram-se amigos do coração, parti-lhando a mesma casa no Mónaco, viajando de pista em pista e passando férias juntos, com as respectivas esposas e os filhos de Gilles. No ano de 1981, tudo correu bem entre os dois colegas de equipa e amigos – apesar de Gilles Villeneuve ter ganho duas provas com o medíocre 126CK e Pironi não ter conseguido melhor que um 4º lugar no Mónaco. Contudo, as coisas mudaram de forma drástica em 1982. E trágica.
O Ferrari 126C2 era, ao contrário do anterior, um excelente projecto. Os dois pilotos completavam-se e, enquanto o canadiano continuava a ser superior ao francês nas pistas, este exercia um importante papel político fora delas, sendo mesmo o presidente da GPDA, a Associação de Pilotos de Grande Prémio. Tudo parecia bem encaminhado para que, finalmente, a Ferrari regressasse aos triunfos e, quiçá, aos títulos, apesar da Renault estar também em excelente forma. O eleito parecia ser Gilles Villeneuve.
No Grande Prémio de San Marino, um boicote das equipas inglesas, por causa da desclassificação do vencedor do GP do Brasil, Nelson Piquet, reduziu o plantel a 14 pilotos. Os “tiffosi” encheram as bancadas, pressentindo que a festa ira ser Ferrari. E foi, em especial a partir do momento em que o Renault de Arnoux pegou fogo, numa altura em que lutava pela vitória com Villeneuve e Pironi. O canadiano assumiu o comando e a prova tornou-se monótona; a poucas voltas do final, receando pelo consumo excessivo de combustível, os dois homens foram mandados abrandar o ritmo. Gilles obedeceu e levantou o pé e, nesse momento, Pironi passou-o como uma flecha e venceu a prova. Este acto foi considerado uma traição pelo sensível canadiano, que nunca mais falou ao seu colega e amigo. Na prova seguinte, numa luta surda pela hegemonia dentro da Ferrari, viria a perder a vida num acidente, durante os treinos. Pironi foi um dos primeiros a chegar ao local.
Pironi encetou então a sua corrida muito particular a caminho do título de campeão. Reagindo à morte de Villeneuve da melhor forma, um mês depois conquistou a “pole position” no Canadá, mas deixou o motor do Ferrari ir abaixo no arranque, levando então com o carro de Riccardo Paletti, que morreu com o choque. Uma vez mais, Pironi viu a morte de perto; mas, frio e ambicioso, não desanimou – e, na prova seguinte, em Zandvoort, na Holanda, conquistou a terceira e última vitória da sua carreira, naquela que foi a melhor corrida da sua vida.
A seguir veio o Grande Prémio da Alemanha. O mais rápido na sexta-feira, com tempo seco, Pironi decidiu ir para a pista, no dia seguinte, debai-xo de uma monu-mental chuvada, para testar pneus com rasgos. A 290 km/h, ao passar por Derek Daly, não viu o Renault de Alain Prost, rodando muito mais lento. O embate foi tremendo e Pironi ficou quase sentado no asfalto, no meio dos destroços do seu Ferrari. O acidente foi muito similar ao de Villeneuve mas, desta feita, o banco resistiu e o piloto não foi projectado. Mesmo assim, as fracturas nas pernas de Pironi foram gravíssimas e demorou mais de três anos a recuperar. Porém, nunca na totalidade, apesar das 47 operações que sofreu.
A sua paixão pela F1 manteve-se viva e, em 1986, num teste a um AGS, em Dijon-Prenois, foi apenas 1 segundo mais lento que René Arnoux, apesar de estar cinco quilos mais gordo, por causa dos medica-mentos. Ainda tentou um lugar na equipa, mas não conseguiu e percebeu com amargura que a sua carreira de piloto de F1 estava acabada. Tinha participado em 70 Grandes Prémios e triunfado em três. Naquele ano de 1982, estava na liderança do mundial quando aconteceu o acidente e ainda foi vice-campeão do Mundo, atrás do improvável Keke Rosberg!
Porém, havia outra forma de continuar a competir: a febre da velocidade não tinha diminuído nem um pouco. Com a ajuda da Elf, construiu o Colibri, o primeiro barco de competição totalmente feito em fibra de carbono, com um motor Lamborghini V12 de 780 cv. Fazendo equipa com o seu antigo colega nas motos, Guenard e com o vencedor do Paris-Dakar, com Ari Vatanen, o francês Bernard Giroux, era um dos favoritos ao título no Mundial de Offshore. Venceu a prova da Noruega e, em Agosto, quando estava a discutir o triunfo, perto da ilha de Wright, o Colibri foi surpreendido pelas ondas do petroleiro “Esson Avon”, a mais de 90 nós, quase 200 km/h. O barco levantou voo e desfez-se nas águas; os três homens morreram de imediato. O destino estava traçado, cinco anos depois de Hockenheim. Poucos meses mais tarde, o seu primo José Dolhem perdeu também a vida, num acidente aéreo.

Texto: Hélio Rodrigues

About these ads

Uma resposta a Didier Pironi (26/03/1952 – 23/08/1987)

Deixar uma resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

WordPress.com Logo

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Log Out / Modificar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Log Out / Modificar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Log Out / Modificar )

Connecting to %s

Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.

Junte-se a 848 outros seguidores

%d bloggers like this: