Um meteoro na F1
Stefan Bellof foi um meteoro que passou pela F1. O seu aspecto frágil escondia um temperamento férreo e uma coragem temerária, que por vezes raiava a inconsciência. O seu desaparecimento precoce cerceou uma carreira nascente, que nunca se saberá onde o teria levado. Muitos viam-no já como um futuro Campeão do Mundo.
A primeira vez que ouvi falar de Stefan Bellof foi quando ele se estreou na F2 e, com um improvável Maurer, ganhou as duas primeiras corridas em que participou. Nessa altura, comprava religiosamente várias publicações ligadas ao automobilismo de competição – e, entre elas, a Sport Auto e o AUTOhebdo. Numa delas, encontrei uma longa reportagem sobre este jovem de ar franzino, um grande sorriso numa boca enorme, cabelos loiros rebeldes, à James Dean. Devorei a entrevista e, órfão de Gilles Villeneuve, a partir daí, tornei-me fã irredutível deste rapaz de Giessen. Até ao fim da sua vida, aos 27 anos.
Nasceu para vencer
Stefan Bellof era daqueles pilotos que, quanto mais brutal o desafio colocado pela potência no final das rédeas que a dirigiam, mais maestria colocava no seu domínio. Transfigurava-se; a sua ousadia não tinha limites. Medo e impossível eram palavras que não constavam no seu dicionário; foram a estrela da sua vida.
Nasceu em Giessen, uma cidadezinha situada entre Nurburgring e Hockenheim. Uma coincidência trágica e, também, profética: não muito longe, tinha nascido Wolfgang von Trips; e nasceria mais tarde Michael Schumacher – os três pilotos alemães que mais talento trouxeram do berço para serem Campeões do Mundo. O primeiro, ficou à beira da glória; o segundo, não viveu muito para contá-la; o terceiro, tornou-se numa lenda viva e, hoje, está de novo nas bocas do Mundo, em busca do título perdido nos três anos em que esteve retirado. Mas que afrodisíacos possuem aqueles ares, vitalizados pelos odores das Ardenas e do Eifel, para produzirem pilotos assim? Talvez a proximidade relativa a Spa-Francorchamps e ao Nurburgring, dois mitos da coragem mais pura ao volante.
Portanto, Bellof não se destacou nas fórmulas de promoção: afinal, nem sequer teve tempo para isso. Era, mais que um piloto em busca de títulos, um jovem ansioso por seguir em frente. Do título alemão na FF 1600, em 1980, passou a meio da temporada para a F3 – e quase venceu de novo. Mas a paciência não fazia também parte da sua filosofia de viver a vida – e, em 1982, estreou-se na F2, ganhando com o também estreante Maurer/BMW as duas primeiras provas do Campeonato, em Silverstone e Hockenheim. Os holofotes acenderam-se sobre a sua cabeça desgrenhada e o sorriso luminoso – e apenas se apagaram naquela fatídica tarde em Spa, três anos mais tarde. Ou talvez não: Bellof está hoje no panteão dos heróis, aqueles que viveram depressa a vida e morreram jovens.
Em 1983, depois de uma primeira experiência, no ano anterior, com um Kremer C-5, Bellof decidiu disputar o Campeonato do Mundo de Sports-car, com um Porsche 956 da Rothmans, que partilhou com o veterano Derelk Bell. Nesse ano, em Nurburgring, fez uma volta ao velho e fantasmagórico circuito em 6m25,91s – e, até hoje, nunca ninguém conseguiu fazer mais rápido. A sua primeira coroa de Campeão do Mundo conquistou-a em 1984, depois de seis vitórias, sempre com Bell, ao qual se juntou John Watson. Mas, nessa altura, estava já na F1.
Bellof foi descoberto pelo velho lenhador Ken Tyrrell, que foi um caçador de talentos desde que, nos anos 50, concluiu que era um péssimo piloto e decidiu fundar a sua própria equipa, para desenvolver campeões em potência. Em Bellof, pensou ter encontrado mais um – mais talentoso que Jackie Stewart, mais corajoso talvez que François Cévert.
Da sua curta e meteórica passagem pela F1, recordo com enorme prazer aquele polémico Grande Prémio do Mónaco, que Alain Prost ganhou depois do seu amigo Jacky Ickx, que fazia de director de prova, ter interrompido a corrida, que estava a desenrolar-se debaixo de chuva torrencial. Toda a gente fala e lembra um Toleman que, magistralmente pilotado por outro jovem, de seu nome Ayrton Senna da Silva, se aproximava a passos largos do francês. E que, sem a interrupção da corrida, poderia tê-la ganho. Pois eu não: os meus olhos e o meu vencedor estavam colados num Tyrrell azul-escuro que, ainda melhor pilotado por um alemão com um nome de sonoridade russa, estava a rodar ainda mais depressa e, não apenas se aproximava de Prost, como cada vez mais de Senna. Esse sim, teria sido o vencedor desse Grande Prémio do Mónaco. O seu nome? Stefan Bellof!
Aqui, acresce uma breve confissão: nessa altura, Ayrton Senna ainda não me tinha desencantado com a sua arro-gância; era mais um jovem de enorme e entusiasmante talento e grande futuro na F1. Por isso, nessa altura o meu coração não era contra Senna, mas sim a favor de Bellof.
A morte de Bellof não foi uma surpresa para mim – foi, apenas, mais um choque, no meu baú de memórias que retenho, sobre a F1. Ele nunca poderia ter conhecido uma sorte diferente – tal como aconteceu com James Dean.
Durante os 1000 Kms. de Spa, prova pontuável para o Mundial de Sportscar, Bellof e Ickx lutavam arduamente pela liderança, com o belga na frente do alemão. Na descida para o Raidillon, em plena curva de Eau Rouge, Bellof tentou passar Ickx, que não o viu. Era uma manobra que apenas um visionário como Bellof teria tentado. O contacto foi inevitável e, a 300 Km/h, ambos os Porsche entraram em despiste. Mas, enquanto o de Ickx se imobilizou após alguns piões, o de Bellof desviou-se secamente para a esquerda e, sem espaço físico para o piloto tentar perder velocidade ou inércia, esmagou-se contra as protecções laterais, exactamente no sítio onde ancorava uma bancada. O Porsche explodiu em chamas e, para Bellof, o destino marcou a hora. Dois meses mais tarde teria festejado 28 anos. Tinha assinado havia pouco um contrato, para ser segundo piloto da Ferrari no ano seguinte. Foi-lhe impossível cumpri-lo: e foi esta a segunda vez em que a palavra impossível entrou no seu dicionário; a primeira, foi em 1 de Setembro de 1985, durante aquela manobra.


Eu lembro-me do GP do Monaco do STEFAN BELLOF cada vez mais perto do SENA. Ainda hoje discuto com os meus amigos.
Só se lembram do SENA……………………….
O ser Brasileiro para muitos era tudo. Para mim, não.
O BELLOF deveria ter vvivido mais, tal como uns anos antes o JOSE
CARLOS PACE………..