Uma história trágica
Este ano voltam a estar na moda os pilotos pagantes na F1. Oportunidade para quem tiver malas a abarrotar de dólares ascender ao cume do sonho, mas também viveiro de pilotos pouco experientes e, tantas vezes, com um talento discutível. O exemplo mais flagrante, que me recorde, é o de Riccardo Paletti. Por ser uma tragédia da vida.
Riccardo Paletti era um jovem filho de papá típico. Natural de Milão, o seu pai era, entre outras coisas, representante da Pioneer em Itália. E tinha uma recheada agenda de contactos, desde a política ao grande mundo empresarial. Por isso, estava em condições de pagar os caprichos do filho.
Apesar de algumas limitações físicas pouco apropriadas para quem sonhava alto em termos de competição – usava óculos de grossas lentes, devido à sua miopia – Paletti era um desportista de eleição. Aos 13 anos, foi campeão júnior de Itália em karaté; depois, conseguiu integrar a selecção nacional juvenil de esqui alpino. Até que, aos 19 anos, decidiu que aquilo que queria mesmo era ser piloto de automóveis. Uma decisão que lhe custou a vida, quatro anos depois – mas já na F1, o pico da carreira de qualquer jovem piloto de corridas de velocidade.
Talento escondido
Curiosamente, Paletti, que não tinha nenhuma experiência anterior neste tipo de coisas, liderou durante 18 voltas a sua primeira corrida, no campeonato de Fórmula Super Ford de 1978. Nesse ano, disputou nove provas, nunca ganhou mas, graças a alguns bons resultados, como dois segundos lugares, terminou o campeonato em terceiro.
Animado por estes inesperados resultados, Paletti decidiu voar mais alto – começando por encurtar etapas, um erro crasso quando se quer ter sucesso; mas o milanês já estava com 20 anos e, além disso, tinha por trás um baú de notas, com o beneplácito paterno.
Assim, depois de uma primeira experiência, ainda em 1978, com um March-Toyota de F3, no ano seguinte participa em todo o campeonato de F3 italiano. Sem grandes resultados – o melhor que conseguiu foram dois quintos lugares.
Então, acreditando que o melhor mesmo era seguir em frente sem olhar para trás, o piloto fez a sua primeira prova com um F2… desistindo cedo por causa de um despiste!
Mas os milhões de liras do pai falaram mais alto e, em 1981, depois de um ano mais ou menos sabático – durante o qual foi apresentado a Mike Earl, dono da equipa Onyx, uma das melhores na F2, ficando amigos – Paletti chegou a tempo inteiro ao Campeonato da Europa de F2. Tinha, como credenciais, a experiência frustrada de 1979 e uma série de testes, no Inverno de 1980. Mas começou de forma encorajadora, com um segundo lugar na prova de abertura, em Silverstone, atrás de Mike Thackwell. De seguida, um abandono em Hockenheim, amenizado pela assinatura da volta mais rápida, e um terceiro lugar em Thruxton – e foi tudo. Até ao fim da temporada, nunca mais pontuou ou conseguiu uma exibição de relevo, terminando o ano em décimo lugar.
Só que a sua estrela estava com o brilho em alta: já tinha por trás de si os milhões da Pioneer, sempre graças ao seu pai e a Pioneer queria ir para a F1. Por isso, em 1982, conseguiu um lugar na medíocre Osella e, sem nunca ter ganho corrida nenhuma e sem nunca ter sido campeão, Riccardo Paletti, aos 23 anos, estava na F1. Mesmo antes da temporada começar, o piloto confessou que a F1 lhe metia um pouco de medo – mas enfim, era de facto um sonho e, além disso, tinha que obedecer aos desejos do patrocinador…
Uma carreira curta e dramática
A carreira de Paletti na F1 foi curta e dramática. Na Osella, o seu companheiro de equipa era o experiente Jean-Pierre Jarier, chamado de “pé de chumbo”, vá-se lá saber porquê… O seu destino estava traçado: sem outros recursos além do dinheiro, nunca seria competitivo. Na verdade, a sua passagem pela F1 foi quase dolorosa. Na África do Sul, ficou a dois segundos do último lugar da grelha, que era ocupado por… Jarier; no Brasil, saltou uma roda na sessão de pré-qualificação; nos Estados Unidos-Oeste, enquanto Jarier se qualificou entre os dez primeiros, Paletti ficou a 3,5 segundos do último lugar, voltando a falhar a qualificação. A quarta corrida foi a célebre prova de Imola, em que a guerra FISA – FOCA afastou grande parte das equipas e apenas 14 carros participaram, com Paletti a conseguir bater os dois Osella; mas a sorte foi coisa que nunca quis nada com o jovem piloto e, depois de ter falhado a “warm up”, teve ainda que sair das boxes, rodando em último lugar durante sete voltas, quando abandonou. Na Bélgica e no Mónaco, voltou a não passar das pré-qualificações. A primeira qualificação de Paletti, com a grelha completa, aconteceu no GP de Detroit, onde ficou surpreendentemente perto de Jarier; só que, na “warm up” de domingo, ele e o francês se desentenderam, chocando e danificando os carros. Mas um azar nunca vem só – e, durante a reparação do carro de Jarier, os mecânicos pegaram-lhe fogo inadvertidamente e, assim, Paletti ficou de fora da prova, ao ter que ceder o carro de reserva ao seu colega de equipa!
A prova seguinte, a oitava da temporada, era no Canadá e Paletti decidiu convidar a mãe, Gina, para o acompanhar, pois desejava festejar o seu 24º aniversário – dois dias depois da corrida – com ela. E, pela primeira vez, as coisas correram bem ao piloto: qualificou-se com relativa facilidade, não se meteu em encrencas com ninguém e, na grelha, ele lá estava, por direito próprio. Foi então que as coisas começaram a correr mal!
As luzes dos semáforos demo-raram demasiado tempo a apagarem-se e, entretanto, Didier Pironi, que tinha a ”pole position”, deixou o motor do seu Ferrari ir abaixo. Sinalizou a situação com os braços e toda a gente o viu e se desviou, menos Raul Boesel, que lhe tocou, desviando-se e ficando a tapar a visão a Paletti – que, ainda por cima, tinha óculos e era míope! Por isso, quando se apercebeu do carro parado à sua frente era tarde de mais e o embate, a mais de 180 km/h, foi terrível. O primeiro a chegar ao pé dos destroços do Osella foi Pironi – segundos antes do carro irromper em chamas. O francês apenas teve tempo de baixar a viseira do capacete de Paletti, antes de afastar a correr. Os socorros foram imediatos, mas a sua missão foi impossível: o italiano estava em agonia, pois a coluna de direcção do Osella ficou cravada no seu peito e, além disso, ficou esmagado da cintura para baixo. Foram precisos 25 minutos para cortar o carro e extrair Paletti dos destroços – com a sua mãe a assistir, desesperada, pois, não se sabe bem como, tinha conseguido saltar para dentro da pista. E foi com a sua mãe à cabeceira que, duas horas depois, lhe foi declarado o óbito, no hospital de Montreal.


Se Paletti não tivesse morrido, acho que ele seria um piloto do estilo “Andrea De Cesaris”. A diferença é que Andrea era muito sortudo por colidir tanto e não sofrer ferimentos muito graves.
Já que eu não tenho habilidade e muito menos dinheiro, o máximo que eu posso fazer é ir para o videogame!
É seguro! (risos)
Abraços!
Lembro-me bem deste GP.
Na minha modesta opinião, no texto há uma incorrecção que deveria ser corrigida.
Com efeito, Didier Pironi só levantou o braço esquerdo e não os dois braços, como os regulamentos de segurança da FISA a isso obrigavam e, pior do que isso, baixou-o logo após a passagem dos primeiros carros que estavam atrás dele pelo que, conjugado com a ainda reduzida experiência no seio da F1 por parte de Riccardo Paletti, fez com que este não se apercebesse que o Ferrari do francês estava parado e a colisão foi fortíssima já que o Osella ia em aceleração máxima dado que era o momento da partida.
Embora Didier Pironi não tenha sido responsabilizado pelo acidente, para mim e não só, não deixa de ser o responsável moral deste acidente porque, conforme acima refiro, não respeitou as normas internacionais de segurança em vigor ao ter baixado o braço – e não os braços – antes de ter sido passado por todos os concorrentes.
Não creio que o facto de Riccardo Paletti usar óculos tenha alguma coisa a ver com este trágico acidente pois se ele visse mal a FISA não lhe teria emitido a super-licença necessária à prática da F1.
Se pretender verificar a veracidade das minhas afirmações, aqui fica o link do vídeo da partida daquele funesto GP do Canadá de 1982.
Cumprimentos e muito obrigado por nos proporcionar o acesso a estes dados.
Vasco
Boa tarde Vasco
Concordo plenamente consigo, quanto ao erro do Didier Pironi, de que eu não me lembrava e, por isso, não fui confirmar através de qualquer vídeo. Sempre pensei que ele tinha sido o culpado do acidente.
Quanto ao facto do Riccardo Paletti usar óculos, as suas dificuldades visuiais e miopia foram, então assinaladas em artigos na Autosprint, por exemplo, pelo que são credíveis. Até porque, nessa altura, a única superlicença que havia era a do dinheiro… e o pai do pobre Paletti estava então entre os mais ricos de Itália.
Um abraço
Hélio Rodrigues