Oficial e cavalheiro
Elio de Angelis era a antítese do piloto entusiasmante. Metódico e calmo, não deixava por isso de ser um lutador talentoso. Verdadeiro gentleman, nas pistas deixava de ser aquele cavalheiro inato que o tornou lendário, para ser um autêntico oficial guerreiro, sempre pronto para luta. Essa foi uma das garantias que me apresentou para se tornar num dos meus ídolos.
Mas existiram outras. Uma delas – e aqui confesso um inédito e nunca mais repetido, por motivos óbvios! olhar para o meu umbigo: chamava-se Elio! E, como toda a agente sabia da minha paixão pela F1 (nessa altura, hoje é muito diferente…), eu era o “Elio de Angelis” entre os meus amigos.
Outra, mais sim-bólica: o Elio de Angelis foi o primeiro piloto de F1 que vi ao vivo! Vou contar como foi. Nessa altura, trabalhava numa empresa que tinha duas horas de intervalo para o almoço. Na quinta-feira anterior ao primeiro GP de Portugal da era moderna, em 1984, existiram treinos livres, para os pilotos descobrirem uma pista para eles nova, o Autódromo do Estoril. Eu e dois amigos, “voámos” até ao circuito e, sabendo que era impossível entrar no recinto, colocámo-nos estrategicamente junto das vedações, na estrada de acesso ao túnel que leva à bancada E. O meu primeiro contacto com a F1 foi um Lotus negro e dourado a travar descontroladamente antes dos “S”, a fazer pião e a ficar parado na escapatória; o piloto saiu do “cockipt”, olhou para o carro e tirou o capacete: era Elio de Angelis. O primeiro piloto de F1 que “conheci” em toda a minha vida!
Soube da sua morte, tal como a de Henri Toivonen, semanas antes, por um jornal. Estava a atravessar o velho jardim do Campo Pequeno, sombreado pelos altos plátanos e jacarandás floridos, quando li a notícia. Recortei-a e, ainda não há muito tempo, descobri-a, amarelada pelos anos, entre antigos e inúteis papéis, que condenei ao lixo com um sorriso nostálgico. Outros tempos, em que os heróis davam tudo, mas mesmo tudo, de si, em prol da paixão que os consumia.
Boas famílias
Elio de Angelis podia não ser dono de uma pilotagem espectacular; pode ter ganho apenas dois Grandes Prémios de F1, em 108 partidas – mas tinha um inegável talento, que cultivou de forma metódica numa aprendizagem meteórica nas chamadas fórmulas de promoção. Até chegar à F1 com apenas 21 anos.
Por isso, Elio de Angelis foi detentor de alguns recordes de juventude na F1 – por exemplo, até 1997 foi o mais jovem piloto de a subir ao pódio de uma prova de F1, no caso no GP do Brasil de 1980. Ainda hoje, ele é o 3º piloto mais jovem de sempre a ter pontuado; o 5º mais jovem a ter chegado ao fim de uma corrida de F1; e o 6º mais jovem a ter ganho na F1 (Áustria, em 1982).
Romano, Elio de Angelis era herdeiro de uma das mais ricas famílias italianas. Por isso, recebeu uma educação esmerada: sabia falar francês, era exímio tocador de piano e não se coibia de cantar para animar os amigos nos serões. Na verdade, De Angelis quase representou a fábula do gato rico que tocava piano e falava francês: foi o derradeiro representante de uma gesta glamourosa e quase poética da F1, em que pilotar um automóvel de corrida era a parte mais difícil de uma “dolce vita” vivida sempre no limite e para o prazer mais puro e eficaz. E à qual pertenceram François Cèvert e, mais longe ainda no tempo, Eugénio Castellotti, Von Trips, Godin de Beaufort, até mesmo o nosso Nicha Cabral – para apenas citar alguns. Foi isso, definitivamente, o que me seduziu em Elio de Angelis.
Elio de Angelis era imensamente popular no “paddock” e um dos carácteres mais queridos entre os seus colegas de profissão. Apesar de oriundo de uma família rica, trouxe desde o berço os genes da competição: o seu pai Giulio era, então, um dos mais conceituados pilotos de “offshore” italianos, com alguma reputação mundial. De Angelis teve uma breve, mas bem sucedida, passagem pelos “karts”, antes de ascender aos monolugares e vencer o campeonato de Itália de F3, em 1977. Em 1979, começou na F1 e, na sua carreira na modalidade, estreou-se com a Shadow, marcando três pontos no seu primeiro ano. Depois, entre 1980 e 1985, esteve na Lotus, onde foi o preferido de Colin Chapman; fez o britânico lançar ao céu o seu tradicional boné preto uma vez mas, com a sua morte, nos finais de 1982 e, mais tarde, a chegada de Ayrton Senna a uma Lotus já des-caracterizada e liderada por Peter Warr, a sua estrela começou a empalidecer – até, desiludido, decidir bater com a porta e rumar à Brabham; a política não era o seu forte, mas sim pilotar por e com prazer. De Angelis foi, assim, o primeiro colega de equipa trucidado pela máquina Senna.
Na Brabham, o romano debateu-se com o dificílimo e perigoso BT-55 e foi na tentativa de melhor perceber o radical carro de-senhado por Gordon Murray que sofreu, no Le Castellet, o seu fatal acidente.
Dois ou três anos mais tarde, fui a Paul Ricard, fazer uma reportagem. Nessa altura, a longa e dramática recta Mistral já não era utilizada na sua totalidade e não tive forma de ir até ao local onde De Angelis perdeu a vida; mas fiquei de frente para o horizonte, no final da recta, a olhar e a tentar imaginar a tragédia que sucedeu nesse dia 14 de Maio de 1986: uma inócua sessão de treinos privados, sem médicos e comissários de pista; um carro que perdeu o controlo a mais de 300 km/h, depois de se ter soltado o “aileron” traseiro, embateu nas protecções a saltou para lá dos limites da pista, desfeito e envolto em chamas. Os primeiros a chegar foram os próprios colegas de pista de De Angelis, que tentaram extrair o piloto, ainda vivo, dos destroços. Missão impossível – os socorros chegaram muito tarde e o helicóptero apenas pousou cerca de meia hora após o desastre. Tarde de mais para salvar o piloto, que morreu no hospital no dia seguinte, sem recuperar a consciência. Sem dúvida, foi o fim de uma era: progressivamente, a F1 perdeu o seu “glamour”, tornando-se no negócio tortuoso e cruel que hoje é. E onde os pilotos são, apenas, máquinas de um fantástico Casino Royale.


Great blog!
Belo texto !!! Digno de um fantástico piloto dos tempos em que os homens pilotavam as máquinas e não o contrário …
Que perda triste! Como todos os outros! Mas, morrer por uma provável falta de socorro? Lamentável!
Boa noite a todos , acompanhei a trajetória deste piloto fantástico , um espírito elevadíssimo, sem sombra de duvida .. saudades.
Edu., São Paulo Brasil
ESSE ERA UM GRANDE. MEU PRIMO, POR PARTE DE MINHA AVÓ, MÃE DE MEU PAI, FRIDA DE ANGELIS. MAIS UM ATLETA DA FAMILIA.