Gonzalo Rodríguez (22/01/1972 – 11/09/1999)

Herói nacional

Apenas vi Gonzalo Rodríguez correr uma única vez. Foi em 1994, numa pista inglesa, numa prova do campeonato de Fórmula Renault. Então, duas coisas me deixaram surpreendido: a sua simpatia e exuberância, na hora de comemorar a vitória, e a sua nacionalidade. Nunca tinha até aí encontrado um piloto do Uruguai.

De facto, não era fácil encontrar na Europa um piloto uruguaio. Mesmo numa altura em que o “El Dorado” do automobilismo de competição acolhia pilotos de todos os lados (aliás, tal como actualmente), com quase todos os países da América do Sul representados. E, com efeito, Gonzalo Rodríguez foi mesmo um dos poucos pilotos que extravasaram as fronteiras do seu país. Por isso, “Gonchi” é hoje um verdadeiro herói nacional.

A caminho da F1
Nesse ano de 1994, Gonzalo Rodríguez tinha aterrado em Londres, depois de duas temporadas em Espanha. Na primeira, conseguiu ser vice-Campeão de Fórmula Ford, com duas vitórias; na segunda, já na Fórmula Renault, ganhou apenas uma corrida e terminou o campeonato em terceiro lugar. No final desse ano, já quase sem dinheiro, decidiu voar para a Inglaterra – tinha ouvido dizer que ali era a Terra das Oportunidades para os jovens pilotos estrangeiros em busca de afirmação e, sozinho e sem saber quase falar a língua, não hesitou. Também, não tinha nada a perder – excepto o pouco dinheiro que ainda lhe restava. E, se não tivesse sorte, sempre podia regressar ao Uruguai – como tinha feito o seu amigo Marcelo Bresciani, que tinha corrido com ele em Espanha e tinha desistido ao fim de dois anos.
Chegou a Inglaterra com a áurea de piloto talentoso. Tinha 22 anos e, no seu currículo, constavam três títulos de Campeão Nacional de Karting (1985, 1986 e 1988), dois de Fórmula 4, competi-ção sul-americana de monolugares que usava motores Renault (1989 e 1990) e um de Carros de Turismo (1991). Neste ano, fez também algumas provas de F3 e, de Espanha, levou consigo a fama de piloto lutador e que nunca baixava os braços.
Amigo de Rubens Barrichello, que conheceu no Mundial de Karting de 1988 (que poderia ter ganho, não fosse uma avaria que o condenou ao abandono…), em Inglaterra decidiu enfrentar os “tigres” locais (e não só), no Campeonato de Fórmula Renault. No plantel, estava então um piloto português, Rui Águas, com quem lutou afincadamente pelo título. Não o conseguiu conquistar, pois classificou-se em terceiro, com um triunfo – precisamente na corrida a que assisti! Considerado o melhor “rookie” do ano, “Gonchi” aceitou participar na famosa prova de F3 de Macau, espécie de “campeonato do Mundo” da categoria, onde deu nas vistas… por ter provocado uma monumental carambola numa das mangas!
Depois desta experiência, decidiu manter-se na F3 e, correndo para a equipa de Alan Docking, ganhou a prova mais importante do ano em Inglaterra, a que está incluída no programa do Grande Prémio de F1, em Silverstone. Os resultados não foram tão bons no ano seguinte, onde se estreou na recém-criada F2, que utilizava velhos chassis de F3000.
Sem mostrar dificuldades com o brutal aumento de potência que significou esta evolução na sua carreira, Gonzalo Rodríguez terminou três das seis corridas que realizou no segundo lugar! Estava definido o seu horizonte: o caminho para a F1!
Por isso, em 1997 estreou-se na F3000 europeia, por uma equipa mediana, a Redman & Bright, com um propósito: aprender, para no ano seguinte lutar pelo título. Aprendeu, sem grandes resultados mas depressa e com segurança e, em 1998, lá estava ele a lutar pelo campeonato, conforme tinha prometido. Como rivais, tinha dois sul-americanos: o brasileiro Max Wilson e o colombiano Juan Pablo Montoya e o alemão Nick Heidfeld. “Gonchi” venceu duas corridas, uma delas na pista de “homens”, Spa-Francorchamps. A irregularidade do seu percurso não lhe permitiu, contudo, manter-se na luta até ao final do ano mas, em 1999, continuando no Team Astromega, acreditou ser o da sua consagração. E foi – mas, também, o do seu fim prematuro.
Depois de uma vitória numa prova de Turismos, em Punta del Este, na Argentina, Gonzalo Rodríguez embarcou de novo para a Europa. A sua temporada na F3000 começou bem, triunfando no prestigiado circuito de Monte Carlo, na prova integrada no programa do Grande Prémio do Mónaco de F1. Nesse dia, chorou de emoção: ele foi o primeiro uruguaio a ver subir a bandeira do seu país no Principado! “Gonchi” foi segundo em mais duas provas de F3000, uma delas de novo em Spa, que parecia ser a sua pista fetiche.
Na segunda metade dessa temporada, que estava a ser afortunada para o seu futuro, recebeu dois convites: um, da Benetton, para efectuar um teste no monolugar de F1, com vista a um possível contrato para 2000. Outro, de Roger Penske, dono de uma das principais equipas do campeonato norte-americano CART (hoje Fórmula Indy). Apenas teve oportunidade de concretizar este convite: o veterano ex-piloto ficou de tal forma impressionado com as capacidades do jovem uruguaio, que lhe perguntou se queria fazer algumas provas do campeonato, com a sua equipa. Encantado, e porque as datas não coincidiam com as do campeonato de F3000, “Gonchi” aceitou.

Fatal como o destino
Gonzalo Rodríguez tinha talento mais que suficiente para se afirmar no difícil mundo do automobilismo de alta competição. E ser, quiçá, o primeiro piloto do Uruguai a tempo inteiro na F1 – depois das efémeras experiências assinadas, nas décadas de 50 e 60, por Eitel Cantoni, Oscar Mario González e Alberto Uría, pilotos a que se juntou da maneira mais trágica no Panteão dos grandes desportistas uruguaios. Fatal como o destino decidiu.
A primeira prova de “Gonchi” nos “States” foi em Belle Isle, Detroit. Nesse ano, o seu amigo (e rival na F3000) Juan Pablo Montoya era um dos candidatos ao título no CART. Integrado numa das melhores equipas do plantel, o jovem estreante quis ser cauteloso e não deitar tudo a perder. Terminou a corrida em 12º, o que dava direito ao último ponto do “ranking”. Depois, voou para a Europa, terminou em segundo lugar em Spa, na F3000 e regressou aos Estados Unidos, para a que seria a sua segunda prova no CART.
A pista era uma das mais tortuosas e perigosas do país, Laguna Seca, com a terrível secção a descer, designada, pelo seu formato, Saca-Rolhas. Nos treinos matinais, “Gonchi”, ainda a aprender o traçado, seguiu em frente, na abordagem a essa curva, a mais de 250 km/h. Sem travões, o monolugar percorreu em linha recta uma enorme porção da escapatória, mas acabou por embater, de frente e num ângulo de 90º, contra o muro de cimento, mal protegido por pneus. O carro levantou voo e passou para lá da barreira, imobilizando-se de rodas para o ar. “Gonchi” teve morte imediata, por fractura na base do crânio, após embater com o capacete no cimento do muro.
O acontecimento causou uma enorme consternação nas hostes do campeonato CART e na Europa, onde Gonzalo Rodríguez era visto como um futuro piloto de F1. Mas a onda de maior emoção varreu o seu pequeno país, que ficou órfão de uma estrela cintilante, que poderia ter brilhado de forma intensa e perene no firmamento da competição automóvel internacional. Ainda não foi desta que o Uruguai teve o “seu” Ayrton Senna.

Texto: Hélio Rodrigues

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