VW Type 2 T1 “Pão de Forma” (1950-69)

O primeiro carro que conduzi

Existiram dois “Pães de Forma” na minha família. Ambos tiveram um destino pouco ortodoxo, mas antes disso deixaram-me algumas boas recordações. Por exemplo, foi o primeiro carro que conduzi em toda a minha vida: uma experiência inesquecível. Entre outras coisas, estava ao volante do ícone da geração beatnick: “Make Love, Not War!” – ainda um pouco a minha geração.

O VW “Pão de Forma” foi assim baptizado por nós, portugueses, pelo seu formato tal e qual aquele tipo de pão deslavado. O nome original era Volkswagen Type 2 T1 – apesar de ter sido a primeira incursão da marca alemã no mercado das furgonetas, ficou o “2”, porque o Type 1 foi o “Carocha”. O Type 2 foi, também, o precursor das VW Transporter, apodo que começou quase logo a usar e manteve até hoje, apesar de ser bem diferente na forma e no resultado final. Curiosamente, o Type 2 foi ideia de Ben Pon, um holandês concessionário da VW no seu país e que chegou a ser piloto… de F1, com a Porsche! A primeira maqueta do carro apareceu em 1947 e foi logo aceite pelos responsáveis da marca, tendo o Type 2 começado a ser fabricado em Wolfsburg, dois anos mais tarde.

Os meus “Pães de Forma”
A minha família teve dois: o primeiro, foi herdado do meu avô, que fazia vida de saltimbanco, andando de feira em feira. O meu avô nunca teve carta e nunca conduziu; por isso, os motoristas eram o meu pai, seu genro, e o seu filho mais velho, meu padrinho.
O primeiro “Pão de Forma” era de 1954 e tinha a matrícula BE-20-41. Dormi lá dentro muitas vezes, em camas improvisadas sobre as roupas, que faziam parte do negócio. Recordo com especial sensação as noites de chuva, que fustigava furiosamente a chapa da furgoneta. Esta tinha um motor de 1192cc e 36 cv, uma evolução do bloco original de 1131cc e 25 cv, introduzido no modelo em 1953. Era a versão de carga, sem bancos e mesmo sem janelas nas duas portas la-terais, que abriam para fora. O seu destino foi inglório: algures no início dos anos 70, foi vendida para uma aldeia na Serra dos Can-deeiros, tendo terminado a sua carreira como coelheira, num quintal! Muitos anos mais tarde, descobri a sua carcaça abandonada num eucaliptal: ia a passar na estrada, olhei e vi-a, quase podre de ferrugem; parei e caminhei pelo meio dos tojos amarelos, até junto dos restos abandonados. Ainda se podia ver uma parte da matrícula: a letra o E e o número 41.
O segundo “Pão de Forma” era mais recente, de 1963; o seu número de matrícula era EI-47-34 – e foi o primeiro carro que conduzi, tinha já 17 anos! O EI-47-34 era uma versão mista, com banco atrás, que podia ser transformado num piso plano e, aí, transportar a mercadoria comercializada nos mercados. A carroçaria tinha, por isso, vidros em toda a extensão. O motor era já o bloco 1.5 litros, de 42 cv – um motor tão bom e bem aceite, introduzido na frota em 1962 que, no ano seguinte, o motor 1.2 foi descontinuado. E, de facto, o motor era mesmo bom: o meu “Pão de Forma” atingia facilmente os 140 km/h, o que era alucinante dada a configuração do seu habitáculo, com um banco corrido de três lugares e uma simples chapa a separar-nos do caminho: hoje, é inimaginável o que era viajar num veículo com as características aerodinâmicas e de estilo do “Pão de Forma”. Além disso, com o final do negócio, o EI-47-34 acabou debaixo de um telheiro de zinco, durante quase uma década; um belo dia, foi objecto de uma OPA por parte de um sucateiro vizinho. O problema era transportá-lo, por estrada, nos 400 metros que separavam as duas casas. Afinal, a solução foi simples: substituiu-se a velha bateria, colocou-se um litro de “gasosa”, deu-se à chave e… vruuuuum! O velho coração do Volks começou a bater; claro que tudo o resto estava em estado para lá do péssimo, mas a verdade é que a furgoneta lá conseguiu chegar ao seu destino final, apodrecendo lado a lado com outras relíquias – entre elas, uma velha camioneta Opel, de 3,5 toneladas e motor a… gasolina!
O EI-47-34, já o disse, recordo-o também como o primeiro carro que conduzi, alta madrugada, numa deserta EN, rumo a casa. E tenho que confessar que nunca mais tive uma sensação assim. Não só por ser a primeira vez que estava ao volante de um carro; mas, talvez mais por estar por trás DAQUELE volante – uma coluna vertical, que desaparecia na chapa do piso e cuja enorme “roda”, de três aros e com buzina ao meio, estava quase na horizontal! Depois, ter que manusear a alta, fina e também vertical alavanca das mudanças, com uma bola no cimo, para engrenar as quatro relações da caixa, através de um jogo de inexperientes pés nos pedais, sem fazer ranger as engrenagens, foi outra aventura – pelos vistos, passada com distinção. Acresce finalmente referir que os próprios pedais eram estranhos: o acelerador era tipo tábua; o travão e a embraiagem eram tocos de metal revestidos a borracha, que funcionavam empurrando para baixo uma haste também metálica. Porém, toda esta parafernália “tecnológica” foi anulada pela incrível sensação de se estar a conduzir… dentro da estrada, pois convém re-cordar que estava separado do as-falto, que desa-parecia literalmente debaixo do meu assento, por uma fina chapa pintada de cinzento.
O VW “Pão de Forma” foi evoluindo. O Type 2 T1 deu lugar, em 1969, ao T2, que se manteve em produção durante dez anos. Foi o derradeiro “Pão de Forma”; a partir daí, o T deu definitivamente lugar à Transporter, palavra que estava na sua génese – e, hoje, a furgoneta VW Transporter nada tem a ver com o Type 2 T1 original. Muito menos, a forma, que perdeu em definitivo no T3.

Texto: Hélio Rodrigues

5 respostas a VW Type 2 T1 “Pão de Forma” (1950-69)

  1. Mario Prista diz:

    Um carro de que sempre gostei, e acabei por ter um nos anos 90. Fiz uma autocaravana, mas infelizmente desfiz-me dele…

  2. João Caldeira Pessanha diz:

    Estou a retaurar uma VW Pão de Forma de 1954, que foi comprada pelo meu Avô e oferecida aos meus Pais tinha eu 2 anos de idade!!!
    Por se tratar de um objecto de muita estimação na n/ Família, encontrando-se em razoável estado de conservação , motor a funcionar , etc. resolvi com mais dois irmãos encetar a tarefa de a restaurar o mais genuinamente possível . 16/02/20

    • Excelente decisão! No final de todo esse trabalho, se quiser partilhar connosco todos os passos que teve que dar e as dificuldades que encontrou, estamos à disposição para efectuarmos uma reportagem e publicarmos um trabalho sobre a sua VW “Pão de Forma”. Um abraço

      Hélio Rodrigues

  3. Jorge rocha diz:

    Ando à procura de uma pão de forma auto caravana em óptimo estado. O meu contacto é tlm- 918188158, email- jorgerochap@gmail.com

  4. João Caldeira Pessanha diz:

    Já terminei o restauro da carrinha VW Pão de Forma e gostaria muito de partilhar convosco esta experiência, da qual tenho muito orgulho.

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