Lotus Europa S1/S2 (1966-1969)

A flecha amarela

Durante uns dois anos, vivi numa velha casa térrea, que em tempos, talvez nos anos 40 e 50, tivera uma taberna anexada. Essa casa ficava mesmo a dois palmos de uma fita de asfalto incerto, que se chamava estrada. Era por aí que corria à desfilada, todos os dias, uma flecha amarela, baixinha a zumbidora.

Nessa altura, com menos de dez anos, não tinha a mínima ideia sobre que carro era aquele. Apenas ficava fascinado com a forma como ele aparecia lá em baixo, de entre os choupos, passava a zumbir e desaparecia lá em cima, na curva à esquerda que também já fez parte destes escritos.
Só um pouco mais tarde, quando essa flecha amarela deu lugar a uma semelhante, mas vermelha, é que soube que o seu nome era Lotus Europa. Esta última flecha já me pareceu menos impressionante, talvez por ter já ultrapassado a idade do deslumbre e ter começado a adquirir a sabedoria do estudante que sai da aldeia para a cidade grande, todos os dias. E, também, essa flecha teve uma vida mais curta que a amarela: o seu dono era o dono de uma fábrica de cerâmica artística, que existia numa aldeia mais acima; e lembro-me vagamente que essa fábrica fechou entretanto – ou aconteceu o golpe de Estado de 1974 e o dono teve que procurar outros ares para respirar melhor. Não sei bem o que sucedeu, mas também não interessa apara a nossa história – que acaba aqui, onde começa a do Lotus Europa

Prazer de condução
O Lotus Europa foi um pequeno desportivo de dois lugares, fabricado pela Lotus Cars, do genial e por vezes visionário Colin Chapman. Lançado em 1966, manteve-se em produção durante uma década, sofrendo diversas evoluções, em especial de índole mecânica e dinâmica.
O Lotus Europa era um carro de desenho quase minimalista – aliás, à boa maneira de Champman e da sua filosofia básica, na onda do “Simplifica-os, torna-os mais leves”. Os primeiros esboços foram assinados, em 1963, por Ron Hickman, que também foi o autor do Elan. Aliás, o Europa foi buscar muitas das suas características ao Elan. O seu chassis era muito leve, fabricado em liga de aço e envolvido por uma carroçaria em fibra, muito aerodinâmica. O Lotus Europa foi, aliás, o primeiro carro de estrada com motor central-traseiro a ser produzido em série. Mas, além da sua carroçaria moldada numa peça única (sem considerar os “capots” dianteiro e traseiro, bem como as duas portas), este desportivo puro e duro incorporava alguma da tecnologia utilizada por Chapman nos seus monolugares de competição. Por exemplo, a suspensão independente às quatro rodas, de triângulos sobrepostos, numa arquitectura simples, leve e eficaz.
O primeiro Lotus Europa foi designado por S1 (ou Type 46) e foi anunciado oficialmente a 20 de Dezembro de 1966. Tinha um motor derivado do bloco de 1470cc utilizado no Renault 16, capaz de desenvolver 82 cv (mais 30 que o original!) e uma caixa de quatro velocidades. O motor e a caixa foram colocados de uma forma nunca antes vista, no exíguo compartimento a eles destinado – e a posição invertida da caixa obrigou a que a passagem das mudanças fosse feita de modo oposto ao tradicional. Muito leve, o Europa apenas precisava de 10s para ir dos 0 aos 100 km/h e era capaz de atingir os 180 km/h. Porque apenas foram construídas 296 unidades, hoje o S1 é um carro difícil de encontrar em boas condições, valendo bem aquilo que custa. Além disso, como aliás aconteceu com as versões subsequentes, foram muitos os que derivaram para a competição, perdendo-se em acidentes irremediáveis. Isto, apesar de a equipa Lotus utilizar em pista o Europa Type 47, que tinha um motor derivado do Ford Cortina, com 1594cc e 165 cv, bem como uma caixa Hewland de 5 velocidades.
Em 1967, foi lançada uma evolução do S1, designada S1B e que tinha como diferenças janelas amovíveis, uma traseira com “design” diferente e painéis interiores de revestimento. A carroçaria em fibra já não estava soldada ao chassis e, embora tal como o primeiro S1 continuasse a ser manufacturado, foram construídas 350 unidades.
O Lotus Europa S2 foi lançado em Abril de 1968. Mecanicamente idêntico ao S1, trazia consigo contudo alguns melhoramentos, como janelas eléctricas, bancos ajustáveis e um novo interior.
Esta versão durou pouco tempo, tendo sido produzida uma evolução com o motor Renault potenciado para os 1564cc, designada S2 Federal. Foram fabricados 3615 S2.
Na década de 70, o Europa recebeu profundos melhoramentos, tal como o motor oriundo do Ford Cortina, com 1558cc e duas árvores de cames (“twin cam”), cuja potência se iniciou nos 115 cv, antes de passar aos 126 cv, com a adopção de carburadores Dell’Orto/Weber e uma caixa de velocidades Renault de 5 relações. Designado Europa TC e TC Special, talvez tenha sido o Europa mais competitivo e amado pelos incondicionais da adrenalina pura e dura, ao estilo audacioso de Colin Chapman. Os números, aliás, não enganam: saíram para a estrada 1580 TC e 3130 TC Special. Sempre produzidos manualmente.
Para que conste, a flecha amarela era um S1 e a vermelha um S2.
Em 2006, a Lotus lançou o Lotus Europa S, um GT de dois lugares, derivado do Elise e que manteve a mesma aura de diversão e prazer de condução que o Europa original possuía.

Texto: Hélio Rodrigues

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