Roger Williamson (04/02/1949 – 29/07/1973)

Sacrificado no altar da paixão

Roger Williamson foi um nome que aprendi a associar ao sacrifício e à insegurança no automobilismo de competição. Estranhamente, foi também o protagonista do primeiro GP que vi na televisão, ainda a preto e branco. Por tudo isto, nunca mais o esqueci.

Recordo-o como se tivesse sido ontem, aquele triste Grande Prémio da Holanda de 1973, em Zandvoort. Era um domingo quente de Verão, como eram quentes os domingos de Verão nessa altura, em que ainda existiam, bem delimitadas, as quatro estações do ano. Eu estava em viagem, com o meu pai, na célebre VW “Pão de Forma” EI-47-34, rumo a um mercado. Ar condicionado, era na base do vidro aberto – e, nas “Pão de Forma”, a ventilação “manual” não era a mais eficaz… Por isso, nada melhor que parar numa aldeola, que tinha uma tasca à beira da estrada, para matarmos o calor e, também, aconchegarmos o almoço.
Lembro-me que o interior dessa tasca era escuro, chei-rava a vinho e cerveja – e, claro, ao inevitável ramo de loureiro, pen-durado na parede, ao fundo. No alto dessa parede, rodeada de prateleiras com garrafas às cores, troava um televisor, com imagem a preto e branco. E, quando entrei, lá estava a imagem a mostrar um carro envolto em fumo. Eu sabia que estava a acontecer o GP da Holanda, é claro; mas, como nessa altura não havia televisão em casa dos meus pais, nunca tinha visto uma prova. Aquela foi a primeira; não assisti até ao fim da corrida, mas recordo bem a imagem dos comissários totalmente desorientados e de outro piloto, que então não sabia chamar-se David Purley, em desespero de volta do March, a tentar virá-lo com as mãos, indiferente às chamas, ao fumo e às tentativas de o afastarem dali, lavadas a cabo pelos tais comissários. No dia seguinte, li no jornal que o piloto tinha morrido e se chamava Roger Williamson. Aos 24 anos e por incúria. A sua morte, contudo, não foi em vão: as preocupações com a segurança, corporizadas por pilotos como Jackie Stewart, aumentaram de forma dramática – iniciando o caminho que levou até aos dias de hoje.

Talento promissor
Roger Wiliamson foi um caso sério de talento. Na verdade, se o drama não tivesse encurtado a sua vida, tinha todas as qualidades para ir muito longe, atingindo e eventualmente conquistando metas que é lícito acreditar estarem ligadas a uma carreira de sucesso na F1. Por ocasião da sua morte, por manifesta incúria dos comissários de Zandvoort, este jovem de 24 anos (dizia ser mais velho um ano, porque achava mais credível… e, por isso, todas as fontes indicam a sua data de nascimento como 2 de Fevereiro de 1948, excepto… o seu certificado de nascimento!), então na sua segunda temporada “a sério” nas corridas, era considerado um talento brilhante.
Começou aos oito anos, com uma miniatura, num encontro no estádio de Leicester, a sua cidade natal. A partir daí, ao volante de um protótipo construído pelo seu pai Dodge, um antigo piloto de “speedway” e dono de uma oficina, nunca mais parou: no “karting” a partir dos 12 anos, foi ele quem estabeleceu a maior velocidade a que um veículo destes tinha até então sido cronometrado – 184 km/h, em Alton Park! Ainda no “karting”, conquistou 125 troféus e o título na Classe 4, para “karts” com motor de 200cc e caixa de quatro velocidades.
Depois do “karting”, Roger Williamson espalhou o terror nas provas de carros de Turismo, primeiro com um Mini 850, depois com um Mini 1300 e um Ford Anglia, com o qual lutava (e vencia!) contra carros bem mais potentes e “volumosos”. Mallory Park, Castle Combe, Brands Hatch, Crystal Palace,  Mondello Park e Thruxton foram algumas das pistas onde subiu ao lugar mais alto do pódio. Em 1970, com o Anglia, venceu um campeonato, o Hepolite Glacier Special Saloon Car.
Pelo meio, foi experimentando os monolugares, desde logo um F3. A sua primeira tentativa, em 1968, terminou com um incêndio que destruiu o chassis, em Mallory Park. Em 1969 e 1970, divertiu-se a vencer com o Anglia, antes de dar o grande passo rumo à F1 – com um March 713M, foi de imediato competitivo, vencendo o campeonato Lombard de F3, com 90 pontos e terminando em 2º lugar o campeonato Shell. Nesse ano, correu no Grande Prémio do Mónaco de F3, terminando em 7º lugar mas chamando a atenção pelo seu brilhantismo e coragem o dono do circuito de Donington, Tom Wheatcroft. A partir daí, este mecenas nunca mais perdeu de vista o jovem Williamson, apoiando-o até ao final da sua carreira de forma incondicional. Em 1971, para lá daquele título na F3, ganhou diversos prémios de Piloto do Ano.
Em 1972, Williamson voltou a vencer títulos na F3, desta feita os campeo-natos Forward Trust e Shell Oils, dividindo-se entre um March e um GRD. Enquanto isso, a sede de aprender e evoluir levou-o a fazer algumas corridas de Fórmula Atlantic e F5000, na Inglaterra, bem como de F2, com um GRD. Era o caminho para um empenho total no Campeonato da Europa de F2, em 1973: primeiro com um GRD 273, depois com um March 732, com as cores da equipa Wheatcroft, venceu o Grande Prémio da Lotteria, em Monza, terminando 7º em Pau, 8º em Thruxton, 9º em Mallory Park e 11º em Nurburgring.
Entretanto, estava já na F1. No início do ano, Sir Louis Stanley, dono da BRM, perguntou-lhe se não queria ajudar a desenvolver o seu monolugar. A equipa tinha como primeiro piloto um tal de Clay Regazzoni e, na sua primeira volta com um carro de F1 (o BRM P180), Williamson igualou o recorde da pista para aquele monolugar! Entusiasmados, os responsáveis pela equipa deram-lhe então um BRM P160 e, com diversos jogos de pneus, de compostos diferentes, o piloto rodou sempre abaixo do melhor tempo até então feito pelo carro. Foi-lhe então oferecido um contrato, que foi vetado pelo seu mentor Tom Wheatcroft, que queria o seu pupilo na F1, sim, mas ao volante de um carro com motor Ford Cosworth. Então, a meio da temporada, assinou um acordo com a March, enquanto eram discutidos pormenores para um contrato válido para 1974, ao volante de um Tyrrell. Esse acordo ficou difícil a certa altura e nunca foi assinado – e, quando teve o seu acidente fatal, Williamson tinha a sua presença no Mundial de 1974 garantida, com um McLaren M23, comprado entretanto por Wheatcroft!
Infelizmente, o des-tino assim não quis. No seu segundo Grande Prémio – tinha-se estreado em Silverstone, no GP da Grã-Breta-nha, terminando a corrida, que iniciara em 22º, no célebre acidente despoletado pela “loucura” de Jody Scheckter – Roger Williamson perdeu a vida, horrivelmente queimado, depois do seu March se ter virado, após o piloto ter perdido o seu controlo, devido à areia das dunas vizinhas, lançada pelo vento para o meio da pista. O March bateu nos “rails”, mal seguros na areia mole (!), na primeira de duas curvas à direita, feitas em 5ª velocidade, sendo catapultado para o outro lado, ficando de rodas para o ar. O piloto não perdeu os sentidos e nem sequer estava muito ferido; no March, começou então um pequeno foco de incêndio, o que deixou os comissários em pânico. A corrida continuou, enquanto os socorros não chegavam, o fogo aumentava de intensidade e o piloto se debatia no “cockpit” do March. O drama cresceu de intensidade quando David Purley, amigo íntimo de Roger Williamson, parou na pista e correu para o socorrer, sendo impedido de forma violenta pelos comissários. Gerou-se mesmo luta física, até Purley sucumbir em lágrimas, ao ver que nada mais havia a fazer pelo jovem piloto, queimado pela incúria mais brutal e grotesca dos socorristas presentes no local. Depois deste macabro acidente, testemunhado em directo por milhões de pessoas, a F1 nunca mais foi a mesma: a segurança aumentou, Jackie Stewart decidiu abandonar a competição no final do ano (retirada que antecipou, ao morrer o seu colega de equipa, François Cèvert) e a segurança, de forma progressiva e firme, foi aumentando nas corridas de automóveis. Quanto a Zandvoort, nunca mais acolheu provas de F1 e a pista, que esteve encerrada muito tempo, foi encurtada, afastando-se um pouco mais das dunas traiçoeiras.

Texto: Hélio Rodrigues

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