Um carro deveras estranho
Para mim, o Citroën Ami sempre foi um carro meio estranho. Quer na primeira versão, o 6, quer na segunda, o 8, sempre me pareceu um carro amarrotado – como se quem o fez se tivesse esquecido de passar a chapa a ferro, por forma a ficar direitinha e brilhante. Do 6 e do 8, retenho na memória várias histórias, desde trágicas a cómicas.
As trágicas, essas, são para esquecer. As outras, são mesmo várias: é que sempre me fez um pouco de confusão entrar naquele carro, onde tudo parecia tão frágil e prestes a quebrar-se! A começar pela alavanca da caixa de velocidades, ali mesmo à flor do porta-luvas, cavado no interior da lataria, sempre ondulada e moldável à medida de um murro bem dado, que formava a carroçaria do Ami; sem esquecer o volante de um único raio e o espelho retrovisor, montado sobre um fino pé, no alto do “tablier”.
E, quando se andava nele, era preciso estar preparado para uma viagem em montanha-russa! O farfalhar do motor, ruidoso até mais não; o bambolear da carroçaria, de curva para curva, até fazendo esquecer o relativo conforto que a suspensão tradicional da Citroen impunha ao Ami; a sensação estonteante de velocidade, mesmo que o mostrador do velocímetro rectangular dificilmente passasse dos 100 km/h – tudo isso contribuía para que se estivesse permanentemente à espera de uma catástrofe. Ou, então, de uma anedota para mais tarde recordar.
Eis duas delas. A primeira, e mais antiga, tem a ver com uma boleia que me foi dada por um vizinho, dono de um café e de um talho – e que tinha a figura que se espera de um taberneiro e, também, talhante de aldeia: rubi-cundo, apoplético (veio até a morrer disso mesmo, uma apoplexia, antes de fazer 50 anos, um pouco mais tarde), de negro bigode farfalhudo e sempre com um sorriso aberto de dentes enormes e amarelos. Ora esse senhor tinha outra particularidade: o seu velho e decrépito Ami 8, onde ia buscar os garrafões de vinho e sacos de carne vermelha ao armazém e com o qual andava sempre a fundo. Um belo dia, estava eu à espera que chegasse o autocarro para me levar ao liceu, vi aproximar-se o temido Ami 8; ainda recuei um pouco, fingindo-me distraído, mas nada: ele não hesitou e travou com uma enorme chiadeira dos estreitos pneus. Não tive outro remédio a não ser aproveitar a simpática oferta. Pois bem: foram os sete quilómetros mais terríveis da minha vida, com as curvas feitas sem travar, as portas quase a roçarem o asfalto. Até que, à saída de uma dessas curvas, estava uma rocinante furgoneta, a 0 à hora, em plena trajectória; com um tremendo guinchar, o Ami ziguezagueou e estacou a milímetros da traseira do outro carro. Aí, o homenzarrão voltou-se para mim, com um sorriso maior que todos os outros que já lhe vira, e vociferou: “É preciso travar antes de bater!” Bater, lá isso batia eu – mas os dentes!
A outra história é mais recente. Um amigo meu do liceu e da faculdade licenciou-se e, na euforia do canudo, decidiu dar uma prenda a si mesmo: um rutilante, mas obviamente amarrotado, Ami 8 em octogésima nona mão (pelo menos!). Era verde-escuro e, de noite, nem se notava a ondulação da chapa. Ufano, apresentou-me o novo brinquedo e, como ele tinha uns ténues laivos de piloto (o irmão fazia nessa altura “karting”, com o GêHéfe, o Luís Figueiredo e o Figueiredo e Silva) fomos passear. Nessa altura já não me assustava com o baloiçar da carroçaria, nem com o guinchar das rodas nas curvas. Tudo correu bem, as árvores desviaram-se sempre de forma simpática do nosso caminho e as curvas tornavam-se rectas para nós não termos trabalho. Até que tivemos uma ideia brilhante: ir até à aldeia próxima, onde sabíamos que havia um bailarico e, portanto, cachopas disponíveis para pasmar com o magnífico Ami 8.
Bem pensado, ainda melhor feito: mesmo no meio do largo da aldeia, o meu amigo parou o bólide e carregou a fundo a tábua que era o acelerador do Ami 8 – para que o triturante roncar do motor se fizesse ouvir, acima da música dos Seis de Portugal. E, de facto, ouviu-se mesmo bem, pois a tábua desceu, mas já não subiu, colada que ficou ao tapete que forrava o chão do carro! Ainda me lembro do meu amigo advogado, atrapalhadíssimo, a enrolar o seu 1,80 debaixo da coluna do volante, a tentar achar a tábua e a trazê-la para a posição inicial, de onde nunca deveria ter saído!
Seja como for, tristes ou alegres, as recordações que o Ami me deixou ficarão para sempre ligadas às formas estapafúrdias da sua carroçaria, em especial a primeira geração, com a janela traseira inclinada no inverso do habitual, ou seja, para trás. Isto, apesar de até se conseguir encontrar algum estilo no Ami 8 e na sua forma de pseudo-coupé.
Mas, afinal, o que foi (é…) este amigo Citroën?
Um bom amigo
Os menos avisados, tendem a pensar que o Ami tem nos seus genes qualquer coisa do 2cv ou, até, do Dyane, seus contemporâneos. E tem, de facto – embora o Ami não tenha nascido da intenção da Citroën de substituir o 2cv. A razão por trás do Ami está na necessidade de enfrentar a concorrência nacional, pois a Renault tinha iniciado uma nova visão do automóvel, ao lançar o R4L. A Citroën percebeu que era preciso criar um carro que fosse maior e menos rústico que o 2cv e com maior espaço interno – nasceu assim o Ami.
Muitos dos seus componentes mecânicos eram os mesmos do 2cv – desde o motor de 602cc e dois cilindros, à sus-pensão inde-pendente, sem esquecer o chassis, onde foi montada uma carroçaria que tinha algumas características pioneiras, como os faróis rectangulares. A versatilidade do Ami não era ficção: os bancos traseiros eram facilmente escamoteáveis e podiam, invertidos, fazer de mesa num piquenique!
O Citroën Ami tornou-se, assim, facilmente um bom… amigo do seu dono. E não foi por acaso que, por várias vezes, o Ami foi o carro mais vendido no mercado francês; e a produção atingiu o notável número de 1840936 unidades!
Curiosamente, o “design” do Ami ganhou adeptos ferrenhos, em particular da sua janela traseira de inclinação invertida – uma solução que, ainda há bem pouco tempo, a Citroën copiou no C4, embora de forma menos arcaica e angulosa. Ao contrário do Ford Anglia, que adoptava um mesmo tipo de janela atrás, nunca se ouviu depreciar esta solução do Ami, nem ficou conhecido, como o carro inglês, por “Ora Bolas”. E, quando surgiu o Ami 8 e a sua solução “hatchback”, as pazes foram feitas em definitivo com os criadores gauleses.
Em termos mecâ-nicos, o Ami viu o pequeno motor de 602cc evoluir para uma cilindrada de 610cc (subindo a potência de 20 para 26 cv); mais tarde, o Ami 8 teve uma versão Super, onde foi montado um bloco de quatro cilindros e 1015cc, de 61 cv, mais tarde também usado no GS. E, ousadia das ousadias, o Ami serviu mesmo de cobaia para algumas experiências vanguardistas, como foi o caso do protótipo “coupé” M35, onde a Citroën colocou um motor de rotor simples Comotor Wankel, também usado no NSU Spider e, em duplicado, no NSU RO 80.


Tenho um AMI-8 Break, aqui no Brasil. Como todo citroen, seja qual for o modelo, ele é voltado para um público específico, ou melhor, ‘diferente’. Não que os seus proprietários sejam mais ou menos exigentes: são apenas ‘diferentes’. Apreciam as linhas, quase nunca convencionais, da marca, a suspensão e a propostas inovadoras apresentadas e até, por que não, os defeitos de cada modelo. Não é um carro para superar os concorrentes, tão pouco para competir com eles; apenas trás soluções e tecnologia menos ortodoxas e isso já é o bastante para surpreender. Adoro o meu AMI, como carro de coleção é claro, e apesar da fragilidade de alguns dos seus componentes, se bem conduzido oferece um enorme prazer a quem dirige.
Olá Fernando, meu nome é Jason e sou dono de um 2CV e um 3CV. Estamos fazendo um cadastro de todos os Citroën bicilíndricos do Brasil e gostaria de ter informações e fotos sobre o seu carro. Se você gostou da ideia, me escreva no jason@oglobo.com.br
Sr. Fernando Gonçalves tenho dois ami8 72 e estou a procura de um terceiro, por favor se souber indicar onde possa encontrar, entre em contato comigo, não precisa estar em bom estado de conservação. agradeço antecipadamente, aguardo resposta.
Allan Bandeira
92 9981-9150
Olá Allan! Estamos fazendo um cadastro de todos os Citroën bicilíndricos do Brasil e gostaria de ter informações e fotos sobre o seu carro. Se você gostou da ideia, me escreva no jason@oglobo.com.br
tenho um e foi um dos melhores que já possui.sempre sem problemas