O pioneiro do “drift” na F1
Ronnie Peterson era o meu piloto preferido quando teve o seu acidente fatal, no Grande Prémio de Itália de 1978. A sua morte foi, para mim, que assisti em directo, como aliás milhões de pessoas, pela TV, um acontecimento chocante. Não apenas por desaparecer um piloto que, em consciência, foi o meu primeiro grande ídolo na F1, como pelas circunstâncias pessoais que acompanharam o seu desaparecimento.
Em primeiro lugar, esteve aquele artigo funesto e tão estranhamente agoirento, que o então jornal AutoSport publicou. Numa análise aos biorritmos de todos os pilotos participantes no mundial (o biorritmo era uma “ciência” que estava na berra na altura…), concluiu-se que, de todos, o sueco da Lotus era o que estava mais débil física, mental e intelectualmente; a coisa foi elevada à sentença de que ele estava particularmente propenso a um acidente grave durante a prova. Sábias premonições: nessa prova, ele morreu!
Depois, um comen-tário impulsivo que fiz, pouco antes do acidente e de que, por motivos óbvios, depois me arrependi amargamente. Na ocasião, trabalhava em “part-time” num posto abastecedor de combustível, nos arredores de Santarém. Como era normal, toda a gente sabia da minha paixão pela F1. A um desafio mais acintoso de alguém que não recordo hoje quem era, respondi desabridamente que “o Peterson vai morrer hoje, e pronto! Já pode o Andretti ser o campeão!” Recorde-se que, nesse ano, existia um polémico antagonismo entre os dois colegas de equipa na Lotus, com o norte-americano a ser, aparentemente, mais apoiado por Colin Chapman. E, na vedade, Andretti foi Campeão do Mundo – mas sê-lo-ia sempre com Peterson vivo, acreditando-se que o sueco, boa gente e sem gostar de confusões, iria sempre aceitar as ordens de Chapman, numa Lotus em que ele era segundo piloto. Apesar de bem mais rápido que o veterano norte-americano…
Finalmente, nunca cheguei a perceber como é que os médicos que atenderam o infeliz piloto, cometeram o erro crasso de não o acompanharem correctamente, permitindo que a embolia gordurosa fosse fatal, num quadro clínico de meras fracturas ósseas nas pernas! Ronnie Peterson ficou consciente depois do embate e durante as operações de socorro. Quase ninguém se recorda que Vittorio Brambilla ficou em condições muito mais graves, depois de ter levado com uma roda na cabeça, chegando a estar em coma durante vários dias! Por isso, o meu choque profundo quando ouvi, na manhã seguinte, na rádio a notícia da sua morte, estava eu a tomar o pequeno-almoço!
Tímido e temerário
Ronnie Peterson nasceu em Orebro, uma pequena cidade sueca e, desde cedo, desen-volveu o gosto pela velocidade. Estreou-se no “karting” e, logo aí, estabeleceu aquela que iria ser a sua “assinatura”: as longas derrapagens controladas, estilo que manteve mesmo na F1. Onde, aliás, era reconhecido pelo simples rugido do motor do seu carro, sempre no “red line” e, claro, sempre a fundo. Depois, era o prazer de o ver passar, delineando a trajectória com a traseira em constante deriva e deliciando toda a gente – incluindo os seus parceiros de pista! – com as suas amplas derrapagens controladas. Foi este seu estilo quase “kamikaze” que me deliciou e fez seu indefectível fã.
Depois do “karting”, Peterson evoluiu para a F3, antes de conquistar o título europeu na F2, em 1971. Nesse ano, já lhe chamavam de “Sueco Voador” – e já tinha feito a sua estreia na F1, garantindo para a sofrível March cinco segundos lugares. Manteve-se na equipa inglesa até assinar pela Lotus, em 1973, ano em que conquistou a primeira das suas dez vitórias na F1 – o GP de França; nesse ano, venceu mais três provas e, no seguinte, outras três.
Mas a sua carreira foi feita de altos e baixos. Tímido, a sua silhueta enorme e relaxada era bem conhecida nos “paddocks” de então – sempre com a sua bonita esposa, a loira Barbro, formando um dos casais mais deslumbrantes e simpáticos da F1. Essa timidez escondia uma enorme frieza nas situações mais complicadas e, também, uma grande coragem e habilidade natural e, por vezes, mesmo temerária, ao volante.
Depois de um mau ano de 1975, saiu da Lotus e regressou à March, vencendo um improvável GP de Itália, antes de assinar pela Tyrrell, onde pilotou o estranho P34, de seis rodas, quatro delas na frente. Novo ano sem resultados de vulto e… o surpreendente regresso à Lotus!
O ano de 1978, com duas vitórias e uma perfeita adaptação ao “efeito-solo” dos monolugares de F1, seria o mais intenso da sua carreira e aquele em que teve material mais competitivo, capaz de lhe proporcionar um título de Campeão. Contudo, a lei da vida não quis assim – e Ronnie Peterson acabou por perder a última corrida, aos 34 anos, na sequência de uma monumental carambola, que envolveu dez carros, na largada para o Grande Prémio de Itália, em Monza, a pista da sua paixão e onde já tinha ganho por três vezes. Na altura teria já assinado contrato para pilotar, em 1979, pela McLaren.
A história de Ronnie Peterson teve um fim triste, para lá da sua morte. A sua viúva, Barbro, nunca aceitou o fim do marido e, apesar de ter refeito a vida ao lado de John Watson, colega de pista de Peterson, suicidou-se alguns anos depois, com 41 anos.


Peterson era também o meu preferido. Foi aliás o único.
Parabéns pelo excelente blog.