Irmão e delfim de Derek
Uma noite, estava eu em casa, quando o telefone tocou. Era daqueles telefones negros, de disco, fixos a uma tomada na parede e com um som estridente quando “incomodados”. Do outro lado, a voz do Director: “Conheces o Paul Warwick? Tens alguma coisa sobre ele?” Respondi que sim e perguntei a razão daquelas duas perguntas. Quando pousei o auscultador, fiquei parado a olhar: Paul Warwick tinha apenas 22 anos; não merecia tal sorte.
Paul Warwick era o irmão mais novo de Derek, o piloto de F1. Conheci-o em 1990, quando ele participou em algumas provas da F3000 europeia, dando nas vistas com um carro da Leyton House, equipa que então fazia parte também do plantel da F1. Sem experiência anterior e quase parado há dois anos, o jovem de 21 anos assinou de imediato os melhores resultados da equipa naquela categoria!
Nessa altura, as atenções dos portugueses esta-vam centradas em Pedro Chaves, que estava a discutir o título na F3000 britânica, com um tal Alain Menu. No final, o português ganhou e sagrou-se campeão, ao volante de um chassis da equipa Madgwick Motorsport, gerida por… Nigel Mansell. Foi ao volante desse chassis que Paul Warwick, uns meses depois, venceu a sua primeira prova de F3000 britânica – e provocou assim um final à malapata que o perseguia há já quatro anos, durante os quais passou de piloto vencedor e com um futuro promissor à sua frente, para um frustrado piloto à beira do desemprego. E, por uma vez, Mansell provou não estar enganado, quando decidiu contratar aquele jovem de cabelos negros e sempre divertido.
Warwick, com o nº 1 no “bico” do Reynard azul e vermelho, fez jus a essa responsabilidade e venceu de uma assentada as pri-meiras quatro provas do campeo-nato. Na quinta, disputada no infame e envelhecido circuito de Oulton Park, o irmão de Derek parecia encaminhado para o quinto triunfo consecutivo; na frente com uma apreciável vantagem, a cinco voltas do final, na zona mais rápida e difícil da pista (a curva de Knickerbrook, então uma direita feita a fundo), a quebra de um elemento da suspensão dianteira provocou o acidente. O carro despistou-se e embateu nos “rails” a cerca de 230 km/h, desintegrando-se por completo – a tal ponto, que os socorristas não conseguiram encontrar de imediato o corpo do infeliz piloto, que ficou encastrado entre a barreira de pneus e os “rails”. Paul ainda foi transportado de helicóptero a uma unidade hospitalar dos arredores, mas o óbito foi declarado escassas horas mais tarde. A vantagem que levava na frente do campeonato era tal, que ninguém mais conseguiu ultrapassá-lo, ganhando assim o seu primeiro grande título no automobilismo, mas sem nunca o saber e sem nunca o festejar. Paul Warwick foi o primeiro – e, até agora, único – campeão inglês a título póstumo.
Primeiros passos promissores
Paul Warwick nasceu 15 anos depois de seu irmão Derek, em 1969. Iniciou-se com 12 anos, nas corridas de Ministox e Superstox, vencendo 30 eventos, antes de se estrear na Fórmula Ford 1600, em 1986, com 17 anos. A sua rapidez era fenomenal e, num ano em que arrebatou os títulos em duas das principais competições nacionais com aquele tipo de monolugar, ganhou 17 corridas. No mítico Formula Ford Festival, uma espécie de “mundial” da categoria, disputada em Outubro, em Brands Hatch, Warwick, em estreia absoluta, ganhou uma das mangas de qualificação, chegando à Final, onde abandonou na segunda volta, quando lutava pelo triunfo.
Nos quatro anos seguintes, a sorte nada quis com Paul Warwick, nunca mais conseguindo triunfar numa corrida, até à sua primeira prova com a Madgwick Motor-sport, no início de 1991. Mesmo assim, foi 2º no Campeonato europeu de Fórmula Ford 2000, uma modalidade então em declínio, em 1987, progredindo depois para a F3 no ano seguinte, classificando-se em 8º lugar no campeonato britânico, com duas segundas posições como melhores classificações. O ano de 1989 foi ainda mais frustrante: manteve-se na F3 britânica, mas agora na equipa TOM’s Toyota, sem resultados de interesse.
Assim, em desespero de causa, Warwick abandonou a equipa e a F3 a meio da temporada. Para não ficar parado, decidiu fazer algumas provas de carros de Turismo, com o seu irmão Derek – até receber um convite da Leyton House para fazer quatro provas de F3000, na Europa. O 8º lugar de Birmingham foi a sua melhor prestação; mas, mesmo assim, bem melhor do que a equipa tinha feito até aqui e suficientemente bom para atrair as atenções de Nigel Mansell. O resto, ficou na história, mas pelas piores razões.
Uma curiosidade: a causa da quebra da barra de suspensão no Reynard pilotado por Paul Warwick foi atribuída a um acidente, em Brands Hatch, no ano anterior, quando Pedro Chaves bateu nas barreiras de Druids com aquele lado do carro, danificando os pontos de ataque da suspensão, que nunca mais ficou em bom estado. A fadiga do material revelou-se da pior maneira possível, algumas provas mais tarde.

