Peugeot 404 Commercial (1960-1975)

A avozinha das “pick up”

O Peugeot 404 foi o “carro do povo” em Portugal. Pelo menos, nas pequenas aldeias, onde ainda hoje se consegue encontrar, com alguma facilidade, um exemplar deste veículo dos anos 60 e 70. Em especial, na versão furgoneta de caixa aberta – que, sem ironia, foi a avozinha das “pick up”.

Este sim: o Peugeot 404 é que povoava mesmo as estradas do Portugal dos pequeninos, há 40 ou 45 anos. Mais que o 2cv ou a 4L, e claro que muito mais que o Isabella, o 404 foi o carro que mais me encheu os olhos juvenis, estava eu no final da minha primeira década de vida.
Num Peugeot 404 – do taxista da aldeia, que tinha também uma lojeca de bicicletas, onde eu ia buscar os remendos para os pneus da velha ramona… – viajei eu, com a minha avó, numa visita ao Santuário de Fátima, antes do Natal de 1970. Não gostei nada da viagem, talvez por causa do ar sinistro do local, envolto em chuva feroz e fustigado pelo vento uivante nas ramadas das azinheiras, em maior número que agora. Sobre o 404, apenas me lembro que era… verde e preto, e cheirava a novo.
Para lá desta história, lembro-me de mais algumas, mas agora tendo como protagonistas mal estimadas furgonetas de caixa aberta, cinzentas – eram todas cinzentas, e os automóveis, ou brancos, ou pretos! Por exemplo, aquele dono da mercearia que decidiu fazer trabalhar a petróleo a sua 404 – deixando atrás de si o cheiro tão característico do líquido rosado queimado, que tão bem recordo ainda da velha casa dos meus avós e dos serões iluminados com aqueles pequenos candeeiros de fumeiro em frágil vidro rendilhado no alto.
Ou, então, a história daquela 404 cujo dono, um gorduroso criador de porcos, com os inevitáveis bigode e boné sebentos, decidiu montar uma engenhoca, com uma botija de gás butano na caixa aberta e uma ligação marafada até ao motor. Tudo correu bem até que, um dia, estava ele na tasca a emborcar uns copos de três, com a furgoneta parada à porta, e passou uma daquelas patrulhas da GNR, que andavam a pé, de aldeia em aldeia, um de cada lado da estrada. O espanto de um dos guardas, ao perceber o silvo do gás que se escapava de um tubo que saía da caixa de carga, levou-o a investigar. Até pode ser que seja um mito… rural, pois não estou bem a ver como seria possível fazer uma coisa destas sem aquilo explodir. Mas que há artistas para tudo, lá isso há! Aliás, também devem fazer parte desse mito os copos de carrascão que pagaram a cumplicidade da patrulha…
Seja como for, ainda hoje é muito fácil encontrar uma destas furgonetas numa aldeia – muito mais que os auto-móveis, talvez porque estes fos-sem mais facilmente substituíveis, por uma questão de… “status” e as furgonetas continuassem, ano após ano, a cumprir com lealdade funções que lhe iam sendo destinadas! Hoje, as que sobrevivem, continuam a poluir atrozmente os ares com os gases negros lançados pelo seu periclitante e fino tubo de escape. Mas, para quem quiser dar uma de amante dos Clássicos, tendência hoje tão na moda, é fácil encontrar um exemplar. Quanto mais não seja, uma carcaça deixada debaixo de uma figueira, com os cardos a rodearem a rodas e, nos casos mais desesperados, com as flores amarelas das ineixas a surgirem por entre as peças ferrugentas do motor… Lirismos, está claro; mas isto das 404 é como as bruxas – “que las hay, las hay”! E muitas!

Para todo o serviço
Mas o Peugeot 404 não foi apenas a furgoneta de caixa aberta. Pelo contrário: foi um dos maiores sucessos da indústria automóvel francesa, pela sua versatilidade, fia-bilidade e robustez. Apresentado no Salão Automóvel de Paris, foi lançado em 1960 e, durante quase duas décadas, foi produzido na Europa a todo o vapor. Substituto de outro fiel companheiro de trabalhos e viagens – o 403 – foi produzido num completo painel de versões e carroçarias. Da berlina de quatro portas, à carrinha, sem esquecer o descapotável (1962), um “coupé” (1963) e, claro está, a inevitável furgoneta de caixa aberta (em madeira no nosso país, metálica “lá fora”), de tudo um pouco a marca de Sochaux fez com o 404, até cessar a produção, em 1975. Para que conste, o sucesso do 404 foi tão grande, em regiões para lá da Europa, que no Quénia continuou a ser produzido até 1991, em simultâneo com o 504, que lhe herdou as qualidades e o sucesso. E por falar em sucesso, a furgoneta continuou alegremente a ser comercializada até 1988!
O “design” do Peugeot 404 era muito avançado para a sua época – de tal forma que, ao longo da sua vida, apenas recebeu pequenas ope-rações de “restyling”. Aliás, outra coisa não poderia deixar de acontecer, pois a assinatura da obra era de um tal Pininfarina.
Prático e com muito espaço interior, recebeu três motorizações – duas a gasolina, 1468cc e 60 cv, descontinuada em 1969; e 1618cc e carburador Solex (72 cv), ou injecção mecânica Kugelfischer (85 cv); uma Diesel, de 1948cc e 64 cv, introduzida em 1965. A transmissão estava a cargo de uma caixa manual de 4 velocidades “invertidas” ou, em alternativa, uma caixa automática ZF de 3 velocidades, semelhante à utilizada na altura por certos modelos da BMW. A velocidade máxima anunciada podia chegar aos 167 km/h para o modelo a gasolina e aos 130 km/h para o Diesel. Com este, a Peugeot tornou-se, a par da Mercedes-Benz, uma das marcas a apostar na propulsão a gasóleo em modelos de grande produção.
A versatilidade do 404 era de tal forma evidente e útil, que a Peugeot decidiu produzir uma versão exclusivamente voltada para a indústria dos táxis, denominada Taxicab.
Célebre pela sua durabilidade e qua-lidade, o Peugeot 404 foi produzido até 1975, em França, totalizando 1.847.568 unidades; porém, nos 13 anos seguintes mais 2.885.734 unidades foram produzidas, sob licença, em vários locais do Globo.
Finalmente, aliando a estas qualidades uma versatilidade a toda a prova, o Peugeot 404 protagonizou uma carreira de sucesso em termos desportivos, sendo de realçar as vitórias conquistadas no demolidor Rali Safari, no Quénia, em 1963, 1966, 1967 e 1968.

Texto: Hélio Rodrigues

Uma resposta a Peugeot 404 Commercial (1960-1975)

  1. matos diz:

    TAMBEM TENHO UMA 404

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