Stéphane Proulx (12/12/1965-21/11/1993)

O sucessor de Villeneuve

Stéphane Proulx é um nome que me deixa triste. Este canadiano de sorriso contemplativo foi o piloto estrangeiro de quem mais próximo me senti, durante os anos em que fiz reportagens sobre a F3000 europeia. Foi meu amigo. Tinha o sonho de chegar à F1, mas o dinheiro acabou-se depressa. Voltou ao Canadá – e, um dia, soube que tinha morrido. Aos 27 anos.

Stéphane Proulx é um nome que pouco dirá a pouca gente. Porém, foi um dos mais impressionantes pilotos canadianos – numa altura em que, órfãos de Gilles Villeneuve, os aficcionados procuravam desesperadamente um sucessor. E, com o seu carácter extrovertido, mas principalmente pela sua coragem e ambição, Proulx depressa ocupou um lugar nos seus corações.
Lembro-me muito bem de Stéphane Proulx. O seu sorriso era constante, mas algo triste; os seus cabelos rebeldes eram outra das suas imagens de marca – tal como a gargalhada espontânea, acompanhada de um “Hei, man!” sinceramente amigo.
Proulx era originário da zona do Quebec, filho de Monique, que foi piloto de Fórmula Atlantic na década de 70 e a primeira mulher a ser apoiada por uma tabaqueira. Conheci-o em 1989, quando chegou à Europa, decidido a fazer carreira na F3000 e, depois de conquistar este campeonato, ascender à F1. E recordo-me que, mal começámos a falar, ele me fez parar e perguntou-me: “Sabes falar inglês?” Disse que sim e, a partir daí, nunca mais tentei falar com ele em francês. A razão? Muito simples: ele não conseguia perceber patavina do meu sotaque tradicional, com os “rrr” bem carregados; por exemplo, não dizia “à gauche”, como os franceses, transformando o “au” em “ô”, mas sim de forma aberta, acentuando o “a” – soava como “gáuche”.
Outra característica de Stéphane Proulx era a sua boa disposição matinal. Quando nós, jornalistas, ainda estávamos a digerir a azia de uma noite mais complicada, ele aparecia de repente, no “paddock”, com o mesmo sorriso de sempre. Um dia, simplesmente falhei totalmente o meu inglês, ficando a gaguejar uma frase inacabada; tanto bastou para uma sonora palmada nas costas, acompanhada de um “Hei man! What a big night, hein?” – e a gargalhada que nunca mais esqueci.

Doença cruel
Stéphane Proulx não conseguiu, na Europa, dar seguimento ao sucesso que tinha granjeado no seu país natal, de onde trazia um título na Fórmula Ford 2000, aos 22 anos (6 vitórias em 9 corridas)  e uma encorajadora primeira temporada na Fórmula Atlantic.
No seu primeiro ano na F3000, Proulx correu com a GA Motorsport, trazendo já consigo o seu patrocinador pessoal, a marca de tabaco Player’s. Foi a sua melhor época, culminando com um 5º lugar em Bugatti. O ano seguinte, 1990, já não foi tão bom, apesar de ter assinado com uma muito melhor equipa, a Pacific Racing – que, nessa altura, mudou a sua tradicional decoração Marlboro para o azul e branco da Player’s.
Proulx era um piloto rapidíssimo, mas na Europa a impressão que deixou foi de alguma imaturidade; a sua coragem envolvia-o amiúde em situações complicadas em pista. E as excelentes qualificações que obteve nunca foram traduzidas em resultados – nesse ano, o melhor que conseguiu foi um 7º lugar em Nogaro, nunca pontuando. Um terrível acidente em Enna-Pergusa, a que se seguiram mais dois, em Birmingham e Le Mans, trilharam o seu destino: no final dessa temporada, sem dinheiro e confiança, regressou ao Canadá.
No seu querido Quebec, voltou a ser apoiado pela mãe, vencendo em 1991 o Campeonato de Fórmula Atlantic, com um triunfo em Vancouver. Regressou à Europa no ano seguinte, participando em quase em todo o campeonato francês de F3, com um Dallara. Nesse ano ficou doente, infectado com o vírus da SIDA, que lhe foi transmitido pela sua namorada francesa.
De novo no Canadá e mesmo doente, insistiu em continuar a correr, enquanto as forças o permitissem. Em Abril de 1993, em Phoenix, numa corrida de Fórmula Atlantic, Proulx sofreu no crânio o embate de uma roda perdida pelo carro de outro piloto, ficando com ferimentos graves. Chegou a estar em coma e nunca mais recuperou; o seu corpo fragilizado pela SIDA desistiu de lutar em 21 de Novembro. Morreu em casa, em Sainte-Adèle, com a mãe à sua cabeceira.
Esta minha singela homenagem não termina sem duas recordações. A primeira, o seu enorme desejo de chegar à F1; a segunda, quando lhe perguntei se se considerava o sucessor de Gilles Villeneuve, ele me respondeu, com um brilho imenso nos seus olhos sempre vivos: “Não, nunca! O Gilles é o meu ídolo, sempre foi. Como poderia suceder-lhe?” Ou seja, como podemos nós suceder aos nossos ídolos?
Curiosamente, o Reynard com que Stéphane Proulx correu na Europa tinha as cores e assemelhava-se estranhamente ao de outro grande piloto do Canadá, também, ele infelizmente desaparecido em trágicas circunstâncias: Greg Moore.

Texto: Hélio Rodrigues

Uma resposta a Stéphane Proulx (12/12/1965-21/11/1993)

  1. FSD diz:

    fiquei feliz por conhecer a história de Stephane Proulx

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