O sueco voador
Um dia, na década de 70, penso que no AutoSport, vi uma foto que me deixou pasmado: um Ford Escort em posição acrobática numa curva para a direita, com uma roda da frente suspensa no vácuo e a traseira em derrapagem perfeitamente controlada. A foto foi tirada num Rali Vinho do Porto e o piloto era Bjorn Waldegaard – o sueco voador.
Ao longo dos tempos, sempre ouvi falar dos “Finlandeses Voadres”, quando o assunto eram os ralis. Acredito que os pilotos da Finlândia mere-cessem esse apodo e que o tivessem garantido através das acrobacias que naturalmente faziam ao longo das provas realizadas no seu país, em especial nos famosos Mil Lagos. Certamente um nome errado, ou pelo menos enganoso – porque, a juntar aos mil lagos, essa prova tinha, isso sim, uns mil saltos! E terá sido de salto em salto que os pilotos de ralis finlandeses ganharam a fama de voadores.
Pois bem, hoje vou falar de um piloto que não precisava nada dos saltos finlandeses para voar. O seu nome é Bjorn Waldegaard e, pela sua pilotagem exuberante, bem pode ser chamado de “Sueco Voador”. Foi graças a ele que conseguir gostar de ralis – e foi também graças à sua inspirada técnica de derrapagem e de espectáculo ao volante que, mais tarde, adoptei Henri Toivonen, praticante de uma técnica semelhante, como o meu (único) ídolo nos ralis.
O primeiro Campeão do Mundo
Bjorn Waldegaard nasceu numa cidadezinha com um nome curioso: Solna. Tinha apenas 18 anos quando se estreou, nas florestais do seu país, com um VW “Carocha”, depressa passando para o volante de um bem mais interessante Porsche, com o qual se foi divertindo, como privado, nos anos seguintes. E foi a Porsche a sua primeira “casa” oficial, em 1968, ganhando de imediato o Rali da Suécia. No ano seguinte, consagrou-se no mítico Rali de Monte Carlo e, até conquistar o primeiro título de Campeão do Mundo de Ralis, em 1979, “Walle” assumiu-se com um piloto versátil, igualmente rápido e demolidor em qualquer tipo de piso, asfalto ou terra, mas especialmente virtuoso na neve. Senhor de uma enorme potência física e de um carácter orgulhoso, mantinha sempre uma calma glaciar nos momentos mais difíceis.
A versatilidade de Bjorn Waldegaard levou-o mesmo a estender os seus interesses às provas de velocidade, como o Targa Florio, onde obteve um 5º lugar absoluto com um Porsche 908, em 1970.
Cinco anos mais tarde, foi contratado por Cesare Fiorio para pilotar o magnífico Lancia Stratos, dominando, com uma pilotagem de antologia, na neve da Suécia e ajudando a marca a conquistar o título mundial de construtores, façanha que repetiu em 1976. Porém, Waldegaard protagonizou no Sanremo desse ano um episódio que define bem a sua personalidade forte e competitiva: na frente da prova, com quatro segundos de vantagem sobre Sandro Munari à entrada para a última etapa, o sueco recebeu ordens para deixar passar o italiano, o que cumpriu. Porém, na derradeira classificativa desobedeceu às ordens recebidas e ultrapassou Munari, vencendo a prova. Em consequência, abandonou a Lancia e assinou pela Ford.
Logo em 1977, conquistou com o Escort três das principais provas de ralis de então: o Safari, o Acrópole e o RAC. Dois anos mais tarde, quando o título foi finalmente instituído, sagrou-se Campeão do Mundo, dividindo-se entre o leve e ágil Ford Escort e o poderoso Mercedes-Benz 500 SLC, com o qual bateu na derradeira prova do calendário, o Rali da Costa do Marfim, o seu principal rival, Hannu Mikkola, garantindo o ceptro.
Bjorn Waldegaard nunca perdeu a espectacularidade da sua pilotagem musculada. Dos 95 ralis pontuáveis para o Campeonato do Mundo, em que participou entre 1973 e 1992, ganhou 16. Waldegaard tornou-se o primeiro especialista nas picadas africanas, ao vencer o Safari, no Quénia, por quatro vezes (1977, 1984, 1986 e 1990) e o Costa do Marfim por três (1980, 1983 e 1986). Além disso, exibindo uma costela mundialista e manifestando que o “jet lag” não era com ele, ganhou também no Québec, em 1979, e na Nova Zelândia, em 1982. Hans Thorszellius foi sempre o seu navegador, até ser substituído, em 1986, por Fred Gallagher.
Em 1992, obviamente que durante mais um Safari, Waldegaard sofreu um violento acidente, quebrando uma perna. Em consequência disso, decidiu que era altura para pendurar o capacete: tinha 48 anos e, ainda hoje, é dele o recorde de piloto mais velho a vencer uma prova do Mundial; adivinhe qual? O Safari, em 1990, aos 46 anos!


Queria só comentar a primeira foto para dizer que a curva com a roda direita de fora de estrada ainda hoje no norte nós conhecemos a dita curva por a”curva Waldegaard” e encontra-se na antiga cls de Luílhas mesmo quase no final mesmo em frente ao campo de futebol de Rossas.